Prémio de Cultura Árvore da Vida - Padre Manuel Antunes
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Prémio Árvore da Vida 2012

Arquitetura de Nuno Teotónio Pereira é «vislumbre de beleza e silêncio», diz diretor da Pastoral da Cultura

O diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, padre José Tolentino Mendonça, considera que a arquitetura de Nuno Teotónio Pereira é um «vislumbre de beleza e silêncio» dominado pela «humanidade», «frugalidade» e «pobreza».

Nuno Teotónio Pereira recebeu esta quarta-feira o Prémio Árvore da Vida – Padre Manuel Antunes, atribuído anualmente pela Igreja Católica para distinguir a relação entre fé e cultura, numa sessão realizada na sala de conferências da igreja do Sagrado Coração de Jesus (1970), em Lisboa, monumento nacional de que foi coautor.

O arquiteto de 91 anos coloca «interrogações à Igreja», pelo que «é importante não escamotear as dificuldades de relação e um percurso que alberga a crença e a descrença», observa o poeta em declarações ao Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura.

A relação da fé com o mundo, a austeridade e a noção de espaço são os traços mais fortes que o padre Tolentino Mendonça deteta numa leitura espiritual da arquitetura do premiado.

Ao referir-se à relação do arquiteto com a fé, o biblista vinca que «a Igreja não abandona ninguém» e respeita o «encontro silencioso que em cada pessoa se realiza com Deus».

A cerimónia, a que assistiram cerca de 100 pessoas, contou com a presença dos bispos que compõem a Comissão Episcopal da Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais: D. Pio Alves (presidente), D. João Lavrador e D. Nuno Brás (vogais).

 

O que diz à Igreja a atribuição do Prémio Árvore da Vida a Nuno Teotónio Pereira?

Este prémio é um motivo de grande alegria para a Igreja porque no percurso de Nuno Teotónio Pereira, que interroga a própria Igreja, ela vê refletidas intuições e experiências que traz no coração desde sempre.

A primeira é um grande sentido do humano. Refere-se consensualmente que a arquitetura de Nuno Teotónio Pereira privilegia o encontro com as pessoas. Ele teve sempre a dimensão social como um traço do seu pensamento e ideário, manifestando grande preocupação com os que não têm casa e com a necessidade de construir habitações dignas para todos. É por isso uma concretização do que a Doutrina Social da Igreja pugna.

Ao mesmo tempo a sua arquitetura é um vislumbre de beleza e silêncio. Penso nas igrejas e no Mosteiro de Sassoeiros [Cascais], que ele construiu a partir da gramática modernista mas com uma capacidade de recolhimento e hospitalidade, num espírito quase frugal e austero que reflete bem o centro da experiência cristã, manifesto nas palavras de Jesus: «bem-aventurados os pobres em espírito porque é deles o Reino dos Céus».

Na arquitetura despojada de Nuno Teotónio Pereira temos essa visão de uma essencialidade que se liga bem com a visão mais vasta da vida e do Homem que a Igreja tem.

Nuno Teotónio Pereira coloca também interrogações à Igreja. É importante não escamotear as dificuldades de relação e um percurso que alberga a crença e a descrença. É preciso dizer que Deus é para todos nós, até ao fim, uma pergunta. Nós somos buscadores de Deus, não somos administradores de Deus. Abrimos a ele a nossa vida e o nosso coração, e aí crentes e não crentes fazem um caminho muito solidário.

Parece-me igualmente importante situar Nuno Teotónio Pereira numa geração que em diversas áreas, como as artes plásticas, literatura e arquitetura, viveu com grande idealismo e verdade o cristianismo mas depois entrou, de certa forma, em rutura com a Igreja. É preciso situar historicamente certas tomadas de posição, entender o que está por trás desse inconformismo e perceber que a fé é uma sabedoria do tempo. O tempo dos homens, iluminado pela marca do Espírito, faz vir ao de cima mais o que nos une do que o que nos separa.

Nesse sentido é também uma alegria muito grande esta espécie de reencontro entre Nuno Teotónio Pereira, a sua obra e o que ela representa, e a Igreja Católica em Portugal.

 

Que traços de espiritualidade podemos encontrar nas obras religiosas de Nuno Teotónio Pereira?

Penso que há três traços fundamentais numa leitura espiritual da arquitetura de Nuno Teotónio Pereira.

A primeira é a relação da fé com o mundo. A fé é fermento na massa – não substitui a massa. Nuno Teotónio Pereira busca uma inscrição quase natural, um apagamento e ocultamento do religioso no mundo, como a mulher que pega na mão de fermento e o esconde na massa. É essa presença escondida no coração do mundo que a arquitetura de Nuno Teotónio Pereira evidencia.

O segundo traço é o da austeridade, quase frugalidade. Não há espaço para uma ornamentação nem para o excesso da forma, mas há uma limpidez, quase uma transparência, deixando as próprias estruturas visíveis, mostrando como a experiência cristã é ir até ao osso, ao lugar mais íntimo e essencial.

O terceiro aspeto é a noção do espaço. Uma experiência que se tem no Mosteiro de Santa Maria do Mar, em Sassoeiros, é o facto de as celas serem mínimas; mas esse espaço mínimo, habitado por uma inteligência espiritual, faz com que o seu residente sinta que nada lhe falta, numa relação muito articulada e harmoniosa entre o interior e o exterior, mostrando que a experiência humana é uma só.

 

A atribuição do Prémio é sinal da vontade de diálogo que a Igreja tem em relação à cultura?

Eduardo Lourenço diz no prólogo à “Heterodoxia” que um mistério talvez maior e mais inexplicável do que a crença é a descrença. Penso que quem é crente tem de dar e reconhecer a dignidade de um percurso pela não crença, um percurso humana e espiritualmente muito exigente.

A Igreja não abandona ninguém, não deixa ninguém pelo caminho. Respeita aquele encontro silencioso que em cada pessoa se realiza com Deus, e por isso o percurso crente de Nuno Teotónio Pereira é riqueza, desafio e interrogação que os crentes integram, sem querer atenuar a diferenciação, mas ao mesmo tempo abraçando esta espécie de património comum que é a necessidade de fazer caminho.

 

FotoNuno Teotónio Pereira e p. José Tolentino Mendonça

 

Rui Jorge Martins
© SNPC | 12.07.12

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Nuno Teotónio Pereira


























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