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«Foi Deus quem fez aquilo!»

A Anunciação a Maria é uma obra teatral do escritor francês Paul Claudel (1868 - 1955), traduzida para português por Sophia de Mello Breyner Andresen. Claudel, génio do pensamento e da interioridade, convertido ao catolicismo, narra, nesta pequena preciosidade literária, os dilemas existenciais da vida. Ele mesmo a classifica como a "representação de todas as paixões humanas ligadas num plano católico". É a presença do mistério na vitalidade das histórias humanas. “Que vale o mundo em frente da vida? E de que nos vale a vida se não for para nos servirmos dela e para dar?” (in A Anunciação a Maria). Uma obra que diz muito com um pequeno punhado de palavras que abrem o desejo humano à escuta de um anúncio. Uma revelação que se dá segunda uma dissonância cognitiva e afetiva. Ou se quisermos sob a forma do paradoxo, do imprevisível, da surpresa! Neste pequeno drama teatral o amor faz a mediação entre a realidade (“o medo”) e o possível (“consciência da realidade total”). “O amor fez a dor e a dor fez o amor”. A personagem Pedro de Craon sente essa tensão entre o presente e a possibilidade de ser amado: “é muito o vosso amor por ele, Violaine”, ao que ela responde: “é um grande mistério entre nós” (in A Anunciação a Maria).

ImagemAnunciação (det.). Pietro Cavallini

“Como o mundo é belo e como eu sou feliz”, diz Violaine. Também Etty, mulher judia que experimentou no seu corpo o inumano, escreve serenamente: “esta vida é bela e cheio de sentido. De minuto a minuto”[in Diário 1941-1943]. A expressão soa como refrão melodioso, grave, cheio de força e de esperança diante de um presente sombrio. O que é que mantém a lucidez destas duas mulheres, Violaine e Etty? Que apelo suscita tão grande autenticidade? A pessoa e a sua dignidade, o amor relacional, o ato criacional, o perdão, o sofrimento como ‘lugar penitencial’, são compreensíveis somente na presença do ágape de Deus que acompanha o desenrolar das histórias pessoais. Não “é à pedra que compete escolher o seu lugar mas sim ao Mestre da obra que a escolheu”, pois “a santidade não é ser lapidado pelos turcos nem beijar um leproso na boca mas seguir o mandamento de Deus, quer seja ficar onde estamos ou subir mais alto” (in A Anunciação a Maria).

ImagemAnunciação (det.). Pietro Cavallini

A Anunciação a Maria procura dizer o lugar de cada um no mundo. Um lugar que vai da cruz à ressurreição. É a história do “Deus que se fez homem! E morreu! E ressuscitou! Não é o toque do Angelus, é o toque da comunhão!”. Há um paradoxo inalterável que permanece sempre. Há um drama humano nesta obra: o da decisão e o da conversão. Todo o drama presente na narrativa é uma permanente anunciação. Mas aquilo que é anunciado pressupõe a abertura à escuta, à serenidade interior, o refrego dos tumultuosos afetos desordenados. Só o perdão poderá reconciliar novamente os humanos entre si e reabilitar os afetos perdidos ordenando-os. “Cometi um grande crime, matei a minha irmã; mas não pequei contra ti… O que ela diz é verdade. Anda, Tiago, perdoa-lhe… Vem, Mara. É Violaine quem te perdoa… É ela, mulher criminosa, que nos conserva juntos” (in A Anunciação a Maria).

ImagemAnunciação (det.). Fra Angelico

Nesta humana impetuosidade afetiva, demasiadamente humana, a voz dos anjos chama cada um a tomar o seu lugar próprio, a olhar em redor e atender à vastidão da realidade. “O chamamento que o pai ouviu, também a filha o escutou! Que chamamento? O Anjo do Senhor anunciou a Maria e ela concebeu do Espírito Santo. Que concebeu ela? Ela viu toda a grande dor do mundo em sua volta, a Igreja dividida em duas e em França, por quem Joana foi queimada viva. E por isso beijou na boca o leproso, sabendo o que fazia. Um segundo! E um segundo ela decidiu isso? Eis a escrava do Senhor” e o “Verbo fez-se carne e habitou entre nós… Tu dizes que foi ela que fez aquilo? Foi Deus, foi Deus quem fez aquilo!” (in A Anunciação a Maria).

ImagemAnunciação (det.). Fra Angelico

A Anunciação a Maria representa a intervenção de Deus no momento vital das histórias humanas. “Para mim, foi já nesta vida que dela própria e pelos seus lábios inocentes eu recebi a libertação e a despedida” (in A Anunciação de Maria). Deus busca no ser humano, mesmo nas suas imperfeições e depravações, a ajuda para realizar o seu projeto de salvação. Maria é o protótipo da resposta a esta anunciação no seu contexto histórico. Num dos seus belos livros, Teolinda Gersão narra o evento assim: “Não tenhas medo – disse o homem de novo, como uma saudação. O que tens dentro de ti é um filho. – Como posso ter um filho? – Perguntou-lhe, incrédula… – Um filho – do Altíssimo. Abriu a janela e olhou para fora, sem ver nada. Ela fora a escolhida. A eleita… E agora sabia que não era um homem, só podia ser um anjo, isto é, um mensageiro” (in O mensageiro e outras histórias com anjos).

ImagemAnunciação (det.). Donatello

Os mensageiros são aqueles que nos introduzem na “via”: no caminho de Belém, no reconhecimento de Emaús ou na conversão de Damasco. Claudel narra esse reconhecimento como um confronto consigo mesmo. Não sem dor ou com ausência de drama: “Entretanto, passavam os anos e a minha situação tornava-se insuportável. Intimamente, dirigia-me a Deus com lágrimas; e, contudo, não me atrevia a abrir a boca. E, apesar disso, as minhas objeções tornavam-se cada vez mais fracas, e mais dura a exigência de Deus. Oh! que bem conheci este momento e com que firmeza me ficou gravado na alma! Mas como é que tive coragem para lhe resistir? Três anos depois, li as obras póstumas de Baudelaire. E vi que o poeta, que eu preferia a todos os poetas franceses, tinha reencontrado a fé nos últimos anos da vida, e se havia debatido com as mesmas angústias e com os mesmos remorsos que eu” (in Homens que regressam à Igreja de Severin Lamping).

ImagemAnunciação (det.). Donatello

Uma valorização da procura de Deus que se autotranscende na abertura ao mundo da vida, relacionando pensamento e sentimento, razão e afeto, verdade e beleza, justiça e bondade, sensibilidade e arte. Uma poética da esperança que se faz de silêncio, de solidão, de atenção, de imaginação, de lectio divina e de escuta profunda. É o caminho interior exigente e disciplinado que Paul Claudel fez para maturar o dom da fé implícito no seu ser. Uma cisão entre teologia e mistagogia torna inabitável o universo cristão porque nos coloca sempre na necessidade de credibilizar a fé face às transformações da história. Crer é abrir espaço para a invocação (oração) e para o encontro com o pulsar da vida do mundo (“é o toque de comunhão”). Um desafio a crer para quem habita na margem mas também a acreditar de novo para quem habita no centro de uma pertença religiosa.

 

João Paulo Costa
© SNPC | 09.01.13

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