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Crime e castigo: a tentação dos crentes

Crime e castigo: a tentação dos crentes

Imagem vladek/Bigstock.com

Temos de confessá-lo: o que de Jesus ainda hoje escandaliza não são as suas palavras de juízo, as suas palavras severas, por vezes duras; também não escandaliza a sua ação, porque se reconhece o seu «fazer o bem». Não, aquilo que escandaliza é a misericórdia, interpretada por Jesus de uma maneira que é ao contrário daquela pensada pelos homens religiosos, por nós! Às vezes parece que a misericórdia, seja invocada de Deus, seja desejada é fácil de colocar em ato, e no entanto - devemos reconhecê-lo humildemente - em toda a história da Igreja a misericórdia escandalizou, e por isso foi pouco exercitada. Quase sempre surgiu mais atestado o ministério da condenação do que o da misericórdia e da reconciliação.

Bastaria ler a história com atenção, sobretudo a dos concílios, para ver com que segurança ao longo dos séculos se usou a parábola do joio (cf. Mateus 13, 24-30), pervertendo-a. Nela, Jesus pede para não se arrancar o joio, ainda que ameace a boa semente, e esperar a colheita e o juízo no fim dos tempos. E em vez disso na Igreja indicou-se o inimigo, o diferente, como joio, autorizando que fossem arrancados, até à sua condenação à fogueira. Ou olhemos para as nossas histórias pessoais: quanto nos é difícil perdoar, fazer concretamente misericórdia, deixarmo-nos comover por quem está na necessidade, até fazer o bem por ele, omitindo fazer o que tínhamos pensado contra ele.



Muitas vezes estamos dispostos a fazer misericórdia se houve punição, castigo de quem fez o mal (e dizemos que isso é justiça!), se o pecador foi suficientemente humilhado e só se pede misericórdia como um mendigo. Em cada caso estabelecemos fronteiras precisas para a misericórdia



Além disso, se é verdade que a palavra misericórdia parece indicar na nossa sociedade um sentimento que carece de vigor e de verdade - por isso chega-se a dizer: «A misericórdia é muito fácil!» -, quando ela é praticada de maneira autêntica, na realidade perturba, suscita objeções. Isto porque a misericórdia é mais temível do que a justiça: «É um repúdio do mal em nome da partilha de um amor». A mensagem da misericórdia escandaliza, não é compreendida por quantos se sentem justos, em paz com Deus (e para os quais Jesus não veio, cf. Marcos 2, 17), enquanto, ao contrário, é compreendida e esperada por quem se sente no pecado, necessitado do perdão de Deus.

Os crentes "religiosos" de ontem e de hoje têm dificuldade em se sentirem irmãos e irmãs dos pecadores, das pecadoras, porque na sua vida não cometeram pecados "graves", e por isso colocam-se na parte dos justos, daqueles que se podem vangloriar de alguma coisa junto do Senhor: vangloriar-se de não ter errado gravemente. Foi assim durante o ministério de Jesus, foi assim na história da Igreja, continua a ser assim nos nossos dias, quando somos interrogados pelo papa Francisco precisamente sobre a nossa capacidade de misericórdia: misericórdia da Igreja, misericórdia de cada um de nós para quem errou ou quem precisa do nosso amor.



A sequência "crime e castigo", título do célebre romance de Fedor Dostoiévski, está sedimentada dentro de nós, está encastoada na nossa postura de crentes, de homens religiosos, como selo de uma justiça retributiva que se manifesta como punitiva e meritocrática; mas temos de nos interrogar se esse modo de pensar e exprimir é conforme ao Evangelho de Jesus



Muitas vezes estamos dispostos a fazer misericórdia se houve punição, castigo de quem fez o mal (e dizemos que isso é justiça!), se o pecador foi suficientemente humilhado e só se pede misericórdia como um mendigo. Em cada caso estabelecemos fronteiras precisas para a misericórdia, porque pensamos que certos erros, certas falhas, certas opções realizadas no mal e irreparáveis têm de ser castigadas para sempre pela disciplina eclesiástica: para alguns erros dos quais não se pode voltar atrás não há misericórdia, portanto a misericórdia não é infinita, mas pode ser concedida apenas segundo condições exatas.

Eis a nossa traição ao Evangelho, eis como a misericórdia nos escandaliza. Por outras palavras, a sequência "crime e castigo", título do célebre romance de Fedor Dostoiévski, está sedimentada dentro de nós, está encastoada na nossa postura de crentes, de homens religiosos, como selo de uma justiça retributiva que se manifesta como punitiva e meritocrática; mas temos de nos interrogar se esse modo de pensar e exprimir é conforme ao Evangelho de Jesus. Porque é que não conseguimos compreender que a santidade de Deus não resplandece quando não há pecado no homem, mas quando Deus tem misericórdia e perdoa? Porque é que não conseguimos compreender que a omnipotência, a soberania de Deus se mostra sobretudo perdoando, como atesta a oração coleta do 26.º Domingo do Tempo Comum: «Senhor, que dais a maior prova do vosso poder quando perdoais e vos compadeceis...»? Só à luz desta santidade de Deus, desta sua omnipotência, se pode viver como instrumento de boas obras o «nunca desesperar da misericórdia de Deus».



 

Enzo Bianchi
In "Monastero di Bose"
Trad.: SNPC
Publicado em 03.04.2017

 

 
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