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Fé e cinema: «Há muita gente que vive o questionamento no segredo dos seus corações»

«Há muita gente que vive o questionamento no segredo dos seus corações, de forma pudica e secreta, não de forma política e guerrilheira. O bruá mediático leva os debates à caricatura», considera Xavier Giannoli, realizador do filme “A aparição”, que terá estreia comercial em Portugal nesta quinta-feira.

Em entrevista revelada hoje no jornal “Público”, o cineasta sustenta que «a crença e a fé são uma matéria de tal modo sensível, tão contraditória e tão humana», que sentiu «necessidade de fazer um filme que se reapropriasse do lado íntimo dessas questões e que não fizesse com isso uma questão política e social que terminasse em insultos». 

«Há uma parte de mim que vai em direção a um desejo de recolhimento, que dá importância à oração, à interioridade, que olha para o céu, simplesmente. E há uma parte que duvida, que resiste. E os dois dialogam», confessa, em entrevista ao jornalista Vasco Câmara.

«Antes pensava que esse diálogo era uma coisa má, porque me sentia incapaz de fazer uma escolha, mas é isso, a contradição, que humaniza. Hoje sei, depois de falar muito sobre o filme, que essas personagens expõem a contradição que me habita», assinala, antes de afirmar que prefere «o pudor e o segredo à familiaridade e à transparência».

Para realizar o filme, Giannoli falou com sacerdotes e crentes, e uma dessas conversas tê-lo-á marcado: «A um padre disse-lhe: “Você é mais forte do que eu, no momento da morte acreditará na vida eterna.” Ele olhou-me como um miúdo: “No momento de morrer direi: ‘Espero não me ter enganado.’” Essa frase perturbou-me. A beleza da fé é essa decisão, apesar da dúvida. Em momentos de fanatismo parece que não somos livres de acreditar».



«Lembro-me de em criança o meu confessor dizer: “Xavier, não esqueças que os olhos do Senhor estão sobre ti.” Na verdade, vivia essa frase como uma ameaça, como se me vigiassem. Mas hoje, e sobretudo depois de ter feito “A aparição”, entendo a frase ao contrário: como uma mãe que tem os olhos sobre mim e que me protege»



«Não queria fazer um filme que fizesse proselitismo, mas também não queria fazer um filme que gozasse. Queria encontrar um olhar justo. Evidentemente que há uma emoção religiosa, encarnada pela jovem vidente, mas ao mesmo tempo há um questionamento pela razão. Numa época em que tanto se fala de fanatismo e histeria religiosa, há aquela mulher que diz: “A fé é uma decisão livre e esclarecida.” Achei importante dizer isso hoje», observa.

Tão íntima como multiforme pode ser a fé, e “A aparição” não é um filme que acentue só os “bons crentes” ou os “maus crentes”: «Todas as pessoas têm a sua hipótese no filme. Há quem viva a fé em estado de exaltação, há quem a viva em reclusão, há quem, ao ir atrás de um mistério, acorde em si o mistério, como a personagem de Lindon», o jornalista convocado pelo Vaticano para ajudar a apurar a veracidade de uma aparição.

Educado cristãmente, Xavier Giannoli recorda uma peregrinação que fez aos 10 anos, a Lourdes, quando era escuteiro: «Senti que não estava num lugar onde talvez se tivesse passado alguma coisa — estava num lugar onde evidentemente acontecera alguma coisa. Cresci numa família cristã, o meu pai é praticante, servi à missa. Sou praticante? A minha forma de ser praticante é através do pensamento. Sou habitado pelo questionamento, da fé, da importância dos valores cristãos. O meu problema é com a solução católica, mas isso não tem que ver com a fé cristã».

«Mas, tendo dito isto, sinto um tumulto. Lembro-me de em criança o meu confessor dizer: “Xavier, não esqueças que os olhos do Senhor estão sobre ti.” Na verdade, vivia essa frase como uma ameaça, como se me vigiassem. Mas hoje, e sobretudo depois de ter feito “A aparição”, entendo a frase ao contrário: como uma mãe que tem os olhos sobre mim e que me protege. Passei da sensação de ameaça para algo como: “Não te inquietes, os olhos do Senhor protegem-te.” Na verdade, fiz o filme para isso», aponta.


 

Rui Jorge Martins
Fonte: Público
Imagem: D.R.
Publicado em 08.10.2018

 

 
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