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Leitura: “Corrosão - Combater a corrupção na Igreja e na sociedade”

Contra a corrupção devem «trabalhar todos juntos, cristãos, não-cristãos, pessoas de todas as religiões e não-crentes», para «combater» essa «forma de blasfémia» e esse «cancro».

Esta é a convicção do papa Francisco no prefácio do livro “Corrosão - Combater a corrupção na Igreja e na sociedade” (ed. Paulinas), resultante de uma entrevista ao cardeal ganês Peter Turkson, responsável pelo Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, do Vaticano, criado durante o atual pontificado.

“Pessoa”, “sociedade”, “criminalidade” e “beleza” são alguns dos temas em que está dividida a conversa com o jornalista Vittorio Alberti, que questiona o prelado sobre a relação entre a arte e o combate à corrupção.

«A conversão do corrupto poderá dar-se se, à sua volta, houver um ambiente que desincentive, de vários modos, o avanço da corrupção. A beleza é certamente diálogo, dialética entre particular e aspiração ao universal, portanto, à transcendência. Assim, segundo o ponto de vista da Igreja, tanto os cristãos como os não-cristãos poderão encontrar argumentos e conforto na arte bela, para se formarem contra a tentação da corrupção ou como veículo para sair dela», considera o cardeal.

O responsável recorda que o papa «não se cansa de repetir que a Igreja deve estar “em saída”», pelo que orientar o seu olhar «para o belo também é levá-la a observar aquilo que ela tem em si e fora de si».



«Intervir com a beleza no contexto urbano significa colocar, no centro a dignidade humana, a humanidade, e não a sua negação. Daí, a dramática seriedade social da beleza»



Enquanto que a obra “O juízo final”, de Miguel Ângelo, exposta na capela Sistina, no Vaticano, «é um património de toda a humanidade e para toda a humanidade, não só para os católicos», «um bairro degradado construído com critérios corruptos é sempre contra a humanidade. É feio, degradante, desumanizante, privado da beleza da harmonia entre homem e natureza, entre homem e ambiente».

«O caminho da beleza, a “via pulchritudinis”, é a busca da justiça na misericórdia. Nisso reside toda a dificuldade, que, no entanto, é um grande desafio contra a globalização da indiferença e a cultura do descarte». Ela «pode transmitir entusiasmo, confiança, ânimo» e por isso «é um caminho magnífico contra toda a corrupção», declara o cardeal Turkson.

Referindo-se a «uma estética que abrace o mundo inteiro, valorizando os seus diversos passados, também e sobretudo os das comunidades mais pequenas», o presidente do Conselho Pontifício Justiça e Paz sublinha que «todas as culturas têm uma arte própria e, portanto, uma beleza capaz de (…) fazer caminhar. Poder-se-ia pensar numa polifonia de artes diferentes, unidas na sua diversidade».

Depois de se referir à «degradação urbana», que é «monotonia cinzenta e esquálida, é desolação, desenraizamento, indiferença opressiva», Turkson acentua que «intervir com a beleza no contexto urbano significa colocar, no centro a dignidade humana, a humanidade, e não a sua negação. Daí, a dramática seriedade social da beleza que, nesse sentido, pode ser determinante contra a corrupção».

«É necessário que os arquitetos, engenheiros e urbanistas e, portanto, os políticos, os construtores e todos aqueles que atuam nesses âmbitos também estejam em estreito contacto com outros atores, compreendam os efeitos sociais e culturais daquilo que planificam», assinala.



A corrupção faz-nos «afastar de qualquer responsabilidade para com os outros e para connosco mesmos, obedecendo apenas a uma mesquinha idolatria do eu que nunca nos dará liberdade»



Referindo-se à arquitetura da Igreja, o cardeal recorda que o papa destacou a importância de os edifícios sagrados, «em primeiro lugar as paróquias espalhadas por contextos periféricos e degradados», serem, «na sua simplicidade, oásis de beleza, portanto, de paz, comunidade, acolhimento e compreensão».

A espiritualidade desses espaços, prossegue, deve favorecer o «diálogo com Deus, o recolhimento junto de Deus e a comunhão entre irmãs e irmãos. Desse modo, tais edifícios poderão ser, como muitas vezes são em todo o mundo, lugares de referência onde as pessoas crescem juntas».

«Se num ambiente faltam possibilidades e harmonia, se domina o anonimato social, a degradação e o desenraizamento, se a paisagem urbana ou rural se tornou hostil e alheia, de tal modo que as pessoas se fecham em si mesmas e não se sentem em casa, mas em pleno campo de batalha dentro e fora das paredes domésticas, essa situação favorece o crime», afirma.

A terminar a entrevista, o cardeal Turkson vinca que todos os seres humanos são diferentes mas «iguais em termos de dignidade». «A corrupção, pelo contrário, deita por terra essa dignidade e essa igualdade, e fá-lo homologando-nos a todos, massificando-nos, fazendo-nos afastar de qualquer responsabilidade para com os outros e para connosco mesmos, obedecendo apenas a uma mesquinha idolatria do eu que nunca nos dará liberdade.»

Deve exercitar-se a «beleza de uma cultura da justiça e da paz»: «Esperamos, portanto, ter a graça de seguir em frente, sempre na precariedade, ao encontro daqueles que, mais do que todos os outros, precisam de nós, sem distinções, sem discriminações absurdas e odiosas», aponta.


 

Edição: SNPC
Imagem: Capa | D.R.
Publicado em 01.03.2018

 

Título: Corrosão - Combater a corrupção na Igreja e na sociedade
Autores: Peter K. A. Turkson, Vittorio V. Alberti
Editora: Paulinas
Páginas: 200
Preço: 15,50 €
ISBN: 978-989-673-602-6

 

 
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