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A morte de Deus e os ateus

A morte de Deus e os ateus

Imagem Lamentação sobre a morte de Cristo (det.) | Andrea Mantagna | C. 1480 | Pinacoteca de Brera, Milão, Itália

O núcleo fundamental da fé cristã - que a separa claramente de qualquer outra religião e que a acomuna ao ateísmo - é a morte de Deus.

Esta simples verdade, nua e crua, é muitas vezes ignorada. Sejam aqueles que afirmam como os que negam a fé cristã na existência de Deus tendem a colocar a cruz de lado.

O que quer dizer a morte de Deus na cruz? É só um homem que morre, ou é o próprio Deus que existe e que morre? Se Deus é Ser absoluto, que funda e cria cada coisa, como pode morrer? Como é possível para o Ser esvaziar-se de si mesmo para dar lugar ao nada, para se tornar negação de si mesmo, negatividade absoluta?

Se Deus, todavia, é também Ser pessoal, de pessoa que subjaz e vem ao encontro da pessoa, então Deus morre com cada pessoa que morre, para depois renascer de novo.

Pode também dizer-se que Ser absoluto e fundador não é qualquer coisa de imóvel e abstrato, mas em contínuo dinamismo e em contínua reciprocidade com o nada. Ser e nada não se negam um ao outro, mas com-penetram-se. O ser lança-se para o nada e o nada dilata-se para deixar espaço ao ser. Este dinamismo é lançamento vital para o existir: é assim que o existir de Deus nasce, morre e renasce. O que quer dizer morrer? E portanto, ao mesmo tempo, viver?



Somos chamados a decidir diante da árvore do bem e do mal. Para poder decidir é preciso tomar consciência. Intelecto e vontade são ambos necessários para o avançar da vida humana que conduz inevitavelmente à morte para dar espaço a nova vida



Lê-se no início do Génesis que Adão e Eva, assim que comeram a maçã da árvore do bem e do mal, se deram conta de que estavam nus. Ao mesmo tempo tornaram-se mortais.

Tudo o que nasce, morre. Mas pode verdadeiramente dizer-se que um animal morre? O animal simplesmente "flui": como entrou na vida, dela sai, para dar espaço a nova vida. O animal não sabe que está nu.

Como homens e mulheres, nasce-se e morre-se na autoconsciência da própria nudez, do bem e do mal de que somos capazes e de que depende a geração de nova vida. Somos pessoas concretas, capazes nós mesmos de vida e de morte, num tempo e espaço bem limitados.

Esta autoconsciência é responsabilidade moral. O isto ou aquilo de Nietzsche é o de cada cristão como de cada ateu convicto. Somos chamados a decidir diante da árvore do bem e do mal. Para poder decidir é preciso tomar consciência. Intelecto e vontade são ambos necessários para o avançar da vida humana que conduz inevitavelmente à morte para dar espaço a nova vida.

Com o seu compreender e querer, o homem é imagem de Deus, voz e mão de Deus e instrumento de vida - ou de morte - na história.



A história está repleta de sangue, dos mártires cristãos como daqueles que ao cristianismo se opuseram, de quem foi morto pela própria fé como de quem negou qualquer fé. Sobre o sangue e sacrifício de todos eles funda-se o progresso da humanidade em caminho e daqueles que com orgulho chamamos os direitos do homem



Morte de Deus é revelação e mistério absoluto do seu nascimento: liberdade e omnipotência do ser que se afirma no seu anular-se.

O homem que quer substituir-se a Deus sem querer morrer com Ele perde as suas raízes: despoja-se do ser de cuja nova vida renasce.

Morre - sem renascer - o homem que nega asperamente a pessoa e a existência de Deus, mas também aquele que segue um Deus construído para uso e consumo do homem, pretexto de arbítrio e destruição.

Cristo e todos aqueles que o seguiram na sua morte de cruz viveram a morte de Deus, para poder depois viver com Deus o seu renascimento. Cristo, e todos os cristãos, estão portanto em diálogo aberto com todos quantos proclamam a morte de Deus. Os ateus convictos são também apóstolos de Cristo. Também os ateus, se não se proclamam a si mesmos, proclamando a morte de Deus dão espaço para o seu renascimento.

O que está escrito não são apenas belas palavras ou abstrações. A história está repleta de sangue, dos mártires cristãos como daqueles que ao cristianismo se opuseram, de quem foi morto pela própria fé como de quem negou qualquer fé. Sobre o sangue e sacrifício de todos eles funda-se o progresso da humanidade em caminho e daqueles que com orgulho chamamos os direitos do homem.

Também hoje, em apoio destes direitos erguem-se as vozes libertadoras dos mártires cristãos como as dos ateus convictos, que no Egito ou noutros lugares, têm a coragem de proclamar a própria fé ateia, arriscando a própria vida e a dos próprios entes queridos. Assim fazendo, e mesmo sem o saber, também eles defendem e proclamam a fé cristã na morte de Deus.



 

GianPaolo Dotto
In L'Osservatore Romano
Trad.: SNPC
Publicado em 18.04.2017

 

 
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