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Cristianismo no Oriente: Na esteira dos “Kakure Kirishitan”

Completam-se, a 24 de novembro de 2018, dez anos da beatificação de Pedro Kibe e os seus 187 companheiros, em Nagasaki. Recordo, ainda fresca, a peregrinação aos lugares dos kakure kirishitan («Cristãos Escondidos») do Japão. Um rio de datas e memória. Que seria de um povo sem memória? A memória transporta aqueles mártires até à nossa presença, produzindo uma simbiose que derruba os muros do espaço e do tempo e nos permite saborear o que será a eternidade, precisamente porque será a continuação do que se experimenta e constrói durante a única existência que verdadeiramente conhecemos. Uma genuína peregrinação tem também a finalidade de construir lampejos de vida eterna. E os mártires fazem parte daquela corrente infindável e indestrutível, cujos elos nos ligam ao infinito. Os 26 de Nagasaki, os 205 e os 188. A consciência de grupo, a dimensão da comunidade, que se sobrepõe ao pessoal e individual. A força da harmonia, que percorre a cultura japonesa como um rasgo de luz. O poder do inclusivismo, do corporativismo e do equilíbrio entre pessoas, grupos, natureza, antepassados, deuses e religiões. Intensa pressão social para a uniformidade, independentemente da fé individual e da perspetiva filosófica. De facto, se não se entender a importância do sentido de filiação grupal na cultura japonesa, será difícil penetrar no mundo da mentalidade do japonês comum. Há categorias de grupos que são determinantes para o indivíduo no Japão. Ele ou ela terá de pertencer a uma família ou vizinhança e, simultaneamente, deve estar agregado/a a alguma companhia, escola, colégio ou universidade. As decisões são tomadas dentro de tais categorias ou na relação entre elas. Decisões pessoais não são permitidas uma vez que perturbam a harmonia desses grupos, mesmo que tais decisões pudessem ser logicamente benéficas para o indivíduo que tome a decisão. Por tal razão, os mártires aparecem, geralmente, em grupo.



Imagem © Adelino Ascenso

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Justo Ukon Takayama, o daimyo que era samurai de Cristo, é exceção a tal regra. Foi à sombra da estátua deste grande homem íntegro que iniciámos o percurso. Um exemplo de coerência tal, que Shūsaku Endō não se atreveria a escrever sobre ele. Um companheiro que nos ladeou com a memória que cada um foi adquirindo ao longo da visita ao museu e ao local dos kakure kirishitan de Sendaiji, ao que não faltou a entrada numa casa particular, onde uma imagem da Senhora do Loreto era guardada com grande cuidado e veneração. A sensação de que estávamos a pisar terreno imerso no sagrado.



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Justo Ukon Takayama, o «Samurai de Cristo»

As perseguições aos cristãos tiveram início em 1587, embora houvesse, ao longo dos primeiros dez anos, relativa tolerância. Em fevereiro de 1597 teve lugar em Nagasaki a execução de um grupo de cristãos (os 26 mártires de Nagasaki). Em 1600, o Japão foi unificado, tornando-se uma única nação, e Ieyasu Tokugawa (1542-1616) recebeu o título de Shōgun, o que significa que ele se tornaria o monarca de todo o país. O mesmo Tokugawa teve atitudes severas relativamente ao cristianismo e, finalmente, em 1614, foi publicado um decreto para banir os missionários e as perseguições passaram a ser mais rigorosas, verificando-se a destruição de igrejas, a expulsão dos missionários estrangeiros e a tortura e execução de numerosos japoneses. Alguns grupos de cristãos passaram à clandestinidade, tornando-se os denominados kakure kirishitan, os quais transmitiram a sua fé de geração em geração, batizando eles mesmos filhos e netos, até meados do século XIX, ano do seu encontro com os missionários franceses em Nagasaki, onde a segunda entrada do Cristianismo no Japão teve lugar.



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Durante a primeira época das perseguições, houve vários senhores feudais (denominados daimyō) que se converteram ao cristianismo. Um deles é Justo Ukon Takayama («Justo» é o seu nome cristão). Nasceu na província de Yamato, o que corresponde atualmente à província de Nara, proximidades de Osaka, em 1552, e faleceu em Manila (Filipinas), a 4 de fevereiro de 1615. Foi batizado quando tinha 12 anos de idade, juntamente com o seu pai. Ambos lutaram, durante aquela época turbulenta, para conservar o seu estatuto de daimyō. Adquiriram o castelo de Takatsuki (1573) e exerceram grande influência na expansão do cristianismo.



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Em 1581, Justo Ukon Takayama mandou construir uma igreja no interior do castelo de Takatsuki e chamou missionários para que atendessem a população da cidade. Um dos missionários que passaram pelo castelo de Takatsuki foi o português Luís Fróis (1532-1597), como ele próprio relata na sua obra História do Japão. Consta que, naquela época, havia na cidade de Takatsuki e em redor do castelo cerca de 18 mil cristãos (atualmente, a população católica da paróquia de Takatsuki é de 1.600 fiéis, o que faz dela uma das maiores quatro paróquias, de entre as 78 da Arquidiocese de Osaka).



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Quando Toyotomi Hideyoshi ordenou a expulsão dos missionários (1587), muitos daimyō cristãos obedeceram e renunciaram ao cristianismo. Justo Ukon Takayama recusou-se a abandonar a sua fé, proclamando que preferia prescindir do seu poder e do seu património. Perdidos o prestígio e os bens, Justo passou a viver sob a proteção de amigos. No entanto, o decreto de 1614, publicado por Tokugawa, teria implicações diretas na sua identidade como cristão, pelo que foi expulso do país, partindo para as Filipinas, a 8 de novembro, juntamente com um grupo de cerca de 300 fiéis. Chegou a Manila no dia 21 de dezembro, sendo calorosamente recebido pelos jesuítas espanhóis e pelos filipinos. Morreu, de doença, passados apenas 40 dias da sua chegada a Manila. O governo espanhol proporcionou-lhe um funeral cristão, com todas as honras militares.



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A Igreja japonesa e o clero de Manila tentaram, no século XVII, a sua beatificação, mas a investigação canónica tornara-se impossível, devido à política de isolamento japonesa. A segunda tentativa teve lugar em 1965, mas só passados quase 50 anos é que a Conferência Episcopal Japonesa entregaria na Congregação para as Causas dos Santos toda a documentação necessária, tendo Justo sido reconhecido como possuindo o estatuto de mártir. O «Samurai de Cristo», como passou a ser denominado, foi beatificado a 7 de fevereiro de 2017, em Osaka.



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Justo Ukon Takayama goza de grande prestígio, tanto no mundo católico como no mundo cultural não católico ou não religioso. Em 2010, a rede de televisão japonesa NHK fez um programa sobre Ukon Takayama, o que teve grande repercussão em todo o país. A igreja da paróquia de Takatsuki, construída em 1954, está no roteiro turístico da cidade de Takatsuki e são numerosos os grupos de cristãos e não cristãos que visitam a igreja e as ruínas do castelo, vindos de perto e de longe. Os grupos de peregrinos são guiados por fiéis da paróquia de Takatsuki que para isso vão tendo a formação adequada.



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Sotome e cidade de Nagasaki

«Apesar de tanto sofrimento, Senhor, o mar continua tão azul». Esta frase está gravada no monumento de pedra, erigido em novembro de 1986, na localidade de Sotome, em homenagem ao romance Silêncio e aos seus protagonistas, os kakure kirishitan. Olhando para a vastidão daquele mar tranquilo, parece-nos entender o significado de tal epígrafe: a indiferença, o «silêncio» de Deus que, afinal, não é silêncio. De facto, é na ausência de sons que a voz que nos afaga se torna mais estridente. Deus fala-nos através da «não-fala», por meio da comunicação que nos faz mudos. E permanecemos em silêncio, observando o pôr-do-sol, a partir do Museu Literário Shūsaku Endō, quase frustrados por não podermos abarcar tanta beleza e tanta intensidade. As vozes, mudas, parecem gritar-nos no interior daquilo que nos é mais íntimo. Quanto escondimento, meu Deus!...



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Também era no escondimento, dentro da floresta e à sombra protetora de rochas gigantescas, que os cristãos se debruçavam, mãos postas, rezando em segredo, disfarçadamente; pedrinhas que eram colocadas em cruz, para que outros cristãos que passassem tivessem consciência de que por ali andavam irmãos da mesma fé. É na perseguição que o ser humano desenvolve subterfúgios para viver, no oculto, aquilo que é proibido.



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O mar distende-se até ao horizonte, onde o esfumado da silhueta das ilhas Gōto se confunde com uma aguarela de William Turner. Uma águia plana sobre o verde da colina, em busca de uma presa e, repentinamente, mergulha em voo picado. A vida desenrola-se, suavemente, como o fio de um novelo infindo.



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Unzen

Escutamos, por detrás do borbulhar das águas vulcânicas, aquilo que parecem os gritos dos mártires das perseguições. Um lugar com fumo denso e forte odor a enxofre; o jigoku («Inferno»), como é denominado. No céu azul do final da tarde, a lua paciente, como que a observar, incólume, o que a memória transporta para o momento presente. O monumento aos mártires e a oração da manhã no meio da aragem que resulta do vendaval que passara por ali à noite e varrera das copas das árvores numerosas folhas amarelecidas. Um violino, queixoso, algumas notas dissonantes de tormento e uma sinfonia de comunhão. Elos indestrutíveis, pois os encontros foram verdadeiros. Quanta dor, quanto medo! Qual a claridade de esperança? Que tipo de dúvidas e de fé preenchia o peito de cada um daqueles que eram torturados nas águas ferventes? Unzen é o culminar dos lugares onde os cristãos passaram pela maior prova que se possa colocar a um crente: viver sem a demonstração da sua fé ou expressando-a morrendo. Os mártires e os apóstatas. Quem pode dizer que a fortaleza do forte é mais forte do que a fraqueza do fraco?



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Imagem D.R.

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Texto e imagens: Adelino Ascenso
Publicado em 09.11.2018

 

 
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