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A Cultura do Desporto e o Desporto na Cultura

Com a conquista da taça do Euro 2016 e com a participação da seleção nacional no Mundial 2018, reconheceu o Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, ouvindo os Referentes diocesanos, dedicar a Jornada deste ano à reflexão sobre o desporto e a sua importância na cultura e na transmissão de valores ao homem e à sociedade. Congratulo-me por esta opção porque ninguém ignora a capacidade do desporto para mobilizar e para atrair a atenção das populações e como o desporto se torna veiculo de transmissão de ideais e valores.

Agradeço aos conferencistas e a todos os que participam e vão intervir nesta Jornada pelo notável contributo que nos vem dar com esta reflexão oportuna e necessária.

O Papa S. João Paulo II no discurso aos homens do Desporto, por ocasião do Jubileu do ano 2000 (28 de outubro de 2000) começa por afirmar que «o desporto é decerto um dos fenómenos relevantes que, com uma linguagem que todos compreendem, pode comunicar valores deveras profundos». Mais ainda, «pode ser veículo de excelsos ideais humanos e espirituais, quando é praticado no pleno respeito das regras». Contudo não esconde a sua manipulação para outros fins quando refere que «pode também defraudar a sua autêntica finalidade se der espaço a outros interesses, que ignoram a centralidade da pessoa humana» (nº1).

Fica, deste modo, patente as virtualidades do desporto mas também as possibilidades de ser utilizado para fins que não dizem respeito à dignidade humana.

Quando nos referimos ao desporto no âmbito da pastoral da cultura, estamos certamente a reconhecer a sua importância na edificação da pessoa e da sociedade atendendo ao desenvolvimento global do homem e da sociedade orientada para o bem comum e alicerçada nos verdadeiros valores que integram o Reino de Deus.

Aliás no mesmo discurso diz-se que «as potencialidades do fenómeno desportivo tornam-no um significativo instrumento para o desenvolvimento global da pessoa e um fator mais útil do que nunca para a construção de uma sociedade mais à medida do homem» (nº 2).

E, concretiza sublinhando que «o sentido de fraternidade, a magnanimidade, a honestidade e o respeito pelo corpo virtudes sem dúvida indispensáveis a todo o bom atleta contribuem para a edificação de uma sociedade civil, onde o antagonismo é substituído pela competição, onde ao confronto se prefere o encontro e à contraposição rancorosa, o confronto leal» (Ib.). Aliás, acrescenta-se, «desta forma, o desporto não é um fim, mas um meio; pode tornar-se veículo de civilização e de genuíno entretenimento, estimulando a pessoa a dar o melhor de si e a evitar o que pode ser perigoso ou de grave prejuízo para si ou para o próximo» (Ib.).

Como a cultura é sempre situada no tempo, ao referirmo-nos ao desporto não podemos deixar de lamentar as evidências de imagens tremendamente negativas que percorrem este e que apagam ou pelo menos escondem os verdadeiros valores a que este é chamado na sociedade atual.

Na verdade, na referida alocução, S. João Paulo II denuncia esta situação realçando que «infelizmente, não são poucos, e talvez estejam a tornar-se mais evidentes, os sinais de um mal-estar que às vezes põem em discussão os próprios valores éticos que fundamentam a prática desportiva» (Ib., nº 3).

Assim, «ao lado de um desporto que ajuda a pessoa, há de facto outro que a prejudica; ao lado de um desporto que exalta o corpo, há outro que o mortifica e o atraiçoa; ao lado de um desporto que persegue ideais nobres, há outro que só recorre ao lucro; ao lado de um desporto que une, há outro que divide» (Ib., 3).

Nesta mesma ocasião o Papa S. João Paulo II convida a incorporar no desporto os valores espirituais para que este corresponda a uma edificação global do ser humano. Eis as suas palavras com as quais afirma que «enquanto favorece a robustez física e tempera o caráter, o desporto nunca deve distrair dos deveres espirituais quem o pratica e o aprecia» (Ib. Nº4). Aliás, sublinha que «seria como correr, segundo quanto escreve São Paulo, apenas "por uma coroa corruptível", esquecendo que os cristãos jamais podem perder de vista "a coroa imarcescível" (cf. 1 Cor 9, 25)» (Ib.). Deste modo, reconhece-se que «a dimensão espiritual deve ser cultivada e harmonizada com as várias atividades de entretenimento, entre as quais se insere também o desporto» (Ib.).

Recorde-se que esta intervenção e interesse manifestado pelo Papa foi acompanhado pela Conferência Episcopal Portuguesa que em Nota Pastoral datada de 13 de novembro de 2003 acentua os valores evidenciados pelo Papa S. João Paulo II já enumerados e que realçam uma verdadeira promoção da pessoa e da sociedade.

Na homilia da Celebração do Jubileu dos Desportistas (29 de outubro de 2000), o Papa S. João Paulo II refere duas perspetivas relevantes do desporto a que denomina de importância notável, considerando-o como sinal dos tempos; e grande responsabilidade dos desportistas do mundo para a construção de uma nova civilização do amor.

Quanto à primeira, sublinha que «hoje a prática desportiva adquire uma importância notável, porque pode favorecer nos jovens a confirmação de valores relevantes como a lealdade, a perseverança, a amizade, a partilha e a solidariedade». E, acrescenta ainda que «precisamente por este motivo, nos últimos anos ela desenvolveu-se cada vez mais como um dos fenómenos típicos da modernidade, como um "sinal dos tempos" capaz de interpretar as novas exigências e as renovadas expectativas da humanidade». Aliás, realça que «o desporto difundiu-se em todos os quadrantes do mundo, ultrapassando diversidades de culturas e de nações».

Quanto à sua abrangência global e a sua difusão mundial refere que «em virtude do perfil planetário adquirido por esta atividade, é grande a responsabilidade dos desportistas do mundo». Deste modo, «eles são chamados a fazer do desporto uma ocasião de encontro e de diálogo, para além de toda a barreira de língua, raça e cultura». Já que, «com efeito, o desporto pode oferecer uma contribuição válida para o entendimento pacífico entre os povos e colaborar para a confirmação da nova civilização do amor no mundo».

Certamente, agora que estamos prestes a iniciar o Mundial 2018, a oportunidade desta reflexão é de todos reconhecida e necessária para nos consciencializarmos mais e melhor para uma valorização do desporto em beneficio da pessoa e da sociedade atendendo aos valores necessários para a promoção da dignidade humana e a do bem comum na sociedade.

Termino com as palavras do Concilio que referem que «a Igreja lembra a todos que a cultura deve orientar-se para a perfeição integral da pessoa humana, para o bem da comunidade e de toda a sociedade» (GS, 59). E, acrescenta-se que «por isso, é necessário cultivar o espírito de modo a desenvolver-lhe a capacidade de admirar, de intuir, de contemplar, de formar um juízo pessoal e de cultivar o sentido religioso, moral e social» (Ib., 59).



 

+João Lavrador
Presidente da Comissão Episcopal da Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais
Imagem: Leonard Zhukovsky/Bigstock.com
Publicado em 02.06.2018

 

 
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