

Faz em 2018 um século que Claude Debussy (1862-1918) deixou este mundo. Como sempre acontece com os grandes criadores, é fácil atribuir-lhe algumas características particulares, forçosamente redutoras: impressionismo, ondulações.
Comecemos com uma obra poucas vezes interpretada, e por isso a descobrir: “Dança sagrada, Dança profana”, de 1904. Debussy está então na plenitude da sua arte: a sua ópera “Pelléas et Mélisande” havia sido criada em 1902. Mas a obra breve que vos proponho hoje ilumina-nos sobre o seu mundo musical interior.
Debussy não nos deixou qualquer obra religiosa ou sacra, e é nisso que estamos interessados: o pioneiro que ele foi alimentava-se de uma tradição estética que se enraizava muito para lá do que no seu tempo se denominava como tradição.
Podemos discernir na sua música as ressonâncias musicais entre a criação e uma certa tradição vinda do mundo da liturgia. Sem que isso fosse claramente exprimido, trata-se, de facto, de um diálogo entre cultura e culto.
Assim, ouvimos nessas danças reminiscências de modalidade antiga e gregoriana. Em 1904 está-se em pleno trabalho de restauração do canto gregoriano pelos monges de Solesmes, tanto no plano rítmico, como no das escalas modais; todas essas questões agitaram os compositores e musicógrafos da época.
Por outro lado, conhecemos o interesse de Claude Debussy pelas esculturas antigas que descobriu no parisiense museu do Louvre.
O termo “sagrado” não deve ser entendido aqui no sentido habitual, mais próximo do hierático, solene, nobre. A dança que propomos é uma sarabanda, isto é, uma dança lenta que dá a impressão de que se trata de erguer um culto misterioso.
A “Dança sagrada” foi escrita no modo dórico, o que dá a essa bela peça o carácter tão particular. A “Dança profana”, enraizada diretamente numa valsa algo lânguida, gira em torno de outro modo antigo, o lídio, que também dá uma cor quase exótica a essa música.
Essa coloração funda-se também numa instrumentação fora do comum: “Dança sagrada, dança profana” foi encomendada pela casa Pleyel, que procurava promover uma harpa por si fabricada. A obra foi escrita para harpa e orquestra de cordas.
Poder-se-ia dizer aos músicos o que Debussy dizia aos pianistas que interpretavam a sua sonata para violoncelo e piano: «O piano não luta contra o violoncelo, acompanha-o». Aqui as cordas não lutam contra a harpa, antes, acompanham-na.
Um pequeno suplemento: como eco à “Dança sagrada”, a abertura do primeiro livro dos “Prelúdios”, obra para piano intitulada “Bailarinas de Delphos”. Não estaremos nós no mesmo mundo musical? Hieratismo, solenidade, nobreza…