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Bento XVI: um pensamento para o nosso tempo

[“Introdução ao Cristianismo”, publicado em 1968,] constitui, sem dúvida, a obra mais emblemática de Ratzinger, fruto de toda a sua reflexão teológica anterior e da experiência excepcional que lhe foi dado fazer como perito do Concílio. Podemos dizer que aí se contêm as linhas fundamentais do seu pensamento que, no tempo de leccionação que se seguiu em Regensburg, ele aprofundou, desenvolveu e ampliou.

É um livro escrito para o grande público que procura transmitir as ideias fundamentais do Cristianismo a partir, por vezes, de temas e comparações bem conhecidas dos leitores, como logo no prefácio a estória de Hans in Glúck, que talvez possamos traduzir por «Joãozinho à procura da felicidade». Tendo-se visto na posse de uma pepita de ouro, Hans acha que é demasiado incómodo transportá-la, decidindo trocá-la primeiro por um cavalo, e sucedendo-se, depois, a troca deste por uma vaca, desta por um ganso, e, finalmente, do ganso por uma pedra de afiar, a qual Hans acaba por lançar à água, sem a noção de, com isso, ter perdido grande coisa. Pelo contrário, pensa ter ganhado assim o inestimável dom de uma total liberdade. A estória deixa à fantasia do leitor imaginar por quanto tempo durou esse estonteamento de Hans e como foi para ele sombrio o momento em que acordou da sua ilusão de uma suposta liberdade.

Com esta estória quer Ratzinger ilustrar o que, frequentemente, acontece com alguns teólogos que sentem como um peso o tesouro da fé e a vão desvalorizando progressivamente através da reinterpretação que dela fazem. Aquilo que, num primeiro momento, parecia uma perda de pouca monta, é sentido imediatamente ainda como peso excessivo levando a novas reinterpretações através das quais, sucessivamente, o tesouro da fé se vai desvalorizando — até ao momento em que lançá-lo fora parece o mais óbvio para se obter uma pretensa liberdade plena. O que resta, então, é uma grande desilusão e o sentimento de vazio.

Desta comparação não quer inferir o autor que tudo foi assim na teologia moderna, longe disso (...).Nem que um insistir em fórmulas do passado sem as traduzir para a mentalidade e cultura do presente seja a forma adequada de conservar o tesouro da fé, em que o apego a uma formulação adquirida e segura já não contribui para uma verdadeira liberdade. Daí o objectivo do livro: «Ele quer ajudar — explica — a entender de novo a fé cristã como possibilitação de uma verdadeira humanidade no nosso mundo de hoje, desejando ajudar a interpretá-la, mas sem a trocar num palavreado que, só a custo, tenta encobrir um total vazio espiritual.»

FotoBento XVI nos Exercícios Espirituais. Vaticano, 22.2.2010. Reuters

E é ao realizar esta sua intenção que Ratzinger se revela com um tipo de pensamento que, afinal, se apresenta como muito sistemático, no sentido de enfrentar as questões e as debater com argumentos. Isto deriva (...) de Ratzinger ser um intelectual que não esconde o seu gosto de pensar, de debater ideias e de procurar as melhores formulações. Mas trata-se de uma determinada forma de intelectualidade, de um modo analítico e sintético de reflectir que se interessa menos pelas realidades concretas do que pelo mundo do pensamento, e se preocupa em detectar a verdade de fundo ou a falta dessa verdade. Trata-se de identificar a «lógica» de uma realidade, como ele próprio disse. A “Introdução ao Cristianismo”é um bom exemplo dessa força intelectual sistemática que se manifesta quando torna transparentes as mútuas implicações dos diversos aspectos no modo de entender a fé cristã.

FotoBento XVI durante a oração do Angelus. Vaticano, 21.2.2010. Reuters

 

*****

 

A forma de relacionamento positivo com a história encontra-se nos períodos mais tranquilos da história cristã. O homem confia-se imediatamente à fé da Igreja por se haver convencido, na base dos factos da sua própria vida, de que os acontecimentos narrados no Novo Testamento são o centro inequívoco de toda a história. Confia-se à fé, porque no mundo configurado por ela encontra o fundamento que sustenta a sua vida, que lhe dá sentido, salvação e pátria. A comunidade de fé e de oração em que cresceu, a abertura ao mundo e aos valores que aí experimenta, a orientação da sua própria existência, a resposta que recebe à pergunta acerca da forma da existência humana, tudo isso lhe garante a segurança. É este sentido de segurança que lhe permite realizar-se a si próprio na sua existência, e pela qual está disposto a pagar o preço de grandes esforços. E Ratzinger conclui que, então, «a história cristã, concretamente presente, dá forma e liberdade à sua vida e por isso é aceite como salvação».

FotoBento XVI abraça uma pessoa do centro de acolhimento para sem-abrigo da Cáritas de Roma. 14.2.2010. AP

Mas há também uma outra forma, de sinal negativo, de relacionamento com a história. A história converte-se em problema quando entra em conflito com as experiências fundamentais da vida de alguém; quando, em vez de o salvar, o divide em si mesmo e o abandona; quando, em lugar de lhe oferecer um caminho, torna insuportáveis os dilemas da existência; numa palavra, quando começa a fazer vacilar alguém na sua própria forma de vida e o leva a questionar-se a si próprio. Então surge a suspeita de que a história não conduz ao ser, antes perturba o acesso a ele, não é salvação mas ópio, não é caminho para o que é autêntico mas alienação. Quando a consciência histórica começa assim a vacilar, o homem histórico entra em crise e tem de reflectir e actuar na procura de um novo caminho. É nesse momento que a experiência da história como salvação se pode transformar em rebelião contra a história.

FotoDiscurso durante a visita à Cáritas de Roma. 14.2.2010. AP

Para o verificar pode-se, de novo, recorrer à experiência humana em geral. No budismo realiza-se essa rebelião, diz Ratzinger, pelo total afastamento da história e do ser que nela se outorga. Deus é então, precisamente, o não-ser. A revolução é tão radical que já não se opera no interior da história, mas se concebe como sua antítese total, como orientação para o «nada».

 

*****

 

[Joseph Ratzinger] sempre se opôs a um modo meramente imanentista de entender a relação do homem com Deus, modo esse que, em última análise, acaba por negar à história o seu poder de nos dar acesso ao dom da salvação. De uma forma radical isso acontece quando a história, como no marxismo, é pensada enquanto produto da acção humana, o que significa que o homem é remetido ao supremo isolamento em si mesmo. Por isso também, Ratzinger sempre se opôs às teorias que explicam a origem do homem por mero acaso. É uma outra maneira de negar o que o cosmos e a história têm obviamente de inteligibilidade, logos que o homem é chamado a reconhecer mas que não é, originariamente, obra sua.

FotoUm cardeal impõe as cinzas sobre Bento XVI na celebração que assinala o início da Quaresma. Vaticano, 17.2.2010. AP

É preciso ainda notar que não é apenas mediante o conhecimento que o homem pode obter a salvação através de uma história que seja, verdadeiramente, história da salvação porque obra da liberdade de Deus. O êxtase que me reporta ao que, na história, supera a história, só pela força do amor pode acontecer. Um amor que me leva a sair de mim, sendo essa a condição para encontrar a segurança acima de mim pela comunidade que faz história comigo, dando-me acesso à verdade do ser. E Ratzinger conclui: «A tensão entre ontologia e história encontra, em última análise, o seu fundamento na própria tensão do ser humano, que tem de estar fora de si para poder estar em si. Tem o seu fundamento no mistério de Deus, mistério que é liberdade e, assim, chama cada um pelo seu nome que não é conhecido pelos outros. Deste modo, é no particular que lhe é dado possuir o todo.»

FotoVaticano, 11.2.2010 (Dia Mundial do Doente). Reuters

Desde o tempo em que analisou a teologia da história de S. Boaventura, nunca Joseph Ratzinger deixou de reflectir sobre a problemática cristã do acesso à salvação que nos é dada por Deus mediante a história. Esta reflexão exerceu-se também noutros âmbitos, como o da historicidade da fé e dos dogmas (...).

 

*****

 

[Ratzinger foi] um dos principais artífices dessa obra de grande equilíbrio e rigor que constitui a teologia do Concílio Vaticano II, nas suas vertentes fundamentais. Antes de as discussões conciliares terem início, já nessa reflexão vinha trabalhando uma elite de grandes teólogos.

FotoVaticano, 20.2.2010. Reuters

Quando o seu resultado finalmente foi divulgado após o Concílio, seria inevitável que a mentalidade geral da Igreja sentisse uma extrema dificuldade em assimilar rapidamente as novas perspectivas. Nos seminários maiores, institutos superiores e faculdades continuava-se a estudar teologia, frequentemente, nos moldes anteriores a essa renovação. Muito daquele rigor que, mercê da laboriosa investigação das fontes e da discussão dos especialistas, tinha sido conseguido, foi interpretado por alguns como compromisso táctico só explicável, diziam, para se levar a cabo o Concílio em tempo útil. Era necessário, acrescentavam, ultrapassar, no tempo pós-conciliar, tais formas de compromisso com visões teológicas mais ousadas e radicais. O ponto de referência para muitos deixou de ser o Concílio Vaticano II real, para residir num Vaticano III virtual em que cada um projectava as suas preferências e ideias, juntamente com alguma ou muita ignorância acerca do que verdadeiramente estava em jogo nas questões em causa.

FotoBento XVI experimenta o boné de um piloto da companhia aérea Alitália. 20.2.2010. AP

Quando Ratzinger, após o Concílio, veio defender, em nome da interpretação rigorosa da síntese conciliar, posições que contrariavam manifestações dessa atitude vanguardista que se tinha criado, foi apelidado de conservador, fazendo-se a tentativa de contrapor a esse alegadamente novo Ratzinger o teólogo aberto que tinha sido antes e durante o Concílio. Uma análise mais atenta das posições concretas que tem tomado, no entanto, mostra uma coerência espantosa entre aquilo que defendia o jovem Ratzinger e o que defende Ratzinger na sua maturidade, como quando, por exemplo, critica, em certos desenvolvimentos da Teologia da Libertação, uma concepção da Igreja como povo de Deus no sentido sociológico e político, à maneira do Antigo Testamento, ou uma confusão de escatologia e utopia, à maneira de Joaquim de Fiore.

FotoSeminário Maior de Roma, 12.2.2010. AP

Noutros casos, foi a acentuação das posições tomadas que mudou. E se o novo Papa, por temperamento e opção, é extremamente afável, humilde e conciliador na vida do dia-a-dia, é, contudo, combativo e mesmo polémico quando se trata de procurar a verdade. Em situações que, a dada altura, se tornaram muito diferentes, Ratzinger parece por vezes defender posições contrárias às que no passado defendeu. Mas isso deve-se, geralmente, ao facto de os valores que considera hoje ameaçados serem de sinal contrário aos que, há alguns anos, era preciso defender. E é sempre o desejo de encontrar a verdade que o leva a tomar a sério todas as posições e ideias, sejam elas defendidas por um simples fiel obscuro ou um grande teólogo. Nunca hesita em entrar abertamente na discussão. Parece-me que essa é a sua forma de mostrar respeito pelo que os outros pensam, ao mesmo tempo que dá primazia ao amor da verdade. Conciliando o respeito pelos outros e o amor da verdade, considera a todos como cooperatares veritatis, segundo o lema do antigo Arcebispo de Munique e actual Bento XVI.

 

 

 

Estes excertos não incluem as notas de rodapé publicadas no volume.

 

H. Noronha Galvão
In Bento XVI - Um pensamento para o nosso tempo, ed. Pedra Angular
Vídeo: Ecclesia/RTP
23.02.10

Capa

Bento XVI
Um pensamento
para o nosso tempo

Autor
H. Noronha Galvão

Editora
Pedra Angular
pedra.angular.livros
@gmail.com

Ano
2010

Páginas
192

Preço
12,00 €

ISBN
978-989-961-45-67

 

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