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«Dever da solidariedade obriga-nos a criar modalidades justas de partilha», declara papa

«Dever da solidariedade obriga-nos a criar modalidades justas de partilha», declara papa

Imagem luckybusiness/Bigstock.com

A cultura ocidental «exaltou o indivíduo até torná-lo como uma ilha, como se fosse possível ser feliz sozinho», sublinhou hoje o papa ao receber, no Vaticano, os participantes no congresso que assinala os 50 anos da encíclica "Populorum progressio", do papa Paulo VI.

«O dever da solidariedade obriga-nos a criar modalidades justas de partilha, para que não haja aquela dramática desigualdade entre quem tem demasiado e quem não tem nada, entre quem descarta e quem é descartado», frisou.

A intervenção de Francisco, de que apresentamos seguidamente alguns excertos, centrou-se na necessidade de «integrar os diferentes povos da Terra», contrariando os «poderes económicos que querem explorar a globalização, em vez de favorecer uma maior partilha entre os homens, simplesmente para impor um mercado global de que são eles próprios a ditar as regras e a tirar os lucros».

 

Criar «modelos praticáveis de integração social»

«Todos têm um contributo a dar ao conjunto da sociedade, todos têm uma peculiaridade que pode servir para o viver juntos, ninguém está excluído de contribuir com alguma coisa para o bem de todos. Este é, ao mesmo tempo, um direito e um dever. É o princípio da subsidiariedade a garantir a necessidade do contributo de todos, seja como pessoas singulares seja como grupos, se queremos criar uma convivência humana aberta a todos.

 

Família e religião não podem ser absolutizados nem excluídos

«Trata-se, igualmente, de integrar no desenvolvimento todos aqueles elementos que o tornam verdadeiramente tal. Os diversos sistemas, a economia, a finança, o trabalho, a cultura, a vida familiar, a religião são, cada qual na sua especificidade, um momento irrenunciável neste crescimento. Nenhum deles se pode absolutizar e nenhum deles pode ser excluído de uma conceção de desenvolvimento humano integral, ou seja, que tenha em conta que a vida humana é como uma orquestra que toca bem se os diferentes instrumentos são concordes e seguem uma partitura partilhada por todos.»

 

«O eu e a comunidade não são concorrentes»

Trata-se também de integrar a dimensão individual e a comunitária. É inegável que somos filhos de uma cultura, pelo menos no mundo ocidental, que exaltou o indivíduo até torná-lo como uma ilha, como se fosse possível ser feliz sozinho. Por outro lado, não faltam visões ideológicas e poderes políticos que esmagaram a pessoa, a massificaram e privaram-na daquela liberdade sem a qual o homem já não se sente homem.

Nessa massificação estão também interessados poderes económicos que querem explorar a globalização, em vez de favorecer uma maior partilha entre os homens, simplesmente para impor um mercado global de que são eles próprios a ditar as regras e a tirar os lucros. O eu e a comunidade não são concorrentes entre eles, mas o eu só pode amadurecer na presença de relações interpessoais autênticas, e a comunidade é geradora quando o são todos e singularmente os seus componentes. Isto vale ainda mais para a família, que é a primeira célula da sociedade e na qual se aprende a viver em conjunto.

 

«Integração entre corpo e alma»

«Já Paulo VI escrevia que o desenvolvimento não se reduz a um simples crescimento económico; o desenvolvimento não consiste em ter à disposição cada vez mais bens, para um bem-estar apenas material. Integrar corpo e alma significa também que nenhuma obra de desenvolvimento poderá alcançar verdadeiramente o seu propósito se não respeita aquele lugar em que Deus está presente a nós e fala ao nosso coração.»

 

Ser pessoa quer dizer inclusão, dignidade, liberdade

«Deus fez-se conhecer plenamente em Jesus Cristo: nele, Deus e o homem não estão divididos nem separados entre eles. Deus fez-se homem para fazer da vida humana, seja personal seja social, um caminho concreto de salvação. Assim a manifestação de Deus em Cristo - incluídos os seus gestos de cura, de libertação, de reconciliação que hoje somos chamados a voltar a propor aos muitos feridos à beira da estrada - indica o caminho e a modalidade do serviço que a Igreja tenciona oferecer ao mundo: à sua luz pode compreender-se o que significa um desenvolvimento "integral", que não ofende nem a Deus nem ao homem, porque assume toda a consistência de ambos.

Neste sentido o próprio conceito de pessoa, nascido e amadurecido no cristianismo, ajuda a seguir um desenvolvimento plenamente humano. Porque pessoa diz sempre relação, não individualismo, afirma a inclusão e não a exclusão, a dignidade única e inviolável e não a exploração, a liberdade e não a coação.

A Igreja não cessa de oferecer esta sabedoria e o seu trabalho no mundo, na consciência de que o desenvolvimento integral é o caminho do bem que a família humana é chamada a percorrer.»



 

Edição / trad.: SNPC
Fonte: Sala de Imprensa da Santa Sé
Publicado em 04.04.2017

 

 

 
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