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Devemos ter medo da arte contemporânea?

A arte contemporânea nas suas múltiplas formas pode deixar-nos num certo desconforto ou numa certa perturbação. Basta dizer que não encontramos as formas às quais uma cultura religiosa e artística, mesmo minimal, nos habituou. Faltam-nos as referências. Catherine Millet sublinha a amplificação extremamente rápida das possibilidades formais da arte contemporânea, o caráter híbrido das obras, a multiplicidade de práticas e a porosidade das categorias. Tudo é possível.

Além disso, um fenómeno de desconstrução atravessou o séc. XX em diferentes níveis. O cristianismo e a teologia não ficaram isentos desse fenómeno e, de certo modo, o Concílio Vaticano II foi a resultante positiva.

No domínio das artes, os artistas levaram por vezes essas desconstruções até aos extremos. No entanto, mesmo desconcertantes que possam parecer a desconstrução e a multiplicidade de formas, não seremos convidados a perceber nelas, antes de tudo, uma busca "parresíaca" (da franqueza, da liberdade de expressão), que seria, como salienta Michel Foucault, «da ordem de um desnudamento, do desmascaramento, da decapagem, da escavação, da redução violenta ao elementar da existência», e que abre para novas perspetivas?

Com efeito, a exposição "Traços do sagrado", realizada em Paris em 2008, voltou a interrogar esta busca do sagrado e do divino na arte do século XX. As múltiplas iniciativas atuais, da parte eclesial ou da sociedade em geral, manifestam a possibilidade efetiva de um diálogo renovado entre a Igreja e a arte contemporânea.

Sendo assim, por que devemos ainda ter medo da arte contemporânea? Para tentar analisar o que nos pode fazer resistência, gostaria de propor duas reflexões. A primeira, mais antropológica, incidirá sobre uma questão já levantada em seu tempo pelo P. Pie Régamey o.p.: o da «perceção». A segunda, mais teológica, centra-se em elementos fundamentais da arte e da revelação cristã.

 

A «perceção» da arte contemporânea

Em artigo dedicado à querela sobre a capela de Assy, e particularmente sobre o "Cristo" de Germaine Richier (1950), o P. Régamey perguntava se o fundamento dessas disputas não seria primeiramente uma dificuldade de «perceção». A questão da «perceção» parecia-lhe «decisiva».

Fugindo a uma controvérsia argumentativa vã, sugeriu ao seu leitor que entrasse um pouco mais nessa compreensão percetiva. Uma das dificuldades da nossa relação com a arte contemporânea decorreria da nossa capacidade em dar espaço à nossa perceção sensível e de encontrar nela um caminho de encontro e conhecimento, para além de preconceitos (pré-julgamentos).

Por ter estado próximo dos desafios da obra "A Igreja e da arte da vanguarda: Da provocação ao diálogo" (Gilbert Brownstone, Albert Rouet, ed. Albin Michel), que causou polémica, parece-me que devemos provavelmente contar entre as razões para o mal-entendido e o mal-entendido um "defeito" de perceção.

O fracasso dessa tentativa de diálogo ainda é um obstáculo. A perceção de uma obra artística é sempre um encontro singular, requer a disponibilidade de si mesmo.

Pastoralmente, sabemos o quanto – e este é um tema recorrente do pensamento do papa Francisco – o encontro efetivo das pessoas pode modificar os julgamentos e revelar vias inesperadas do Espírito em existências particulares. O mesmo acontece no mundo da arte.

 

Fundamentos da arte e revelação cristã

Além disso, a arte e a pesquisa artística são lugares comprovados de investigação concreta e intensa das condições da existência humana. O papa João Paulo II sublinhava com insistência – e disso tinha forte consciência – que a arte é abertura «na profundidade, na altura, no inexprimível da existência», indo ao ponto de afirmar que a Igreja «precisa das artes, e isso não principalmente para encomendar obras artísticas e assim colocar as artes ao seu serviço, mas para chegar a uma experiência mais vasta e mais profunda da condição humana, dos momentos gloriosos e miseráveis do ser humano. Ela precisa das artes para saber melhor o que há de mais profundo no ser humano: desse ser humano a que ela tem de pregar o Evangelho». Ou ainda: «Mesmo quando [a arte] perscruta as profundezas mais obscuras da alma ou os aspetos mais perturbadores do mal, o artista faz-se, de certo modo, a voz da expetativa universal de uma redenção».

Nas suas reflexões sobre a arte, o teólogo Karl Rahner apelava veementemente a não se julgar com demasiada rapidez obras artísticas que poderiam parecer que contradiriam, implícita ou explicitamente, a doutrina cristã. Ele solicitava, antes, um discernimento e perguntava-se se muitas vezes não haveria um verdadeiro amor à realidade e questões genuínas que os cristãos talvez não tivessem suficientemente experimentado e encarado. Nesse sentido, a questão da nossa relação com a arte e com a arte contemporânea poderia reenviar-nos fundamentalmente para a questão da nossa relação com o humano, a nossa capacidade de o escutar e, se somos cristãos, para a nossa maneira de considerar os mistérios da Encarnação e da Redenção, na medida em que neles se joga um encontro efetivo de Deus com o ser humano tal como ele é.

Devemos ter medo da arte contemporânea? Cada uma das duas reflexões que apresentámos de maneira muito sucinta para responder exigiria, como é óbvio, desenvolvimentos mais amplos, bem como abordagens concretas de obras contemporâneas.








 

P. Denis Hétier
In Liturgie et Sacraments (Conferência Episcopal Francesa)
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: "Ascensão" (2000) | Fotograma de vídeo de Bill Viola | D.R.
Publicado em 09.08.2018

 

 
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