Concílio Vaticano II - 50 anos
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As "chaves" do Concílio

Um concílio ecuménico é, sem dúvida, um dos acontecimentos mais importantes da vida da Igreja. Assim tem sido ao longo dos longos séculos da sua existência. Não que a Igreja exista para fazer concílios, mas porque estes são fundamentais na resposta da comunidade crente à missão para que é convocada. De facto, a Igreja de Jesus Cristo possui características que a distinguem de qualquer outro grupo humano. Por um lado, sendo uma instituição humana, é mais do que isso, enquanto mediadora do mistério da própria autodoação salvífica de Deus aos humanos. Nesse sentido, é uma instituição com uma origem e uma finalidade transcendentes, o que a transforma numa comunidade à escuta de uma voz que ela própria não pode produzir. Por outro lado, é uma comunidade universal, ou seja, destinada a acolher todos os humanos que aceitem o Deus de Jesus Cristo como salvador ou sentido da Humanidade. Não se lhe aplica o estatuto de grupo limitado a priori, seja por questões geográficas, seja por questões étnicas, seja por qualquer outro tipo de discriminação identitária.

Ora, podemos considerar que o primeiro aspeto referido – a escuta de uma voz outra – se articula de modo muito próprio na atividade de um concílio, em que a comunidade eclesial se reúne, através dos seus representantes, para exercitar a escuta daquilo que o Espírito de Deus pretende dela mesma. Nesse sentido, um concílio não é mera reunião de eventuais conselheiros de um chefe absoluto, que os pode ouvir ou não na sua decisão. Toda a hierarquia da Igreja se coloca, no dinamismo conciliar, em atitude de acolhimento de uma inspiração divina, que é reveladora da sua identidade própria.

Ao mesmo tempo, quando um concílio pretende reunir a Igreja presente no mundo inteiro – ou seja, quando um concílio é ecuménico e não simplesmente local – dá visibilidade à sua dimensão católica ou universal, como comunidade aberta, sem delimitações prévias, a partir de qualquer esquema humano de exclusão.

Mesmo evitando cair em afirmações genéricas e exageradas, poderemos considerar que o segundo Concílio do Vaticano foi um dos que, na longa e variada história dos concílios, melhor incarnou as características referidas. É certo que, tal como tinha acontecido com o concílio de Trento, as circunstâncias que o provocaram foram, por assim dizer, criadas por «provocações» ou crises: no primeiro caso, pela reforma protestante, no segundo, pelas transformações da modernidade. Mas o primeiro concentrou-se na reafirmação dogmática da doutrina ortodoxa, frente às propostas reformadoras, consideradas essencialmente heterodoxas. O segundo tentou repensar a própria teologia e a vida da Igreja, em clara e humilde atitude de escuta. Por isso, manifestou um outro rosto da Igreja: não apenas o da proprietária de uma doutrina certa e definitiva, que reafirma insistentemente, mas precisamente o de quem aceita interpelações novas do Espírito, mesmo se na fidelidade à grande Tradição redescoberta. Aproxima-se, assim, dos grandes concílios da Igreja antiga, que se articulavam na busca humilde da melhor formulação da fé. Neste caso, contudo, não se trata de formulações dogmáticas novas, mas de um modo diferente de conceber e articular os tradicionais conteúdos da fé cristã, sobretudo quanto à sua incidência sobre a pragmática cristã quotidiana, no interior de uma cultura em ebulição permanente. Por essa razão é que os documentos deste concílio vieram a assumir um estilo essencialmente teológico, espiritual e pastoral, mais do que jurídico ou disciplinar.

Do ponto de vista da dimensão ecuménica ou universal, é indiscutível que o mais recente concílio foi o que visivelmente melhor incarnou a diversidade planetária da Igreja. Os recursos tecnológicos, sobretudo quanto á capacidade de deslocação, permitiram a presença de bispos dos quatro cantos do mundo, revelando de forma clara que a Igreja católica não é um fenómeno simplesmente europeu. E mesmo que a referência a Roma não seja abandonada, tornou-se claro que a vida da Igreja se articula na diversidade das culturas, que é inevitável ter em conta, cada vez mais.

Por tudo isto, o acontecimento e os documentos do Vaticano II continuam presentes na vida da Igreja, como desafio. E assim como a receção de qualquer concílio, incluindo os mais antigos, não termina nunca, também a deste se manterá, permanentemente, para o futuro da Igreja. Ficam os documentos que, pela sua riqueza teológica única, sempre desafiarão as possibilidades de interpretação e de aplicação, em realidade infinitas, mesmo que não aleatórias. Ficam os efeitos simbólicos, sobretudo no que se refere à básica atitude de diálogo com o mundo moderno e os respetivos desafios, mesmo se muitas vezes ambíguos; mas também no que se refere à dimensão ecuménica, seja em sentido lato, enquanto tomada de consciência de que a Igreja de Cristo se articula na diversidade das culturas humanas e não num modelo único, seja em sentido estrito, como aproximação dialogante às confissões cristãs que, ao longo dos séculos, foram traçando rotas de divisão. Fica a certeza fundamental de que, quer nas reelaborações teológicas do conteúdo da fé quer na atitude dialogante em relação a novos desafios e à diferença, o recurso à grande Tradição eclesial e teológica, com a correspondente fundamentação na Escritura e nos grandes textos dos primeiros séculos, é o caminho mais seguro para encontrar o rumo certo, num mundo que se manifesta tão incerto.

Por tudo isto, é sempre essencial revisitar o Concílio do Vaticano II. O presente volume propõe-se uma abordagem fundamental, preocupando-se com o fornecimento de chaves hermenêuticas que ajudem à concentração no essencial e evitem o desvio para questões secundárias, que se limitariam a esconder o que interessa. Por isso mesmo, o texto é essencialmente teológico. Em suma, estamos perante uma forma excelente de dar vida nova aos textos e aos eventos que os originaram.

 

João Manuel Duque
Diretor adjunto da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa (Braga)
In As "chaves" do Concílio (prefácio), ed. Paulinas
13.09.12

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Capa

As "chaves" do Concílio

Autores
Richard B. Gaillardetz
Catherine E. Clifford

Editora
Paulinas

Ano
2012

Páginas
294

Preço
17,90 €

ISBN
978-989-673-258-5











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