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Homilia: O primado da Palavra e da escuta

Quando procuramos ler a relação entre a Palavra de Deus contida na Sagrada Escritura e povo de Deus, torna-se evidente que hoje tal ligação é, infelizmente, garantido quase exclusivamente pela liturgia eucarística dominical, na qual a proclamação da Palavra e a homilia do presbítero que preside à assembleia chegam aos ouvidos dos fiéis.

Apesar do fim do exílio da Bíblia na comunidade cristã ocorrida com o concílio Vaticano II (1962-1965), ainda não foi amadurecida em contexto católico a assiduidade pessoal com a Palavra de Deus, através da leitura ou da "lectio divina" fora do âmbito litúrgico.

São poucos, se excluirmos presbíteros e religiosos, aqueles que diariamente aproveitam sobretudo o Evangelho para alimentar a sua vida de fé e para orientar o seu agir na companhia dos seres humanos, na história, no mundo.

Em pouquíssimas comunidades a "lectio divina" conjunta semanal e a homilia na liturgia são articuladas como dois momentos distintos, com uma forma própria, um estilo próprio, uma adequada colocação no ritmo litúrgico. Para a comunidade cristã ordinária, como se dizia, a homilia dominical resta a única ocasião de escuta e meditação da Palavra.

Isto coloca importantes interrogações sobre como a homilia é feita e recebida hoje, sendo um ato decisivo, cuja eficácia e receção plasmam a fé e a vida dos batizados. O que é que parece urgente destacar?



Em Jesus havia depois também a capacidade de escuta dos homens e das mulheres aos quais se sentia enviado. Por isso andava de cidade em cidade, de vila em vila, pregando a vinda do Reino, anunciando-o e tornando-o próximo às pessoas



Hoje, deve reconhecer-se, quase todas as homilias querem ser inspiradas pelas leituras litúrgicas, em particular do Evangelho, e todavia poucas são realmente capazes de ser "euanghélion", boa e bela notícia comunicada aos homens e mulheres do nosso tempo.

É verdade: cada vez menos se atesta uma homilia marcada pelo literalismo, ou seja, em que a letra do texto é redita sem o trabalho da interpretação e do discernimento do Espírito Santo presente nas Escrituras. É igualmente rara a homilia que atravessa os textos como sítios arqueológicos, detendo-se de modo aborrecido na redação ou na análise histórico-crítica.

No entanto, está-se ainda longe da assunção da Palavra de Deus presente nos textos mas legível e compreensível só na história, só na escuta do mundo. O pregador deve antes de tudo ser um escutador não só do Senhor que fala nas Escrituras, mas também do povo destinatário da Palavra, de toda a humanidade, aqui e agora.

Significativamente, na "Evangelium gaudium" o papa Francisco dedicou uma ampla secção à homilia (nn. 135-175), de tal maneira ampla que parece desproporcionada em relação a toda a exortação, mas fê-lo na consciência da mudança necessária neste serviço à Palavra.

Todo o seu ensinamento gira em torno da necessidade de o pregador, evangelizado pela Palavra, seja um evangelizador capaz de exortar o povo destinatário da homilia. Francisco fornece também indicações muito práticas seja para a preparação, seja para a linguagem e o estilo a adotar, mas o que me parece mais relevante no seu texto é uma dupla urgência: primado da Palavra e primado da escuta concreta, quotidiana. Escuta quer da comunidade cristã que é "profética", capaz do "sensus fidei", quer da humanidade que espera uma palavra capaz de tornar sensata a vida de cada pessoa.



À imagem de Jesus anunciador do reino de Deus, o pregador deveria sempre procurar nos textos dos quais é chamado a falar a boa notícia, o Evangelho a transmitir aos escutadores. Não deveria por isso pregar escutando as próprias emoções, as próprias urgências, mas "dizer" a boa notícia



O que é que, então, é preciso para que a homilia seja realmente essa boa notícia que convida à conversão e impele a aderir, a crer nesta Palavra repleta de eficácia, capaz de salvação?

Em primeiro lugar é preciso olhar para Jesus, em cuja vida humaníssima Deus quis revelar-se. Jesus pregou o Evangelho de Deus, mostrando ser habitado por uma sabedoria humana, que lhe era reconhecida no seu anunciar, pregar, dialogar com aqueles que encontrava.

E se as pessoas se admiravam com o seu ensinamento, isso devia-se à autoridade que emanava das suas palavras. Jesus aparecia como um mestre, um profeta credível e confiável porque havia coerência entre o seu viver e o seu falar: não havia fratura entre as suas palavras, os seus gestos e os seus sentimentos. Esta sua integridade, esta sua prática humana da fé suscitava a exclamação: «Nunca um homem falou como Ele». E não porque nele houvesse algo de sobre-humano, mas precisamente pela sua humanidade!

Em Jesus havia depois também a capacidade de escuta dos homens e das mulheres aos quais se sentia enviado. Por isso andava de cidade em cidade, de vila em vila, pregando a vinda do Reino, anunciando-o e tornando-o próximo às pessoas que curava e das quais expulsava demónios. Não estava com as ovelhas do redil, mas sentia-se «enviado às ovelhas perdidas da casa de Israel». Tinha compaixão das multidões, «porque eram como ovelhas que não têm pastor». Mantinha sempre viva esta sua capacidade de proximidade e de compaixão, que muita vezes mostrava igualmente em interessar-se a quem tinha diante dele, em colocar-lhe perguntas, bem antes de ensinar.

À imagem de Jesus anunciador do reino de Deus, o pregador deveria sempre procurar nos textos dos quais é chamado a falar a boa notícia, o Evangelho a transmitir aos escutadores. Não deveria por isso pregar escutando as próprias emoções, as próprias urgências, mas "dizer" a boa notícia. Se uma homilia está privada desta boa notícia, os destinatários experimentam aborrecimento, fastio, deixam de escutar...



Por vezes até parece que a homilia é a ocasião para manifestar as próprias obsessões (sobre a sexualidade ou outros temas antropológicos), transformadas em acusações descarregadas sobre os destinatários



Tinha razão o escritor católico François Mauriac quando anotava: «Não há nenhum lugar em que os rostos das pessoas sejam tão inexpressivos como na igreja durante a pregação!». Numa homilia as palavras não deveriam resultar numa «amálgama pastosa e insignificante, como um prato que não se pode comer ou, de qualquer maneira, muito pouco nutriente» (D. Mariano Crociata). Seja dito com clareza: se não há boa notícia, não há Evangelho, mesmo que se pregue sobre o Evangelho!

Infelizmente muitas vezes nas homilias de hoje, ainda que falem do texto evangélico, prevalece uma dimensão moralista, até alimentada por leituras antropológicas ou psicológicas, mas em última análise culpabilizante, sempre pronta a acusar os escutadores, a assembleia.

Por vezes até parece que a homilia é a ocasião para manifestar as próprias obsessões (sobre a sexualidade ou outros temas antropológicos), transformadas em acusações descarregadas sobre os destinatários. Quem fala assim parece quase cego e não sabe discernir que essas palavras de juízo e condenação devem antes de mais serem dirigidas a quem as pronuncia!

Pode-se falar também de Jesus Cristo, mas se o discurso se reduz a uma leitura fenomenológica do seu dizer e agir, deixa de haver lugar para a boa notícia. Neste caso, é melhor uma homilia simples, que pode parecer pouco douta ou de estilo modesto, que uma pregação que tende só a seduzir, e não a pedir conversão.

Não é fácil anunciar o Evangelho, isto é, Jesus Cristo, como boa notícia. Para os intelectuais, em particular, a tentação recorrente é a de fazer homilias privadas do Evangelho, recorrendo em vez dele à própria bagagem de conhecimentos literários ou artísticos.



É preciso fazer sentir a presença de Jesus não no plano das ideias, mas na concretude das relações humaníssimas; é preciso acreditar que a fraqueza do anunciador não é um obstáculo, mas é uma graça que permite dar mais espaço ao Evangelho



Mas se o pregador está no meio do seu povo, se escuta os homens e as mulheres da sua comunidade e aqueles que encontra no mundo, na história, então é mais fácil que a Palavra de Deus seja colhida entre as suas palavras, e assim o Evangelho seja anunciado.

O papa Francisco, na homilia da missa crismal de Quinta-feira Santa, cunhou a expressão "proximidade da cozinha" para pedir aos anunciadores do Evangelho para estarem sempre onde se «cozinham as coisas importantes e decisivas», ou seja, onde se discerne o alimento bom da Palavra e se conhece, graças à proximidade com as pessoas, o que lhes falta e o que precisam.

Certamente que para fazer tudo isto é necessário sobretudo acreditar que «o Evangelho é poder de Deus», que por si opera sempre, mesmo de maneira imprevisível ou oculta: é preciso fazer sentir a presença de Jesus não no plano das ideias, mas na concretude das relações humaníssimas; é preciso acreditar que a fraqueza do anunciador não é um obstáculo, mas é uma graça que permite dar mais espaço ao Evangelho.

Basta pouco, no fundo: basta não se envergonhar do Evangelho de Deus, de Jesus Cristo, vivendo no meio e próximo dos homens.


 

Enzo Bianchi
In Monastero di Bose
Imagem: D.R.
Publicado em 21.05.2018

 

 

 
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