
A Igreja deve ter uma relação mais próxima com a Arte Contemporânea
O telefone toca: «Fala da Cidade do Vaticano», diz uma voz. «Que piada mais velha», pensa Claudio Parmiggiani, que desliga.
O telefone tem que tocar mais umas tantas vezes até que se convença que é mesmo do Vaticano. Então lembra-se de um padre da sua zona, alguns meses antes, que lhe perguntou de forma vaga se ele estaria preparado para realizar uma obra de arte para a Igreja. O processo é conduzido com diplomacia.
Encontros no Vaticano com o director dos bens culturais, o secretário-geral da conferência dos bispos, e, finalmente, com o próprio cardeal Ruini. Nenhum assunto é especificado, mas com surpresa Parmiggiani vê um livro sobre a mesa: «Sculture d’Ombra», sobre as suas obras executadas com fumo. “Este é o género de trabalho que esperamos que venha a criar”.
Claudio Parmiggiani (nascido em 1943) recorda: “Cresci com o ateísmo, como se fosse uma religião”. Um dos seus familiares usava um martelo e uma foice bordados sob a lapela do casaco durante a altura fascista. Uma memória antiga é a de uma carroça arrastado por bois, que levava os corpos de dois homens mortos ao lado de um lago coberto de nenúfares. “Tudo estava ligado à terra, ao mito; a memória era sobre a morte, a compaixão de tudo, a guerra”.
Ele relembra as paredes dos pátios, as pequenas igrejas de aldeia, cheirando a incenso e a lírios, estradas umbrosas, regatos claros, onde «a vinha abraçava o olmo, e o sonho de Virgílio ainda perdurava». A infância de Claudio, como em muitos artistas, está muito viva. Sempre foi um artista solitário, e embora seja patente que o carácter do seu trabalho está próxima da «Arte Povera», nunca fez parte desse grupo liderado pelo crítico Germano Celant desde os anos 70.
Os trabalhos de Parmiggiani são elegantes. As suas instalações fazem uso de espaços harmoniosos e estão perfeitamente adequados a eles. É um artista que trabalha simbolicamente, com arquétipos e alusões literárias, mas que também e sempre pretende fazer coisas belas. Na Colecção Maramotti, aberta ao público no Reggio Emilia, no passado Setembro, o trabalho mais memorável pela sua força e simplicidade foi o «Caspar David Friedrich», um barco negro, com velas escuras suspenso num espaço branco, originalmente executado para o lazaretto da La Vieille Charité, em Marselha.
É sobre os barcos «ex-votos» pendurados nas igrejas para agradecer um regresso seguro, a barca de Caronte que leva almas para o Hades, o espiritualismo do artista romântico alemão, e os lentos barcos negros da infância de Parmiggiani, “com homens como sombras transportando areia e nevoeiro”. Viagens, luzeiros, o mar, e tudo que representam metaforicamente, estão implícitos no seu monumental Farol Islandês, construído num agreste extremo da Islândia. As cores são habitualmente austeras, preto, cinzento, branco, mas muito antes de Damien Hirst pendurar borboletas em telas, Parmiggiani usava-as no entendimento de que elas eram um símbolo ancestral da psique.
Apesar do seu ateísmo, o seu trabalho está repleto de imagens que vêm das Igrejas pré-conciliares. As suas Iconóstases de estátuas veladas e telas são uma alusão aos dias entre a Sexta-Feira Santa e o Domingo de Páscoa, quando todas as imagens são recobertas, no luto pela morte do Senhor. É um artista melancólico. A casa onde viveu em criança ardeu; o milagre económico italiano permitiu que uma fealdade crassa fosse imposta a um dos mais belos países do Mundo; em todo o lado ele sente que estamos a perder o contacto com a história e a espiritualidade recebida por gerações. Escreveu: “A Cultura nunca foi tão discutida como agora, mas é uma cultura que não coincide com a vida. Talvez precisemos de reflectir e reconhecer que o mundo está faminto e que não quer saber desta chamada ‘cultura’”.
Em declarações ao The Art Newspaper, disse “Há uma história da arte que tem acompanhado a história até hoje. É uma aventura que acaba aqui, e uma nova aventura vai começar, mas não sei qual será.” Nos anos 70 começou a trabalhar com fumo, pó e fuligem: um seu auto-retrato tem uma sombra projectada; memórias de pinturas numa parede e divisões marcadas com sombras de livros. Estes foram os trabalhos que agradaram ao Vaticano. Parmiggiani pensa que obteve esta misteriosa encomenda por causa do frades eremitas de Camaldoni, onde, alguns anos antes, a pedido deles, expôs um dos seus trabalhos. E sente-se muito honrado com este pedido, apesar de encarar os assuntos teológicos com alguma desconfiança. No entanto ele pensa que a Igreja é o último reduto onde a palavra «espiritual» ainda tem sentido, e o seu valor é defendido. Por isso fez uma imagem de fumo com dois metros de altura, representando um homem numa cruz, e no passado Outono o Papa Bento XVI falou aos bispos de Itália com uma ampliação dessa imagem atrás de si. Mais tarde, o Papa disse a Parmiggiani: “Estou muito contente por ver o seu trabalho; a Igreja sempre teve uma relação próxima com a Arte Moderna, mas não a Contemporânea». E continuou: “Terá que me dizer um dia como consegue pintar com fumo”, mas Parmiggiani sorriu-se. Isso é um segredo que ele mantém, mesmo do Papa.
A retrospectiva de Claudio Parmiggiani, “Apocalypsis cum Figuris”, pode ser vista no Palazzo Fabroni, Pistoia, até 23 de Março de 2008. Veja algumas das imagens dessa exposição:



© Anna Somers Cocks | The Art Newspaper
LAF
Publicado em 11.12.2007
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