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Peregrinação

De Paris a Jerusalém: uma lua-de-mel extraordinária

«À porta da igreja de Notre-Dame, em Paris, Mathilde e eu damos os primeiros passos de casados. Bens, conforto, família, amigos - deixámos tudo. Arriscamos não regressar. A vida está diante de nós. (...)

À saída, um amigo meteu no meu bolso um pequeno presente. Na pressa nem vimos o que era. "Não pesa nada, são só cinco gramas", disse. Vejo agora que é uma cruz. Os seus reflexos dourados cintilam. Na parte de trás, a origem: Jerusalém.»

Breve apontamento em texto e fotografia deste «caminho de promessas».

Seis mil quilómetros a pé. Sem dinheiro. E a dois. Eis o itinerário estabelecido por Édouard e Mathilde Cortès no dia a seguir ao seu casamento, em Junho de 2007.

Partir para «viver unidos um grande sonho», no seguimento dos peregrinos da Idade Média que se arriscavam até Santiago de Compostela, ou como os monges tibetanos que caminham até Lhassa. Os Cortès escolheram Jerusalém, a cidade três vezes santa, para terra prometida.

Uma lua-de-mel que pelo menos é fora do comum, anota com humor Mathilde nas primeiras páginas do caderno de viagem que foi publicado pelo casal depois do regresso. «A tradição diz que a jovem recém-casada não conheça o destino da viagem de núpcias. É o marido que faz a surpresa. Eu sei o destino, mas pressinto que haverá surpresas.»

Foi para melhor «se abandonar» e romper durante um certo tempo com a lógica de uma «sociedade consumista» que o casal optou por não levar dinheiro nem cartão de débito. «Partir sem dinheiro implica entregar-se à Providência. É um acto de confiança. Este caminho revelou em nós uma música interior, o canto da alma».

Esta opção radical não é uma norma absoluta: «Cada peregrino escolhe a modalidade da viagem de acordo com as suas expectativas», diz Édouard.

«Não parámos de caminhar na direcção do Levante, com o sentimento de que estávamos a avançar para a vida», recorda Édouard, que é repórter fotográfico profissional e apaixonado por expedições longínquas.

Para o casal, pedir hospitalidade ou um pedaço de pão para o caminho foram ocasiões para ir ao encontro dos outros.

As dúvidas e os desencorajamentos, que não faltaram, perturbaram por vezes o moral. Particularmente em Itália, nas zonas industriais do Norte: «Uma noite, depois de vários “nãos” consecutivos, senti-me abatida, decepcionada, vazia», confessa Mathilde. «Mas o nosso propósito atraiu muitas vezes a simpatia, não apenas nos países onde a hospitalidade é cultural, como na Turquia ou nos Balcãs. Desde França que fomos muito bem acolhidos.»

«O que é necessário? Tentámos largar o máximo.» (Mathilde)

Nos Alpes, a 3300 metros de altitude, o ponto mais alto da caminhada.

«Somos lentos, muito lentos. Mas demorar-se é ver, saborear, sentir o vento, a chuva, o sol, sentimos que vivemos. Isso é que é exaltante. Caminhar não é só mexer os pés, é pôr os sentidos em marcha.»

Os Cortès percorreram 13 países: França, Suíça, Itália, Eslovénia, Croácia, Bósnia-Herzegovina, Sérvia, Bulgária, Turquia, Síria, Jordânia, Israel e os territórios da Palestina.

Mathilde: «Por vezes percorríamos 40, 50, 60 quilómetros sem muita coisa no estômago. Mas isso não é o mais difícil. O mais duro é estar permanentemente na precariedade. A pé, sem dinheiro, sem telefone, estamos vulneráveis, abrigados de nada. Tudo nos atinge de maneira mais forte: a chuva parece mais fria, o vento mais violento... Precisávamos dos outros.»

A travessia dos Balcãs.

Tomámos consciência de que a guerra dos Balcãs, na ex-Jugoslávia, ocorreu a menos de 1500 quilómetros de Paris. Atravessámos povoações desertas. As casas abandonadas estão crivadas de balas, os tectos arrancados pelas explosões. Não se vê ninguém. No Kosovo, além das casas, as igrejas sérvias estão também por terra.

Nos Balcãs percebemos o ódio que as famílias de ambos os lados da guerra têm em relação às outras, escreve o casal no seu diário. Mas seja onde for, os Croatas, os Sérvios, os Bósnios, os Albaneses têm em comum ao acolhimento ao viajante.

Este périplo, incerto por natureza, poderia parecer insensato. Loucura?

«Só o sonhador do impossível é capaz de alcançar os sonhos impossíveis», diz com serenidade Mathilde, que no entanto reconhece os perigos da viagem, referindo, por exemplo, ter sido agredida por um desconhecido na estrada de Istambul.

Por vezes os quilómetros sucediam-se sem água e sem ninguém que oferecesse bebida aos peregrinos. «Nesta terra deserta, três pessoas não perceberam a sede que tínhamos da sua humanidade. Somos pobres. Dinheiro algum compra o conforto de um acolhimento generoso. O céu está aberto. Não há estrelas. Tenho sede de um coração de carne. O deles está seco. Esta noite dormiremos ao pé da porta deles, sobre as pedras e as silvas duma casa bombardeada. O meu coração está desidratado pela indiferença.» (Mathilde)

Vivemos de uma maneira extrema os nossos primeiros meses de matrimónio: juntos 24 horas sobre 24, não é habitual. Quando somos dois, nada resiste à estrada, não resta nenhuma máscara. Fatiga, preguiça, orgulho? É tempo perdido querer escondê-los.

Um padre ortodoxo na estrada de Plovdiv, na Bulgária. «Oferece-nos de comer e canta-nos melodias ortodoxas antes de nos deixar. Algumas horas mais tarde, qual não foi a nossa surpresa ao reencontrá-lo à entrada de Plovdiv! Estava à nossa espera para nos apresentar um amigo que vivia na cidade.»

Durante 232 dias «passámos metade das nossas noites em casa de famílias. Uma bela maneira de descobrir modos de vida, de partilhar.» O facto de nos entregarmos aos outros obriga a mostrarmo-nos com verdade».

A nossa viagem para o Oriente tornou-se um rosário de encontros que reconforta os nossos corações, Muitas famílias não tinham dinheiro, mas saciam-nos a fome e enchem as nossas mochilas com alimentos que tiram das despensas e das hortas.

O mosteiro ortodoxo de Graçanica, Kosovo, Património Mundial da Humanidade, está na lista de edifícios em perigo. «Que será destas pedras e destes homens e mulheres que encontraram refúgio nesta comunidade monacal depois da independência do Kosovo? Que será da Marta, a menina de seis anos que depois de ter brincado uma noite connosco nos ofereceu o seu único brinquedo, um urso de peluche: “Tomem, é para a vosso primeiro bebé”. Entre 1994 e 2004 mais de 120 igrejas e mosteiros foram saqueados, queimados, dinamitados. O que as pedras sofreram no Kosovo, os homens viveram na sua carne e na sua memória.»

 

Na Turquia, o milagre da hospitalidade: das 39 noites depois de Istambul, apenas dormiremos sete na tenda.

A Capadócia é um museu a céu aberto.

Ao longo dos séculos, a natureza esculpiu um espectáculo fantástico. À noite, Édouard e Mathilde dormiram numa habitação pré-histórica.

As majestosas ruínas romanas de Apameia, Síria. Permanentemente vigiado pelos serviços de informações sírios, o casal foi tentado pelo desencorajamento. «Nunca como então nos sentimos tão estrangeiros.»

«Pedimos hospitalidade a uma família de Beduínos. Sem hesitar, o pai, que reina como um patriarca debaixo da sua tenda, fez-nos entrar.»

Depois de uma semana bloqueados na Jordânia, e após três tentativas para passar a fronteira, Édouard e Mathilde pisam finalmente o solo israelita.

«Agora a nossa caminhada chega ao fim, diante dos teus muros, Jerusalém...» 5788 quilómetros. No fim da viagem, «o amor já não é essa ressonância melosa e ingénua que muitas vezes se lhe atribui.» «Andámos lentamente, até penosamente, por vezes. Esperamos ser um casal sempre em caminho.» (Mathilde)

A viagem de Édouard e Mathilde está agora em livro - «Un chemim de promesses», Edições XO. E há também um «site» com fotografias e texto, além de um vídeo sobre o livro e uma entrevista à editora.

Texto e fotografia: Édouard e Mathilde Cortès
in La Croix

12.01.2009

 

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