
Sobre os actuais debates em torno do Evolucionismo
1. A história da proposta e desenvolvimento das teorias evolucionistas (1), desde o século XIX até hoje, está marcada por muitos debates e controvérsias. O decorrer do tempo e o progresso científico alteraram substancialmente a natureza dessas polémicas, mas não as eliminaram.
2. Para se compreenderem os actuais debates em torno das teorias evolucionistas importa antes de mais retirar de cena aquilo que pouco ou nada interessa. O que não interessa é o chamado criacionismo, um conjunto de concepções de base muito pouco científica, que pretende fazer depender o entendimento do mundo natural não da investigação da própria natureza, mas da leitura de um texto bíblico. O criacionismo é um fenómeno de filiação protestante, e implica um literalismo bíblico que só raras denominações protestantes praticam. A sua sobrevivência explica-se por razões culturais e sociais muito específicas, razões essas que, em geral, não se verificam na Europa e de maneira nenhuma em Portugal. Este criacionismo nunca teve lugar na tradição católica (coisa totalmente diferente é o criacionismo filosófico-teológico, isto é, a noção de que, na ordem do ser, tudo o que existe é mantido, e criado, por Deus).
3. Mas, mesmo desconsiderando as críticas que vêm do criacionismo, isto não significa que as teorias evolucionistas se tenham desenvolvido sem objecções. Muito pelo contrário. Desde sempre o desenvolvimento do evolucionismo esteve sujeito a críticas internas, técnicas, por cientistas das mais variadas proveniências, de competência científica indiscutível. Uma abundante literatura testemunha as objecções levantadas não só por muitos biólogos e paleontólogos, mas também por matemáticos, químicos, especialistas em teoria da informação, etc.
Relativamente a isto impõe-se dizer o seguinte: Todas as teorias científicas incluem no seu seio ambiguidades e dificuldades várias. A física, por exemplo, mesmo tendo ascendendido a um grau de certeza e de capacidade de previsão que a tornou modelo para todas as outras ciências naturais, não está de maneira nenhuma isenta destes problemas. Não espanta, por isso, que as teorias de evolução, lidando com processos e organismos de uma extrema complexidade, alberguem no seu seio interrogações de difícil resolução. A questão consiste em saber em que medida estas dificuldades são “resolúveis” ou “ultrapassáveis”, ou, pelo contrário, são sinal de uma radical desadequação do darwinismo para explicar a origem e variedade dos organismos vivos. É uma pergunta complexa, de resposta talvez impossível no actual estado de conhecimentos, e que, seja como for, apenas pode ser respondida por cientistas especializados.
4. Mas as críticas principais têm sido de outro tipo, de uma natureza, digamos, externa. São muitos os que criticam o facto de, com frequência, noções científicas terem sido subordinadas a premissas ideológicas, ou terem sido extrapoladas indevidamente, para usar o evolucionismo como justificação de uma visão estritamente materialista da vida humana. De facto, parece por vezes assistir-se quase à imposição de um “dogma neo-darwinista” pelo qual não só a crítica à consistência interna da teoria não é benvinda, como – mais grave – a metodologia científica é distorcida de modo a converter-se num deliberado ataque à religião. Um exemplo da lógica que preside a estas posições e uma boa ilustração de até que ponto pode ir a intransigência dogmática destes autores está patente nas palavras de um reputado evolucionista da actualidade, o professor Richard Lewontin, da Universidade de Harvard:
«Nós estamos do lado da ciência apesar do absurdo óbvio de algumas das suas concepções, apesar do seu falhanço em cumprir muitas promessas extravagantes de saúde e vida, apesar da tolerância da comunidade científica por histórias “mais-ou-menos”, porque temos um compromisso anterior, um compromisso com o materialismo. Não é que os métodos e as instituições da ciência de alguma maneira nos obriguem a aceitar uma explicação material do mundo dos fenómenos, mas, pelo contrário, que nós somos obrigados, pela nossa adesão a priori a causas materiais, a criar aparatos de investigação e um conjunto de conceitos que produzem explicações materiais, não importa quão contra-intuitivas, não importa quão abstrusas para o não iniciado. Além disso, esse materialismo é absoluto, pois não podemos autorizar que um Pé Divino apareça à nossa porta.» (2)
É evidente que uma tal posição entra em colisão directa com a doutrina católica; mas também é evidente que essa posição não é uma posição científica. Trata-se, com efeito, da subordinação da actividade científica a um preconceito ideológico.
5. A Igreja Católica sempre afirmou que o uso da razão permite captar uma finalidade no mundo natural. (Em particular, que o Homem não é o produto de um acaso cego). Mas exactamente qual é o acto da razão, qual é a modalidade de uso da razão, que permite captar essa finalidade? A resposta tradicional implica o uso da totalidade da razão, isto é, portanto, que se trata de um acto filosófico.
Em anos recentes, contudo, surgiram - com cada vez maior visibilidade - correntes intelectuais defendendo que a percepção da finalidade do mundo natural pode ser conseguida de modo empírico. São as chamadas teorias de Intelligent Design (ID). Segundo os proponentes destas concepções é possível determinar cientificamente que determinados organismos não existem em resultado de um acaso, ou de leis deterministas, mas que foram “designed”. O ID não questiona propriamente a evolução histórica das espécies animais. O que questiona é que essa evolução seja fruto de um acaso cego.
O debate relançado pelo ID está na ordem do dia e obrigou todos – evolucionistas e críticos do evolucionismo – a precisar e repensar os seus argumentos. A resolução definitiva do debate é científica, e passa por confirmar se são experimentalmente sustentáveis as teses do ID. Mas penso que se pode desde já fazer uma observação genérica, independentemente de mais desenvolvimentos: ao propor que a finalidade do mundo natural pode ser captada pela racionalidade científica (empiricamente e no âmbito da metodologia específica da ciência), o ID propõe algo que é substancialmente diferente daquilo que a tradição católica tem afirmado, pois esta sempre indicara que tal percepção resulta do uso da totalidade da razão.
(1) Como é evidente, por falta de espaço, ao longo de todo o texto teve de se fazer a simplificação drástica de usar as expressões “evolucionismo”, “teorias evolucionistas”, “darwinismo”, “criacionismo”, etc., sem qualquer qualificação ou esclarecimento adicional.
(2) Richard Lewontin, “Billions and Billions of Demons”, The New York Review of Books, 9 Jan. 1997, p. 31.
Henrique Leitão
Centro de História das Ciências, Universidade de Lisboa
Topo | Voltar | Enviar | Imprimir
![]()
