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Andreas Vesalius: O precursor da TAC nasceu há 500 anos

Imagem Desenho de Andreas Vesalius | D.R.

Andreas Vesalius: O precursor da TAC nasceu há 500 anos

Hoje, as modernas tecnologias digitais – TAC e ressonância magnética – permitem ao médico observar a estrutura anatómica do corpo humano em todos os seus detalhes. Isto torna-se fundamental no âmbito da saúde porque o corpo humano é, ao mesmo tempo, objeto e sujeito da medicina: objeto enquanto os órgãos, os tecidos, as células de que é composto são a sede dos processos patológicos sobre os quais a medicina intervém para curar; sujeito porque representa o trâmite psicofísico através do qual a pessoa vive e exprime a sua condição de doente, dimensão existencial de que a medicina deve igualmente ter em conta se quer restituir a plena saúde ao paciente.

Durante quase 1500 anos, a ideia que o médico tinha do corpo humano foi aproximativa e distorcida, baseada apenas na descrição de textos “eminentes” dos antigos médicos, o grego Hipócrates (c. 460-337 a.C.) e o romano Galeno (c. 129-199 d.C.). A anatomia era apresentada com palavras, redigida essencialmente a partir das investigações efetuadas sobre animais e depois transferidas, por analogia, para o ser humano. Só no Renascimento a renovação cultural da arte e da ciência envolve também a medicina.

Há cinco séculos, a 31 de dezembro de 1514, nascia em Bruxelas o protagonista desta revolução do conhecimento do corpo humano, que abriu as portas ao nascimento da medicina moderna. O flamengo Andreas van Wesel, mundialmente conhecido com o nome latinizado de Andreas Vesalius, é considerado o pai da anatomia pelo seu inovador modo de estudar e ensinar esta disciplina: não só, como até então, por conhecimento indireto (por analogia, dos animais ao homem) e escrita (através da palavra), mas direta (mediante a execução de dissecações de cadáveres) e visual, utilizando a imagem (desenho) como modo de investigação e transmissão do saber.

Após a formação de base realizada em Lovaina e Paris, iniciou em 1537 os estudos em Pádua, cuja faculdade de medicina era considerada a mais importante da Europa. Aqui obtém o doutoramento a 1 de dezembro daquele mesmo ano, e poucos dias depois, reconhecendo a sua mestria, o senado académico confere-lhe a docência de cirurgia. O ensinamento compreendia também as dissertações de anatomia.

Vesalius não se contentou com as tradicionais lições “ex cathedra”, como professor que explicava o corpo humano lendo os antigos textos de medicina. As suas lições provinham sempre do real, com as dissecações que ele próprio executava, evidenciando os detalhes anatómicos observados e sublinhando os erros e incongruências dos escritos do passado. A verdade, frisava, não estava naquilo que durante séculos os textos de Galeno tinham transmitido, mas naquilo que cada um, com os seus próprios olhos, podia diretamente observar no corpo anatomizado que estava diante de si.

Fiel a este princípio, começou a desenhar ilustrações anatómicas a partir das suas dissecações. Depois, para tornar mais eficaz este sistema de transmissão do saber, confiou a tarefa às mãos mais especializadas de verdadeiros artistas, formados no ateliê de Tiziano Vecellio, como Jan Sephan van Calcar, entre outros. Nasce assim o primeiro livro de anatomia moderna, o “De humani corporis fabbrica” (“A fábrica do corpo humano”), completado em 1542 e publicado em sete volumes nos anos seguintes em Basileia, o mais importante centro de difusão livresca do tempo.

O texto era complementado com mais de trezentas grandes xilografias, cada qual comentada sinteticamente com poucas palavras explicativas. A utilização das ilustrações como ajuda visível e o uso da impressão como meio de divulgação das suas descobertas são parte essencial da estratégia comunicativa vencedora da obra de Vesalius. A correção dos múltiplos erros de Galeno e a consolidação da dissecação de cadáveres como modos de pesquisa anatómica e de rigorosa verificação da estrutura do corpo humano representam a metodologia inovadora da sua obra científica.

Como bom professor, deu-se conta de que a obra era demasiado extensa e cara para os estudantes. Por isso publicou, com o mesmo editor, um compêndio didático – “De humani corporis fabbrica librorum epitome” – em que as descrições da anatomia humana eram resumidas em poucas páginas e as xilografias foram concebidas de maneira a poderem destacar-se e sobrepor-se.

Contestador, antecipador, inovador, Andreas Vesalius morre a 15 de outubro de 1564 em Zaquintos, próximo da Grécia, na sequência de um naufrágio ocorrido no regresso de uma peregrinação a Jerusalém. Sem o seu trabalho e a sua obra, a medicina moderna teria tardado a nascer e a crescer.

Uma mostra patente até 1 de fevereiro de 2015 no Museu de Anatomia da Universidade de Basileia, “De Vesalius à anatomia virtual”, recorda e percorre as etapas históricas do conhecimento do corpo humano, iniciadas precisamente com a impressão, naquela mesma cidade, da obra do investigador. Da exposição do texto do revolucionário médico flamengo até às extraordinárias imagens que se obtêm hoje com os equipamentos que permitem explorar ao vivo e nos mais pequenos detalhes a estrutura anatómica macro e microscópica do ser humano, percorre-se uma viagem fascinante para conhecer, a partir de dentro, a nossa complexa e maravilhosa realidade corpórea.

 

Vittorio A. Sironie
In "Avvenire"
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado em 30.12.2014

 

 
Imagem Desenho de Andreas Vesalius | D.R.
Vesalius não se contentou com as tradicionais lições “ex cathedra”, como professor que explicava o corpo humano lendo os antigos textos de medicina. As suas lições provinham sempre do real, com as dissecações que ele próprio executava, evidenciando os detalhes anatómicos observados e sublinhando os erros e incongruências dos escritos do passado
Contestador, antecipador, inovador, Andreas Vesalius morre a 15 de outubro de 1564 em Zaquintos, próximo da Grécia, na sequência de um naufrágio ocorrido no regresso de uma peregrinação a Jerusalém. Sem o seu trabalho e a sua obra, a medicina moderna teria tardado a nascer e a crescer
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