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Como podemos julgar uma obra de arte inspirada pela fé?

O que levaria um católico da exposição "Corpos celestes" do Metropolitan Museum de Nova Iorque? Um católico veria como a imaginação católica influenciou a imaginação dos artistas, neste caso de designers de moda.

Então, tal como esse católico respeitaria as várias maneiras através das quais um pintor ou um escultor traduz a sua afinidade com a Igreja, com imagens religiosas, com símbolos ou com iconografia, daria aos estilistas o mesmo respeito, porque são artistas.

Se alguém lhe mostra uma pintura, uma escultura ou um vestido que tenha feito e diz «isto é algo em que tenho estado a trabalhar há muito tempo, e vem do meu amor pela Igreja ou da maneira como a minha educação católica me influenciou», não vai dizer «rejeito-o». É altamente subjetivo. Também é altamente criativo e, por isso, precisamos de dar ao artista o benefício da dúvida. Além disso, muitas dessas criações são simplesmente belas. Não as considerei, de todo, ofensivas.

Um pequeno detalhe que realmente me impressionou na pré-inauguração foi o de os olhos dos manequins estarem fechados, o que deu à exposição uma espécie de atmosfera de oração.

O mais surpreendente foi o número de criações que se inspiraram diretamente nos paramentos dos sacerdotes ou nos hábitos das ordens religiosas. As batinas dos padres são simples; não pensei que se traduziriam em roupas femininas, mas eu também não sou Balenciaga ou Yves St Laurent, e portanto não é assim que eu penso.

Outra coisa que notei foi que as partes religiosas do texto afixado na parede eram tão inteligentemente escritas quanto as respeitantes à moda. O museu acertou em toda a terminologia e fez realmente o trabalho de casa.

De muitas maneiras achei que a exposição foi muito tocante, porque alguns desses designers foram criados católicos. À medida que eu caminhava pela exposição, pensava em que parte da educação católica de infância é evocativa para ele ou para ela.

Talvez o estilista tenha ido um dia à igreja e visto uma freira dominicana a usar o seu hábito, tendo achado aquilo realmente belo, ficando para sempre com essa memória, traduzida depois num vestido.

Eu estou sempre a ouvir este tipo de coisas por parte de católicos: algo que viram quando eram muito jovens imprimiu-se neles, e foram capazes de o usar mais tarde na vida. É esse o caso, quer se seja um pintor, um romancista ou um designer de moda.

É por isso que temos que ter muito cuidado em dizer que qualquer uma dessas roupas é desrespeitosa. O desrespeito de uma pessoa é a homenagem de outra. Como é que podemos julgar uma obra de arte inspirada pela fé de uma pessoa?

Para dar um exemplo no mundo da arte, se eu vejo uma pintura de Mark Rothko, e alguém me diz que foi algo feita com base no seu amor por Deus, quem sou eu para dizer que não é uma boa obra de arte ou que é desrespeitosa? Quanto mais tempo passo a falar com pessoas sobre a sua vida espiritual, mais eu vejo como a espiritualidade pessoal varia de pessoa para pessoa.



 

Depoimento do P. James Martin, SJ, recolhido por Helen Stoilas
In The Art Newspaper
Trad.: SNPC
Imagem: D.R.
Publicado em 18.05.2018

 

 
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