
Será possível a unidade sem um mínimo de igualdade?
A propósito de unidade açoriana, falar de igualdade, em especial no terreno da economia, pode ser sempre suspeito. Pode dar a ideia de se estar a advogar um igualitarismo social puro e duro com tanto de utópico como de irreal. Sobretudo, quando está em alta um economicismo que vive bem com a constatação, cada vez mais aceite sem contestação, de que, no mundo em geral e até no nosso país, aumentam as desigualdades entre os que acumulam riqueza e aqueles a quem falta o necessário para viver com dignidade.
Conseguir uma economia capaz de gerar uma maior igualdade social poderia ser um bom caminho para se chegar a uma verdadeira unidade entre as diversas ilhas e as gentes dos Açores. Mesmo sabendo-se que a economia não é tudo na vida, mas uma dimensão indispensável à qualidade de existência humana para todos os povos. Uma necessidade só é humanamente digna quando a sua economia funciona de tal modo que todos os membros que a integram têm garantidas condições de vida humanamente aceitáveis. É neste sentido que unidade não vai sem a procura de uma igualdade possível ao nível social.
Tratando-se de uma problemática que é transversal a todos os cidadãos, independentemente das opções pessoais que possam ter, é de grande pertinência para quem adere à fé cristã. A este respeito, vale aqui trazer à colação um princípio bíblico assumido pelo Apóstolo Paulo que não tem medo de falar em igualdade como factor ou condição de unidade, no caso, entre comunidades cristãs. É um princípio que talvez pudesse inspirar políticas económicas mais humanizadoras.
O referido princípio surge a propósito da organização de uma colecta a favor da Igreja de Jerusalém e consta do Livro do Exodo, onde, em referência à experiência do "maná", se diz que ao povo hebreu peregrino "não solujava a quem tinha muito nem faltava a que tinha pouco" (Ex. 16, 18). É nesta base que o Apóstolo afirma sem rodeios: "Assim haverá igualdade, como está escrito: quem muito recolheu não teve de mais e a quem recolheu pouco nada faltou" (II Cor. 8, 15). E, dirigindo-se às comunidades a quem apela à generosidade e à partilha, o Apóstolo faz questão de explicar que "não se trata de, ao aliviar os outros, vos fazer entrar em apuros, mas sim de que haja igualdade" (II Cor. 8, 13). Temos de convir que, mesmo na Igreja e no interior das comunidades eclesiais o recurso à palavra "igualdade" está sujeito a um certo pudor.
Quem sabe se um bom serviço à unidade açoriana não passaria por uma política económica promotora de maior igualdade?
P. Cipriano Pacheco
Vigário Episcopal de S. Miguel, Açores
Publicado em 01.10.2007
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