Observatório da Cultura
Criação e evolução

Uma questão de sensatez

Perante especulações que vieram a lume por ocasião da última reunião dos antigos alunos do Papa em Castelgandolfo, justificam-se alguns esclarecimentos. Estas reuniões vêm na sequência do Colóquio de doutorandos que Joseph Ratzinger organizava no seu tempo de professor, e que, já como arcebispo de Munique, quis continuar embora de forma diversa. Uma vez por ano, durante as férias, tais encontros destinam-se a reflectir sobre um tema de actualidade, com o apoio de especialistas convidados. Para este ano, Ratzinger aceitou a proposta de estudarmos a “Evolução e Criação”, a partir das comunicações dos professores Peter Schuster, perito em biologia molecular, Robert Spaemann, com vasta produção filosófica, Paul Erbrich que ensina filosofia das ciências, e também do cardeal Christoph Schönborn na sua qualidade de antigo professor de teologia. Pretendia-se tomar conhecimento do último estado da investigação científica e fazer algumas reflexões exploratórias. Como se depreende da diversidade dos especialistas convidados, trata-se de uma problemática de extrema complexidade. Os próprios termos do título do Colóquio pertencem a âmbitos muito diversos. A evolução foi, como é sabido, hipótese lançada por Darwin na base da paleontologia, e que entretanto ganhou a solidez de teoria científica, primeiro com o contributo das leis da hereditariedade de Mendel e, mais recentemente, com o contributo da biologia molecular. A metodologia das ciências experimentais confere a este neodarwinismo a competência de descrever com rigor o modo como o fenómeno da vida se processa ao longo do tempo. O conceito de criação pertence a outro âmbito de racionalidade. É um conceito teológico com implicações filosóficas.

Em três dias não se podia chegar a conclusões, nem esse é o objectivo destas reuniões. Posso dizer no entanto, a título meramente pessoal, como vejo toda esta questão depois do encontro em que participei. Em primeiro lugar, é claro que intervêm aqui competências de racionalidades diferentes, mas que são chamadas a dialogar. Este diálogo só é possível se cada uma destas racionalidades respeitar os limites da competência própria e, simultaneamente, tiver abertura para o contributo das outras racionalidades. Qualquer atitude totalitária, que só esteja disposta a aceitar o que a sua metodologia pode reconhecer, ou que procure reduzir à sua própria racionalidade os outros tipos de racionalidade, deforma as questões e impede um verdadeiro conhecimento.

Não se pode esconder que a nossa cultura está marcada sobretudo pela racionalidade positiva, sendo grande a tentação de reduzir todo o conhecimento ao que é próprio das ciências experimentais. Noutras épocas a situação foi a inversa. O que explica o emaranhado de equívocos que, gradualmente, se foi criando. No espaço exíguo que me é concedido, terei de deixar de lado esses episódios históricos para me concentrar no que está fundamentalmente em causa.

Em contraste com o conhecimento positivo do como as coisas acontecem, próprio das ciências experimentais, a racionalidade filosófica põe a questão do porquê. Se seguirmos o aristotelismo (retomado pelo tomismo), todas as realidades da nossa experiência sensível são contingentes (existem mas poderiam não existir) exigindo um fundamento cujo ser coincida com a sua razão de ser. É a causa primeira que se tem de reconhecer para além de todas as causas segundas. S. Tomás comenta que é a essa causa primeira que todos chamam Deus. Mas, na medida em que o próprio Deus toma a iniciativa de uma intervenção pessoal na história humana, essa causa primeira deixa de ser vista como simples princípio metafísico, para se revelar como Alguém que cria por amor. O próprio Deus é Amor, sintetiza S. João. Criação de Deus começa por significar a inteligibilidade última de tudo o que existe, como a filosofia grega o intuiu; mas a fé bíblico-cristã descobre ainda o sentido que lhe vem do Amor divino originante. Toda esta reflexão se situa, repito, não ao nível do conhecimento positivo experimental, mas da racionalidade que a filosofia tematiza e que a fé no Deus revelado ilumina com uma nova profundidade.

Na confluência da fé bíblica e da cultura filosófica grega, o livro da Sabedoria do Antigo Testamento (cap. 13) considerava como uma questão de sensatez admitir que na origem de todas as maravilhas do universo tem de se reconhecer – e adorar – o Autor dessas maravilhas. Não é o cientista que cria a inteligibilidade do universo, apenas a descobre. Se tal inteligibilidade não vem do homem (cuja existência e origem faz também parte do universo), de quem deriva?

Digamos que todos os mal-entendidos entre a aceitação da teoria da evolução e a certeza intelectual e de fé da criação divina são casos de insensatez. Provocados umas vezes pelos crentes, outras pelos não crentes. A começar pelo próprio Darwin que (juntamente com outros antiteístas da época) julgava rebater a criação de Deus com a sua teoria da evolução. Uma insensatez que hoje de novo se manifesta, por vezes, no debate sobre a existência ou não de um desígnio inteligente na evolução. Se só nesse intelligent design se julga encontrar a presença do Deus criador, pretende-se assim reduzir Deus a uma qualquer causa segunda, quando Ele é a causa primeira. Mas pode-se também negar crispadamente qualquer ideia de finalidade no processo da evolução, para se negar a inteligibilidade da evolução (reduzida a puro acaso), e assim não se ter de afirmar a sua origem em Deus. Julga-se que apenas esse aspecto inteligível do universo remeteria para Deus. Ora é a inteligibilidade de toda a sua realidade que implica a sua fonte transcendente. A própria palavra criacionismo se presta a confusões. Se significa simplesmente que Deus é o Criador, então é a própria realidade da evolução estudada hoje pelo neodarwinismo que confirma a existência e excelência do Autor de tão admirável inteligibilidade. Se, porém, com a mesma palavra se quer designar o entendimento dos primeiros capítulos da Bíblia como se fossem, à letra, relatos do processo da criação divina (o que é um contra-senso), e não poemas literários, lindíssimos e simbólicos, em que se exprime que Deus é a origem transcendente do universo, trata-se de atitude a rejeitar liminarmente – em nome da inteligência e da fé!

P. Henrique de Noronha Galvão

Professor da Faculdade de Teologia da UCP, Lisboa

 

 

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