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Cegueira cultural à verdade

Acredito que a busca da verdade é uma espécie de história de amor. Amor pela verdade. Amor, se se é professor, pela matéria que se ensina. Talvez até amor por todos os estudantes. E, por fim, o mais difícil: o amor por aqueles com quem não se está de acordo.

Este tema está na origem da minha vocação dominicana. Após a escola fiz as minhas primeiras amizades com pessoas que não eram cristãs. Uma delas perguntou-me se acreditava verdadeiramente em toda a doutrina católica. Essa pergunta começou a atormentar-me. É tudo verdadeiro? Se o é, deve ser terrivelmente importante; mas se não o é?

Sabia que existia uma ordem religisa que tinha o moto “Veritas”, mas não conseguiu recordar qual era. Comecei a pensar que podia ser o lugar certo para mim. Contactei o meu professor beneditino, perguntei-lhe de quem era aquele moto, e disse-me: «É dos Dominicanos». Assim, na prática, decidi entrar nos Dominicanos antes de ter conhecido um.

Isto recorda-me a historiazinha daquele homem que voava num balão sobre a Inglaterra. Perdeu a orientação e no fim aterrou sobre uma grande árvore. Viu passar dois homens e gritou: «Ajudem-me, ajudem-me, onde estou?». Eles responderam: «Estás sobre uma árvore». Ele então exclamou: «Vós deveis ser dominicanos, porque o que dizem é verdadeiro, mas completamente inútil!».



Quando Lance Armstrong, o ciclista olímpico, foi acusado num programa de televisão americano de não ter dito a verdade em relação ao doping, respondeu: «Quero controlar a narrativa». O problema para ele não era mentir, mas perder o controlo da sua história



No concílio Vaticano I, a Igreja declarou formalmente que a nossa procura da verdade inclui a razão. A fé pode levar-nos para além da razão, mas não pode ser contra a razão. Segundo Tomás de Aquino, somos animais pensantes, buscadores de verdade. Quando eu era um jovem frade, o arcebispo de Westminster era o cardeal Heenan, um homem famoso pela sua inteligência. Fui chamado a testemunhar num processo, e um advogado disse-lhe: «Eminência, é verdade que hoje o senhor é uma das pessoas mais inteligentes na Grã-Bretanha?». E ele responde: «Sim, é verdade. Mas digo-o só porque aqui jurei dizer a verdade».

Vivemos hoje, lamentavelmente, na era da pós-verdade. Após a campanha para o “Brexit” na Inglaterra e a eleição de Donald Trump nos EUA, temos de nos preocupar face à evaporação da verdade. Trump acusa a imprensa de difundir “fake news”, notícias falsas, mas ele mais não faz do que confirmá-las uma após outra.

Na Inglaterra os políticos são apanhados em flagrante quando mentem sobre as suas despesas; a polícia mente em tribunal; os jornalistas mentem. Quando são descobertos, admitem ter cometido um «erro de avalização». Suponho que o erro foi pensar que escapariam. O problema não é tanto as pessoas mentirem, mas o facto de que a própria ideia de verdade se desvaneceu. Vivemos num mundo de “truthiness”, essa verdade aparente que Stephen Colbert definiu como «a expressão de sensações ou opiniões “de café” como se fossem afirmações objetivas».

No Twuter e nos blogues são proferidas continuamente asserções selvagens, sem a preocupação de se saber se são verdadeiras, Uma vez li num blogue que, durante o período em que fui Mestre da Ordem, teria dado permissão a um prior provincial de conviver com a sua amante, uma irmã, num vagão ferroviário. Ridículo! A mulher não era uma irmã! Estou a brincar.



Temos uma desesperada necessidade de mestres. Não só para comunicar a nossa fé, mas para ensinar aos alunos a amar toda a espécie de verdade e a procurá-la com toda a sua mente, com todo o seu coração e com toda a sua imaginação



Quando Lance Armstrong, o ciclista olímpico, foi acusado num programa de televisão americano de não ter dito a verdade em relação ao doping, respondeu: «Quero controlar a narrativa». O problema para ele não era mentir, mas perder o controlo da sua história. Mas nem sequer a Igreja foi sempre verdadeira, como confirmou a Comissão Real Australiana.

Convido quem tenha tempo a ver um excelente documentário na BBC iPlayer, “Hypernormalisation”, de Adam Curtis. Descreve a retirada global da complexidade. Nos jornais, na política, em todo o lado, assistimos a uma retirada das questões complexas, enquanto que as pessoas se contentam como slogans e “tweets”: «Brexis significa Brexit”; «Façamos a América grande outra vez». O filme “A verdade negada” conta como escritor inglês David Irving, que negava o Holocausto, foi condenado em tribunal na Grã-Bretanha. É interessante notar como a questão foi resolvida no âbito da lei.

Pertencemos a uma sociedade litigiosa. Mas o problema mais profundo é esta cegueira cultural à verdade, que não se pode resolver sempre levando as pessoas a tribunal. Devemos ensinar a amar a verdade por si própria. Eis porquê, neste mundo da pós-verdade, não consigo imaginar uma vocação mais importante do que a de professor. Jesus disse aos discípulos: «Vós chamais-me o Mestre e o Senhor, e dizeis bem, porque o sou». Temos uma desesperada necessidade de mestres. Não só para comunicar a nossa fé, mas para ensinar aos alunos a amar toda a espécie de verdade e a procurá-la com toda a sua mente, com todo o seu coração e com toda a sua imaginação.

As constituições da Ordem Dominicana afirmam que temos uma “propensio ad veritatem”, uma inclinação natural para a verdade. Se sufocamos este instinto pela verdade em todas as suas formas, a nossa humanidade fica  fatalmente arruinada. Um famoso dominicano, Yves Congar, disse: «Amei a verdade como se ama uma pessoa».


 

Timothy Radcliffe, OP
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Khakimullin/Bigstock.com
Publicado em 12.10.2018

 

 
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