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Clara Menéres: Quando o iconoclasta reconstrói o ícone

«Diz Adília Lopes: "O iconoclasta/ reconstrói o ícone". Acho que é exatamente isso que acontece. Na verdade, o que levou Clara Menéres a aproximar-se do catolicismo não foi a negação do seu espírito de heterodoxia, mas, pelo contrário, a sua consolidação e alargamento.»

Esta é uma das perspetivas que o P. José Tolentino Mendonça propõe na mais recente crónica publicada na revista do semanário "Expresso", dedicada à escultura e professora universitária falecida a 10 de maio.

«Como católica, ela continuou empenhada em implodir preconceitos e as vistas estreitas dos lugares-comuns com que o catolicismo é, entre nós, culturalmente interpretado», sublinha o poeta e teólogo.

Nascida a 22 de agosto de 1943, em Braga, Maria Clara Rebelo de Carvalho Menéres «nunca aceitou, por exemplo, o défice de pensamento do catolicismo português ou que esse défice pudesse ser compensado, sem mais, pela religiosidade popular».

E também «nunca consentiu numa visão instrumental da arte, em que a arte estaria ao serviço da catequese, quase como sua ilustração», porque para a criadora «a arte fazia parte da liturgia, como comunicação do mistério e transformação da vida», aponta Tolentino Mendonça.

«Autora de uma obra de difícil classificação, Clara Menéres via-se como uma artista de vanguarda, tendo marcado várias correntes ao longo das décadas, desde a arte feminista e erótica nos anos 1960 e 1970, à arte religiosa nos últimos anos, tendo trabalhado em pedra, plástico, metal, néon e bordados, entre muitos outros materiais», escreveu Sérgio C. Andrade no jornal "Público".

Com uma «linguagem estética» que Tolentino Mendonça qualifica de «desobediente», por altura do Maio de 68, Clara Menéres procurou «desmantelar a invisibilidade imposta às mulheres», ao mesmo tempo que pensava «criticamente a violência simbólica e histórica a que estavam sujeitas».

Para o vice-reitor da Universidade Católica, «a arte escandalosa de Clara Menéres insistia num diálogo em contracorrente com a história, procurando intervir mais sobre o espaço vivo das convicções e dos desejos do que em encontrar para si um lugar entre a monumentária oficial».

O escultor José Pedro Croft considera-a «uma artista desassombrada, possuidora de uma enorme coragem», acrescentando que «há 50 anos, abordou temas fortes, que hoje estão na agenda e que ela antecipou: a sexualidade, a guerra, a violência».

Uma das suas obras mais emblemáticas, "Jaz morto e arrefece o menino de sua mãe" (1973), manifesto contra a guerra colonial, pode ser vista atualmente na exposição "Pós-pop. Fora do lugar comum", que decorre na Gulbenkian, em Lisboa, depois de já ter estado patente no santuário de Fátima, em 2014-15, na exposição "Neste vale de lágrimas".

 

Temática religiosa

Mais recentemente, Clara Menéres privilegiou a temática religiosa, tendo assinado trabalhos para o santuário de Fátima, bem como para o santuário do Sameiro, em Braga.

O Museu do Santuário de Fátima publicou a 10 de maio uma nota evocativa da «autora que desafiou a arte portuguesa a pensar a partir do conceito de investigação e que, também por isso, não se afastou da linguagem académica».

Clara Menéres, que «trabalhou no Santuário de Fátima por diversas vezes e em momentos-chave da vida do Santuário da Cova da Iria», concebeu "Santa Jacinta Marto", escultura criada para o túmulo da vidente de Fátima, aquando da sua beatificação, em 2000, pelo papa S. João Paulo II.

«No presépio que em 2010 criou para a basílica da Santíssima Trindade assumiu a escala daquele templo e projetou, aliando a modelação e a criação multimédia, um dos conjuntos escultóricos mais apreciados pelos peregrinos do Santuário de Fátima». E em 2016 foi convidada a assinalar o centenário das aparições do anjo.



Imagem "Santa Jacinta Marto" | Clara Menéres | Santuário de Fátima | D.R.

 

SNPC
Fontes: Público, Santuário de Fátima
Imagem: Clara Menéres | D.R.
Publicado em 21.05.2018

 

 
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