Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura
Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura

«Deus faz crescer as suas flores mais belas no meio das pedras mais áridas»

«Deus faz crescer as suas flores mais belas no meio das pedras mais áridas»

Imagem elvan/Biogstock.com

No nosso itinerário de catequeses sobre a esperança cristã, hoje desejo falar-vos de Cristo ressuscitado, nossa esperança, tal como o apresenta S. Paulo na primeira carta aos Coríntios [cap. 15]. O apóstolo quer dirimir uma problemática que seguramente estava no centro das discussões na comunidade de Corinto.

A ressurreição é o último argumento colocado na carta, mas provavelmente, em ordem de importância é o primeiro: tudo, com efeito, assenta neste pressuposto.

Falando aos seus cristãos, Paulo parte de um dado inquestionável, que não é o resultado de uma reflexão de um qualquer homem sábio, mas um facto, um simples facto que interveio na vida de algumas pessoas. O cristianismo nasce daqui. Não é uma ideologia, não é um sistema filosófico, mas um caminho de fé que parte de um acontecimento, testemunhado pelos primeiros discípulos de Jesus. Paulo resume-o deste modo: Jesus morreu pelos nossos pecados, foi sepultado e ao terceiro dia ressuscitou e apareceu a Pedro e aos doze. Este é o facto: morreu, foi sepultado, ressuscitou e apareceu, isto é, Jesus está vivo! Este é o núcleo da mensagem cristã. (...)

Se, com efeito, tudo acabasse com a morte, em Jesus teríamos um exemplo de dedicação suprema, mas isso não poderia gerar a nossa fé. Foi um herói, não! Morreu e ressuscitou, por isso a fé nasce da ressurreição. Aceitar que Cristo morreu, e morreu crucificado, não é um ato de fé. Ao contrário, crer que ressuscitou, sim. A nossa fé nasce na manhã de Páscoa.



O cristianismo é graça, é surpresa, e por este motivo pressupõe um coração capaz de assombro. Um coração fechado, racionalista, é incapaz do assombro e não pode compreender o cristianismo, porque o cristianismo é graça e encontra-se no assombro



Paulo faz um elenco das pessoas a quem Jesus ressuscitado aparece. Temos aqui uma pequena síntese de todas as narrativas pascais e de todas as pessoas que entraram em contacto com o Ressuscitado. No topo do elenco estão Cefas, isto é, Pedro, e o grupo dos doze, depois «quinhentos irmãos», muitos dos quais podiam ainda dar o seu testemunho, depois é citado Tiago. O último da lista - como o menos digno de todos - é ele mesmo, Paulo, que diz de si mesmo «como um aborto».

Paulo usa esta expressão porque a sua história pessoal é dramática, ele não era um acólito: ele era um perseguidor da Igreja, orgulhoso das próprias convicções; sentia-se um homem feito com uma ideia muito clara do que era a vida com os seus deveres. Mas neste quadro perfeito, um dia acontece o que era absolutamente imprevisto: o encontro com Jesus ressuscitado, no caminho de Damasco. Aí não foi apenas um homem que caiu por terra: foi uma pessoa agarrada por um acontecimento que lhe virou do avesso o sentido da vida. E o perseguidor torna-se apóstolo, porque «eu vi Jesus vivo, vi Jesus Cristo ressuscitado»; este é o fundamento de Paulo, da nossa Igreja e da nossa fé.

Que belo é pensar que o cristianismo, essencialmente, é isto! Não tanto a nossa procura relativamente a Deus - uma procura, uma verdade, tão vacilante -, mas sobretudo a procura de Deus em relação a nós. Jesus apanhou-nos, agarrou-nos, conquistou-nos para não mais nos deixar. O cristianismo é graça, é surpresa, e por este motivo pressupõe um coração capaz de assombro. Um coração fechado, racionalista, é incapaz do assombro e não pode compreender o cristianismo, porque o cristianismo é graça e encontra-se no assombro.



Ser cristãos significa não partir da morte, mas do amor de Deus por nós, que derrotou a nossa acérrima inimiga. Deus é maior que o nada, e basta apenas uma vela acesa para vencer a mais escura das noites



E então, mesmo sendo pecadores, se os nossos propósitos de bem permanecem no papel, ou se, olhando a nossa vida, nos damos conta de termos somado muitos insucessos... Na manhã de Páscoa podemos fazer como aquelas pessoas de que nos fala o Evangelho: ir ao sepulcro de Jesus, ver a grande pedra deslocada e pensar que Deus está a realizar por mim, por todos nós, um futuro inesperado.

Ir ao nosso sepulcro, todos nós temos um pouco dele dentro de nós, ir até lá e ver como Deus é capaz de resolver. Aqui há felicidade, alegria e vida, onde todos pensavam que só houvesse tristeza, derrota e trevas. Deus faz crescer as suas flores mais belas no meio das pedras mais áridas. Ser cristãos significa não partir da morte, mas do amor de Deus por nós, que derrotou a nossa acérrima inimiga. Deus é maior que o nada, e basta apenas uma vela acesa para vencer a mais escura das noites.

Paulo grita, ecoando os profetas: «Onde está, ò morte, a tua vitória? Onde está, ò morte, o teu aguilhão?». Nestes dias de Páscoa, levemos este grito no coração. E se nos perguntarem o porquê do nosso sorriso dado e da nossa paciente partilha, então poderemos responder que Jesus continua aqui, que continua a estar vivo no meio de nós. Que Jesus está aqui, na praça connosco, vivo e ressuscitado.»

Mensagem aos peregrinos de língua portuguesa: «Queridos amigos, deixai-vos iluminar e transformar pela força da ressurreição de Cristo, para que as vossas existências se convertam num testemunho da vida que é mais forte do que o pecado e a morte. Feliz Páscoa para todos!».









 

Papa Francisco
Fonte: Sala de Imprensa da Santa Sé
Trad.: SNPC
Publicado em 19.04.2017

 

 
Relacionados
Destaque
Pastoral da Cultura
Vemos, ouvimos e lemos
Perspetivas
Papa Francisco
Teologia e beleza
Impressão digital
Pedras angulares
Paisagens
Umbrais
Mais Cultura
Vídeos