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Evocação

Abbé Pierre em Lisboa

Trabalhai! Trabalhai! Trabalhai!

A vossa época é totalmente diferente de todas as outras épocas da História: vós sois a primeira geração planetária. Hoje, já nada pode acontecer num sítio qualquer sem que, pelos media, tenhamos disso conhecimento imediato. Sabemos das guerras civis, das inundações na China…. Não podeis dizer: «Não sabíamos!». Estais condenados a saber tudo. Estais destinados a trabalhar nessa perspetiva global.

Existem no mundo forças que convergem para a unidade, que transformam o mundo, até que um dia toda a terra seja uma hóstia oferecida ao Senhor.

Quando sofrerdes, não esqueçais o que nós sofremos, a minha geração. Eu tinha dois anos quando começou a guerra. Vi feridos, mutilados, tratados pelo meu pai, que era médico. Vinte anos depois, vivi a II Guerra Mundial, essa horrível guerra planetária e, depois, as guerras coloniais.

Hoje a realidade é dolorosa, mas nos momentos de sofrimento, lembrai-vos da nossa geração. É importante, para não desencorajar, lembrar que essa geração viveu também alegrias muito belas.

Trabalhai, mas não para fazerdes fortunas. Conheci um homem que tinha uma fortuna colossal e que perdeu tudo. Ele dizia-me: «Não aderirei à Igreja enquanto ela condenar o dinheiro». Eu respondi-lhe: «A Igreja não condena o dinheiro em si, ela só pergunta: De onde vem o dinheiro? Como é utilizado?».

O que os pobres desejam é honestidade na utilização do dinheiro, não um igualitarismo ridículo. O mundo espera daqueles que têm possibilidades de estudar e são privilegiados, não igualdade, mas sim honestidade. No sítio onde trabalham, esses privilegiados devem cuidar que haja trabalho e que todos sejam honestamente remunerados. É isso que as pessoas esperam.

Sois todos responsáveis em comunidade pelo privilégio da cultura. Sois responsáveis pelo amanhã.

A humanidade procura a unidade, através de meios por vezes violentos. Em França temos uma corrente de extrema-direita que grita contra os negros e os árabes: «A França aos franceses! Os outros que sofram a fome, mas no país deles». Eu tenho o direito de o dizer, porque arrisquei a minha vida na defesa da pátria. Mas, como cristão, tenho o dever de não o fazer. Em vez disso, defendo: «A terra a toda a família humana!».

Tendes o dever de colocar a vossa ciência ao serviço de toda a família humana, através da honestidade do vosso agir. Usai a ciência para ajudar a solucionar o problema da fome. Vede o exemplo da fome no Sudão e o que Israel fez do nada do deserto. Os nossos irmãos judeus tinham a vantagem do grande número de peritos e cientistas, mas causaram escândalo por se terem esquecido dos que aí viviam.

Trabalhai com uma visão inteligente do futuro.

Sou velho, tenho 86 anos e desde os 6 ou 7 anos que tenho um desejo muito forte de morrer porque, quando o meu avô morreu, me explicaram como era bonito no céu. Quando pensava que tinha entregue tudo a Deus, verifiquei que não tinha ainda entregue este desejo de morrer novo. E aqui estou, com esta idade. É preciso prudência ao falar com Deus porque, por vezes, ele toma-nos a sério!

Amai a vida. Uma vez participei num programa de televisão em que tinha como interlocutor um homem muito violento, muito agressivo, que me perguntou: «O que é a vida?». Respondi: «A vida é um bocado de tempo dado a liberdades para termos a capacidade de amar. Nós, formiguinhas, somos os únicos com uma pequena parte de liberdade, de capacidade de amar e de responder com amor ao amor. Mas porquê tantas crueldades, tantas atrocidades? Deus é bom, é amor, apesar dessas infelicidades. A vida ganha sentido se, com a minha liberdade, eu quiser aprender a amar para o encontro com o Amor eterno». Quando acabei estas palavras pouco usuais, o meu interlocutor, homem ateu, conhecido pela blasfémia, gritou: «Porque não me disseram isso quando eu era pequeno?».

Repeti isto na Argélia. Tendo eu acabado de falar sobre este mesmo assunto a um grupo de estudantes do ensino secundário, fui abordado por um grupo de estudantes muçulmanos, que me pediram: «Importa-se de repetir isso que disse sobre a vida, para o podermos escrever? É que é isso mesmo que nós procuramos!».

Por isso vos digo: pela maneira de viver, mostrai aos outros o verdadeiro Deus do amor. Para o mundo importa o que os cristãos fazem, não o que dizem. A este propósito, ainda ontem fui recebido pelo vosso Presidente da Câmara, que me disse honestamente: «Não acredito em Deus!». Contei-lhe que, ao fazer casas com os companheiros, procurei um homem não-crente para arranjar cimento. Disse-me que eu era o primeiro padre que entrava em casa dele, e que queria falar sobre coisas que o escandalizavam, tais como as diferenças que tinha observado entre o enterro de um homem rico e o de uma mulher pobre. No final deu-me o material e, antes de eu sair, disse-me: «Não sei se Deus existe, mas se existe, ele está no que o senhor faz: servir os pobres!».

 

Abbé Pierre
Universidade Católica Portuguesa, Lisboa, 23.9.1998
Recolha e tradução: Graça Pereira Coutinho
© SNPC | 05.08.12

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