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Bento XVI

Visita do Papa à Turquia

O Papa chegou ontem à Turquia a convite do governo turco. Os noticiários de anteontem à noite dedicaram muito tempo à visita e às medidas de segurança do governo. Falou-se da manifestação de Domingo em que algumas dezenas de milhares (bem menos que o milhão prometido) de pessoas se mostravam contra a visita, e ouvimos a opinião de alguns “anónimos” que se mostravam desagradados com a forma como Bento XVI se tem referido ao Islão.
De todas as coisas que ouvi, apenas uma me pareceu verdadeiramente lúcida. A idosa católica, abordada à saída da missa dominical: “Ele foi convidado pelo governo não foi? Se não o queriam cá, não o convidassem!”.

Pois é verdade. Bento XVI foi de facto convidado pelo governo turco, aceitou o convite e vai visitar aquela que é a mais antiga república laica de maioria islâmica no mundo. (Um dos jornalistas ontem afirmava que era a única república laica do mundo islâmico. Resta-nos saber para onde terá desaparecido a Indonésia...). Mas convém não esquecer que o convite do governo turco foi um recurso que revela muito sobre a relação da Turquia com o cristianismo.

O Patriarca de Constantinopla (hoje Istambul) é considerado o “primus inter pares” da comunhão ortodoxa. Ele tem uma primazia de honra no mundo ortodoxo, e é directamente responsável pela maioria das comunidades ortodoxas na diáspora. Este modelo organizacional compreende-se pelo facto das igrejas ortodoxas seguirem um modelo nacional bastante rígido.
Constantinopla, a “Nova Roma” tinha uma importância óbvia, por ser a capital do império Romano do Oriente, mais tarde conhecida como o império bizantino, e que sobreviveu séculos depois da queda da Roma original. A importância da cidade levou mesmo a um artifício para que pudesse ser considerada sede apostólica. As ossadas de Santo André foram levadas para a cidade e associadas a ela, de modo que o patriarca é considerado sucessor do irmão de Pedro (outro gesto repleto de simbolismo) e por muitos visto como a segunda figura da igreja universal. Desde a cisão de 1054, passaria então a ser o primeiro, uma vez que o Bispo de Roma não era Ortodoxo.

Acontece que, desde a queda de Constantinopla às mãos dos Otomanos, que a comunidade ortodoxa na cidade tem vindo a diminuir drasticamente. Através de pressão oficial e não só, a comunidade grega foi deixando a cidade. Este processo consolidou-se com a purga de 1955. Hoje em dia restam cerca de 2000 cidadãos turcos de etnia grega na principal cidade do país e que já foi capital do mais importante império cristão do mundo.

Temos portanto, um grande paradoxo. A mais importante figura do mundo ortodoxo, praticamente não tem fiéis. Some-se a isto as pressões do estado, que não permite nem aceita que Bartolomeu I utilize o título Patriarca Ecuménico, fechou o principal seminário (de Halki), e exige que os patriarcas sejam sempre cidadãos turcos, o que se torna cada vez mais difícil tendo em conta a diminuta comunidade de fiéis, mais a pressão da maior e mais numerosa igreja ortodoxa, a Russa, sempre ansiosa por ganhar protagonismo enquanto igreja sediada na “Terceira Roma”, e vemos uma situação particularmente complicada para Bartolomeu I.

Assim se compreende melhor porque razão o governo da Turquia rejeitou liminarmente a ida do Papa àquele país, já o ano passado e a convite do Patriarca Bartolomeu I. Quando o fizeram ainda pouca gente conhecia a universidade de Ratisbona, quanto mais as palavras de Manuel II Paleólogo sobre o Islão. Talvez agora, os responsáveis políticos de Ancara, se arrependam do que fizeram, toda esta polémica seria desnecessária e poupariam muito dinheiro em segurança.

Muita importância está a ser dada aos aspectos de diálogo com o Islão, mas onde esta visita poderá trazer mais surpresas (e ser mais construtiva) é precisamente no diálogo ecuménico com a Igreja Ortodoxa.
As Igrejas Ortodoxas nacionais são muito autónomas por natureza. Contudo, não é fácil para Roma conversar com 13 Igrejas Autónomas (cada uma com diferentes visões dos problemas e diferentes aberturas para o diálogo) ao mesmo tempo. A aproximação ecuménica precisa, por isso, de um patriarca de Constantinopla forte e com autoridade moral para ser um interlocutor respeitado pelos seus pares. A visita do Papa à Turquia pode e deve sublinhar as dificuldades por que passa a comunidade cristã da Turquia (que não se resume nem a ortodoxos gregos, nem a católicos latinos).
Isto para bem dos nossos irmãos cristãos que merecem poder praticar a sua fé e educar os seus padres de forma livre e tranquila, independentemente de serem Ortodoxos, Arménios, Latinos, Maronitas ou Caldeus; mas para bem, também, da futura unidade dos cristãos que tendo sido ferida precisamente nessa cidade (através da excumunhão mútua do Patriarca local e dos enviados do Papa em 1054) deverá começar a recompor-se precisamente no mesmo local.

Mais que nunca, o Papa precisa das orações de todos cristãos durante esta visita. Não só pela sua segurança mas para que saiba ser aquilo que a Igreja precisa dele neste momento, um construtor da paz e da união entre os seguidores de Cristo, para que sejam um como Ele e o Pai são um.

Filipe d’Avillez

© SNPC

 

 

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