IMpressão digital
Leitura

A verdadeira história de Jesus

Numa manhã primaveril, por volta do ano 30 da era cristã, as autoridades romanas executaram três homens na Judeia. Dois eram salteadores - homens que deviam ter sido ladrões ou bandidos, cujo único interesse era o seu próprio proveito, mas que também podiam ter sido insurrectos cujo banditismo tinha um objectivo político. O terceiro foi executado como um outro tipo de criminoso político. Não tinha roubado, pilhado, assassinado, nem sequer acumulado armas. Foi condenado, no entanto, com base na acusação de ter afirmado que era «rei dos judeus» - um título político. Aqueles que assistiam - entre os quais se encontravam algumas das mulheres que tinham seguido o terceiro homem - pensavam, certamente, que as suas esperanças de uma «insurreição» bem sucedida tinham sido destruídas e que o mundo quase não daria pelo que tinha acontecido naquela manhã de Primavera. De facto, durante algum tempo - tal como demonstram os vestígios literários da elite do Império Romano -, o mundo quase não registou este acontecimento. É evidente que o terceiro homem, Jesus de Nazaré, acabou por se tornar uma das figuras mais importantes da história da Humanidade. A nossa tarefa consiste em compreender quem foi e o que fez este homem.

Não vou tentar explicar por que razão este homem tem sido tão importante ao longo dos séculos subsequentes à sua morte. Isto é uma outra questão que exige o estudo da evolução da teologia cristã nos séculos posteriores à execução de Jesus, sobretudo nos quatro séculos que se lhe seguiram. Jesus tornou-se o centro de uma nova religião e transformou-se numa figura teológica: não só o fundador histórico de um movimento religioso, mas alguém cuja personalidade e obra constituíram tema do pensamento filosófico e teológico. Durante quase dois mil anos, a maioria dos cristãos considerou os ensinamentos de Jesus e as suas outras actividades na Palestina como algo menos importante do que a sua relação com Deus Pai e do que o significado que Deus atribuiu à sua vida e, sobretudo, à sua morte: a sua morte constituiu um sacrifício pelos pecados do mundo inteiro.

Direi um pouco mais sobre o Cristo dos credos cristãos no capítulo X: aqui, gostaria apenas de explicar que este livro constitui uma teologia. Não discutirei aqui nem o que Deus realizou através da vida e morte de Jesus, nem a forma como Jesus participa ou não na Divindade. Abordarei Jesus como um ser humano, que viveu numa determinada época e num determinado local, e procurarei provas e apresentarei explicações - tal como qualquer historiador que escreve sobre uma figura histórica.

É óbvio que a teologia desempenhará um papel importante nesta obra num outro sentido. Tanto Jesus como os seus seguidores tinham ideias teológicas. Aqueles que transmitiram e desenvolveram as tradições sobre Jesus, assim como os autores dos Evangelhos, atribuíram-lhe um papel importante na sua compreensão da acção divina no mundo. Mencionarei, por vezes, a teologia dos primeiros cristãos, porque é importante fazê-lo para analisar o que eles escreveram sobre Jesus, e abordarei mais pormenorizadamente a teologia do próprio Jesus, porque isto constitui uma parte essencial da pessoa que ele foi. No entanto, não tentarei harmonizar estas doutrinas teológicas com os dogmas cristãos posteriores. Creio que existe uma continuidade entre aquilo que o próprio Jesus pensava e aquilo que os seus discípulos pensaram depois da sua morte, assim como entre aquilo que estes pensavam e aquilo em que os cristãos dos séculos posteriores acreditavam. Mas também houve alterações e evoluções. Não seguiremos esta história interessante para além da data do último Evangelho, isto é, cerca do ano 80.

A teologia do próprio Jesus e as teologias dos seus primeiros seguidores constituem questões históricas, que devem ser exploradas da mesma maneira como se investiga o que Jefferson pensava sobre a liberdade, o que Churchill pensava sobre o movimento operário e sobre as greves de 1910 e de 1911 ou o que Alexandre Magno pensava sobre a reunião dos Gregos e dos Persas num só Império, bem como o que pensavam os seus contemporâneos sobre estes grandes homens.

Visto que alguns leitores não estarão habituados a explorar historicamente a vida e o pensamento de Jesus, gostaria de perspectivar o presente trabalho dizendo algumas palavras sobre os outros temas históricos que acabei de mencionar. Eles envolvem graus de dificuldade distintos e requerem a utilização de vários tipos de material. O pensamento de Jefferson [- terceiro presidente dos EUA -] sobre a liberdade e o governo representa um tema vasto, que exige um estudo minucioso, mas cujas fontes são excelentes, devido, em parte, à vasta correspondência de Jefferson, a qual foi conservada cuidadosamente. As medidas que Churchill tomou a respeito da greve dos mineiros, em 1910, e de uma greve dos caminhos de ferro, em 1911, e, sobretudo, as ordens que deu à polícia e ao exército quanto à utilização da força foram bastante discutidas na imprensa da época; além disso, desenvolveram-se opiniões populares que perduraram até aos dias de hoje, embora sejam, frequentemente, incorrectas. O historiador tem de examinar cuidadosamente os vários relatos, incluindo os boatos e as bisbilhotices, para determinar com precisão aquilo que Churchill fez e pensou sobre questões que excitaram tão fortemente os ânimos. Segundo parece, uma investigação exaustiva de todos os documentos, tanto públicos quanto privados, ilibam-no, em grande parte, das acusações que lhe são feitas. A questão de saber o que Alexandre Magno pensava sobre as suas conquistas sem precedentes é uma questão por esclarecer, à qual não se pode responder inequivocamente com base nas provas existentes. Sabemos que conquistou o Império persa, que casou com uma princesa persa e que ordenou a alguns dos seus oficiais que casassem com mulheres da nobreza persa. Mas não podemos saber o que ele pensava exactamente. Podemos concluir, genericamente, que o seu objectivo era estabelecer uma espécie de união ou harmonia entre os seus oficiais macedónios e a nobreza persa, mas não podemos dizer com precisão o que ele pretendia.

Estas questões assemelham-se todas às questões sobre Jesus num aspecto fundamental: as personagens principais são figuras lendárias. As pessoas falavam sobre elas, transmitiam histórias sobre elas durante o tempo da sua própria vida e, com o passar dos anos, alguns aspectos da vida destas figuras foram salientados, enquanto outros foram esquecidos. Quem faz investigação sobre Jefferson ou Churchill dispõe de fontes excelentes que lhe permitem ir para além das lendas e dos boatos. O biógrafo de Jefferson pode apoiar-se numa quantidade imensa de fontes, enquanto o biógrafo de Churchill fica quase imerso em documentação. Descobrir aquilo que Jesus pensava assemelha-se muito mais à investigação sobre o Alexandre histórico. Não se conservou nada que tenha sido escrito pelo próprio Jesus. Os documentos mais ou menos contemporâneos a ele, abstraindo os do Novo Testamento, não esclarecem realmente nada sobre a vida e a morte de Jesus, apesar de revelarem muito sobre o ambiente social e político. As fontes principais do nosso conhecimento do homem Jesus, os Evangelhos no Novo Testamento, têm, para o historiador, o defeito de terem sido escritas por pessoas cujo objectivo era exaltar o seu herói. Contudo, as fontes para Jesus são melhores do que aquelas que se debruçam sobre Alexandre. As biografias de Alexandre originais perderam-se todas e só as conhecemos porque foram utilizadas por autores mais recentes - muito mais recentes. As fontes primárias sobre Jesus foram redigidas numa fase mais próxima da época em que ele viveu e as pessoas que o tinham conhecido ainda estavam vivas. Este é um dos motivos para se dizer que sabemos mais sobre Jesus do que sobre Alexandre. Por um lado, Alexandre alterou tanto a situação política numa grande parte do mundo que os traços fundamentais da sua vida pública são, de facto, bastante conhecidos. Jesus não alterou a situação social, política e económica da Palestina. Mesmo assim - como veremos aprofundadamente -, possuímos uma ideia bastante correcta sobre o percurso da sua vida exterior e, sobretudo, sobre a sua vida pública. A superioridade das provas existentes sobre Jesus, em comparação com Alexandre, torna-se patente, quando perguntamos o que ele pensava. Os seus discípulos iniciaram um movimento que se baseava, em parte, naquilo que o próprio Jesus tinha pensado e feito. Se conseguirmos descobrir quais são as ideias que eles assumiram de Jesus, saberemos muito sobre o seu pensamento. O estudo minucioso dos Evangelhos permite distinguir frequentemente entre aquilo que se preservou das ideias do próprio Jesus e as opiniões dos seus discípulos, como veremos mais pormenorizadamente. O facto de algumas das nossas fontes serem independentes entre si aumenta a nossa segurança. Em Paulo encontram-se indicações importantes sobre algumas das perspectivas e expectativas de Jesus e as cartas de Paulo foram escritas antes dos Evangelhos. Por outro lado, as suas cartas foram coligidas e publicadas depois de os Evangelhos terem sido redigidos; por conseguinte, Paulo não conhecia os Evangelhos e os autores dos Evangelhos não conheciam as epístolas de Paulo.

Mesmo assim, as nossas fontes deixam muito a desejar. Os Evangelhos transmitem palavras e actos de Jesus numa língua que não era a sua (ele ensinou em aramaico e os Evangelhos estão escritos em grego) e colocam cada peça de informação num cenário imaginado pelos seus discípulos, sendo que se trata habitualmente de discípulos que se encontravam a uma certa distância temporal em relação a ele. Mesmo que soubéssemos que estamos perante as suas próprias palavras, teríamos sempre de recear que ele tivesse sido citado fora de contexto.

O historiador que investiga a vida de um grande homem e faz um relato completo das suas descobertas escreverá, quase com certeza, algumas coisas que os admiradores da pessoa em causa prefeririam não ler. As pessoas, cuja imagem de Jefferson foi criada imaginando o carácter do autor da Declaração da Independência, podem ficar chocadas com um estudo sobre a sua vida amorosa e o seu consumo de álcool. Quem pensa em Churchill como o homem que «mobilizou a língua inglesa e a mandou para a guerra» (como se lhe referiu John F. Kennedy), achará menos interessante a descrição de Churchill como representante da política interna. Isto não constitui um aviso de que eu vá revelar algo verdadeiramente chocante sobre Jesus, como uma promiscuidade sexual, por exemplo. Limitar-me-ei ao material empírico que não diz absolutamente nada sobre temas deste género. Se Jesus teve alguma falta séria, não temos possibilidade de a conhecer. Mas também não me limitarei a escrever como ele era simpático, nem ignorarei os aspectos da sua vida e do seu pensamento que os seus admiradores mais fervorosos gostariam de ver desaparecer. Temos de compreender por que motivo provocou controvérsias e porque tinha inimigos. A visão cristã tradicional, segundo a qual os judeus o odiavam porque ele era um homem bom e porque defendia o amor, ao qual eles se opunham, não serve. Esforçar-me-ei por lidar com ele e com os seus contemporâneos de uma forma mais realista.

A pesquisa sobre o Jesus da História já tem mais de 200 anos. Nos finais do século XVIII, alguns europeus corajosos começaram a aplicar os métodos da crítica literária e histórica aos livros do Novo Testamento que, até ali, tinham estado fora do seu alcance eram demasiado sagrados para a investigação laica da Renascença e do Iluminismo. A leitura das descrições de Jesus, escritas neste período de dois séculos por investigadores sérios e empenhados, revela que as conclusões foram extraordinariamente díspares, o que levou muitos a pensar que não sabemos realmente nada. Esta reacção é exagerada; sabemos bastante. O problema está em conciliar o nosso conhecimento com as nossas esperanças e aspirações. A importância que Jesus e o movimento que ele iniciou alcançaram posteriormente leva a que queiramos saber tudo sobre ele, especialmente, sobre os seus pensamentos mais íntimos, como, por exemplo, o que pensou de si mesmo. Como já disse, penso que temos bons indícios sobre algumas das ideias de Jesus. No entanto, é, normalmente, ilusório pensar que se tem acesso aos pensamentos íntimos, mesmo que seja de pessoas cuja vida pública está bem documentada. O que pensava Lincoln de facto, no fundo do seu coração, sobre a libertação dos escravos? É uma pergunta difícil, apesar de dispormos de muito material sobre Lincoln, e embora saibamos o que ele fez e com que consequências. Com Jesus, a situação é semelhante, embora a nossa documentação não seja tão completa: conhecemos algumas das coisas que ele fez, uma quantidade razoável sobre o que ensinou e bastante sobre as suas consequências. A partir daí, temos de inferir quais eram os seus pensamentos mais profundos. Não deveríamos ter receio de fazer essas inferências, mas deveríamos reconhecer que elas são menos seguras do que as suas palavras e -os seus actos - sobre os quais já é bastante difícil chegar a provas seguras.

O objectivo do livro é apresentar, tão claramente quanto possível, aquilo que podemos descobrir recorrendo aos métodos de investigação histórica habituais, assim como fazer uma distinção entre isto e as inferências, classificando-as inequivocamente como tal. A discussão geral dos milagres e da doutrina de Jesus incluirá algumas passagens de cuja fiabilidade duvido (como esclarecerei no lugar devido), mas as provas que eu considero certas controlarão os temas, as categorias e as conclusões.

Este objectivo é modesto, mas difícil de cumprir. É frequente os autores gostarem de descrever as dificuldades do seu objecto para despertarem a compaixão dos leitores. Claro que espero ter leitores benévolos, mas também penso que é, realmente, mais difícil escrever livros sobre Jesus do que sobre outras pessoas acerca das quais dispomos de documentação comparável. Já chamei a atenção para o facto de pessoas que se contentam com uma informação geral sobre outras figuras da Antiguidade quererem saber muito mais no caso de Jesus. Põem-se outros problemas específicos. Um deles consiste no facto de as fontes principais, os Evangelhos do Novo Testamento, constituírem uma leitura amplamente divulgada e serem de acesso directo para o público que lê. Isto exige que o autor esclareça com algum detalhe a forma como utiliza as fontes - tarefa que os biógrafos de outras figuras da Antiguidade podem realizar rapidamente ou mesmo omitir. Todos os historiadores têm opiniões sobre as suas fontes, mas, habitualmente, só têm de as explicar a outros investigadores. A discussão dos problemas postos pelas fontes da Antiguidade é quase necessariamente técnica, o que impõe um fardo suplementar aos leitores. Problema mais importante ainda é o de praticamente toda a gente ter a sua própria opinião sobre Jesus e, portanto, ter uma ideia preconcebida sobre aquilo que um livro sobre ele deveria dizer. Salvo raras excepções, estas opiniões são extremamente favoráveis. As pessoas querem estar de acordo com Jesus e isto significa, frequentemente, que o vêem concordando com elas.

Os ensinamentos éticos de Jesus, em particular, são aplaudidos em quase todos os campos. Os ensinamentos recolhidos no sermão da montanha (Mt 5-7), sobretudo, o mandamento do amor aos seus inimigos e a oferta da outra face, a par das parábolas em Lucas, como, por exemplo, a história do bom samaritano, serviram, muitas vezes, como súmula da verdadeira religião no pensamento dos grandes e famosos, incluindo daqueles que não tinham simpatia por nenhuma ou quase nenhuma religião organizada. Thomas Jefferson rejeitava a ideia de uma igreja estabelecida (quer dizer, de uma religião oficial de Estado); e esta perspectiva foi incluída na Constituição dos Estados Unidos da América. Mas Jefferson foi ainda mais longe: escreveu que tinha «jurado sobre o altar de Deus uma inimizade eterna por qualquer forma de tirania sobre o espírito humano», incluindo, em particular, as doutrinas de muitas confissões cristãs. No entanto, considerava Jesus um «mestre obreiro», cujo «sistema moral foi, provavelmente, o mais benéfico e sublime alguma vez ensinado». Segundo Jefferson, Jesus era «sensível à incorrecção das opiniões dos seus antecessores sobre a Divindade e a moral» e «fez tudo para os conduzir aos princípios de um deísmo puro e a noções mais correctas dos atributos de Deus, a fim de reformar as suas doutrinas morais de acordo com as normas da razão, da justiça e da filantropia e para inculcar a fé num estado futuro». Por outras palavras, Jesus era muito parecido com Jefferson.

Charles Dickens era mordaz em relação à Igreja vitoriana. Assim, escreveu que, num dia de Outono em Coketown (a cidade fictícia de Dickens, na qual era suposto todos os desastres sociais e económicos da revolução industrial tornarem-se patentes), «as cotovias cantavam, apesar de ser um domingo». Dickens debruça-se pormenorizadamente sobre os horrores do domingo numa extensa passagem na sua obra intitulada Little Dorrit. Clennam, uma das personagens do romance, recorda uma legião de domingos passados, «todos eles dias de uma amargura e angústia absurdas». No entanto, o autor estabelece um contraste entre os desconsoladores dias de descanso vitorianos e a «história benévola do Novo Testamento», acerca da qual Clennam nunca ouviu falar durante as muitas horas que tinha passado na igreja. Perto do fim do livro, a heroína insta a dura senhora Clennam a não se agarrar à sua religião vingativa, mas sim a deixar-se apenas guiar por aquele «que curava os doentes, ressuscitava os mortos, o amigo de todos os que sofriam e estavam sobrecarregados, o bom Mestre que derramou lágrimas de compaixão pelas nossas fraquezas». O desagrado de Dickens em relação aos domingos não se estendia a Jesus. Os domingos em Coketown poderiam ser sombrios, mas o verdadeiro problema era que os homens que mandavam, como, por exemplo, o senhor Gradgrind, pensavam que o «bom samaritano» era um «mau economista».

Winston Churchill, embora não tivesse nada contra o cristianismo oficial, tinha a mesma opinião sobre Jesus. Segundo um cronista, numa longa conversa com Harry Hopkins e outros, em 1941, Churchill ventilou a questão da tarefa de reconstrução do mundo quando a Guerra acabasse, finalmente. «Não podíamos encontrar um fundamento melhor do que a ética cristã e quanto mais seguirmos o sermão da montanha, tanto mais probabilidade teremos de ser bem sucedidos nos nossos esforços.» Onze anos mais tarde, Churchill continuava a ver no sermão da montanha «a última palavra em matéria de ética».

O facto de Jesus gozar de uma aprovação tão generalizada prova que os autores dos Evangelhos cumpriram bem a sua tarefa. Eles pretendiam que as pessoas se convertessem a ele, que o admirassem e acreditassem que ele tinha sido enviado por Deus e que segui-lo levaria à vida eterna. Raramente as expectativas foram cumpridas de forma tão total. Na perspectiva dos autores, a admiração por Jesus e a fé nele iam a par. Mateus e Lucas (aos quais devemos o sermão da montanha e a parábola do bom samaritano) não teriam gostado que os ensinamentos de Jesus fossem separados da própria convicção teológica, que eles próprios possuíam de que Deus o tinha enviado para salvar o mundo. Apesar disso, a forma como construíram os seus livros permite ao leitor escolher aquilo que lhe agrada e foi isso que muitos leitores fizeram, admirando Jesus, mas discordando da teologia cristã. Nestes casos, alguns dos objectivos dos evangelistas foram alcançados.

É destino do historiador ser a pessoa que submete os Evangelhos a um tratamento severo. Ele pode aderir ou não à teologia dos Evangelhos, isto é, à ideia de que Deus actuou através de Jesus. Seja como for, tem de ter consciência de que os autores tinham convicções teológicas e de que é provável que tenham revisto os seus relatos para que estes apoiassem as suas convicções, O historiador também tem de suspeitar que a doutrina ética que impressionou tanto o mundo tenha sido acrescentada através da sua utilização homilética e dos aperfeiçoamentos redaccionais ocorridos entre o tempo de Jesus e o surgimento dos Evangelhos. Independentemente destas suspeitas, o historiador tem a obrigação profissional de submeter as fontes a um interrogatório cruzado rigoroso: «Tu afirmas que “todos os habitantes de Jerusalém” foram ouvir João Baptista (Mc 1,5) e que Jesus curou “todas as doenças e todos os males” (Mt 4,3). Eu digo-te que estás a exagerar muitíssimo.» É óbvio que, nestas duas passagens, o historiador não observa senão exageros de retórica. Mas é necessário colocar outras questões:

«Tu afirmas que os seus inimigos eram astuciosos e cheios de maldade. Eu digo-te que alguns eram sinceros, honestos e piedosos e que, por isso, o conflito não se reduzia a um esquema a preto e branco, como se fosse um western.» E o exame continua ao longo de todo o relato. Portanto, ao contrário dos políticos, romancistas ou moralistas, o historiador não pode limitar-se a escolher aquelas partes do Evangelho que testemunham nobreza e que podem servir de inspiração a outros. O historiador escolhe, mas com base em critérios diferentes: o que pode ser provado, o que não pode, o que está entre uma coisa e outra?

E. P. Sanders

in A verdadeira história de Jesus (Introdução)

16.01.2009

 

Subscreva

 

 

Topo | Voltar | Enviar | Imprimir

 

 

barra rodapé

Capa

A verdadeira
história de Jesus

Autor
E. P. Sanders

Editora
Notícias Editorial

Ano
2004

ISBN
972-46-1529-4















































































































































































































































Edição mais recente do ObservatórioOutras edições do Observatório
Edição recente do Prémio de Cultura Padre Manuel AntunesOutras edições do Prémio de Cultura Padre Manuel Antunes
Quem somos
Página de entrada