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Evangelizar de novo

Neste contexto, é tempo de evangelizar de novo. Com C. Floristán, poderemos distinguir três etapas-modelos na história da evangelização: doutrinal, missionária e libertadora, não estritamente consecutivas. A primeira seria típica das cristandades (antigas ou novas), consistindo na transmissão doutrinal e na integração sacramental, moral e institucional, quer de infiéis quer de pecadores; antes do Vaticano II, alguns teólogos, pastoralistas, padres operários, religiosas vivendo em bairros marginais e movimentos de leigos apostados em «ler o Evangelho nos sinais dos tempos» protagonizaram uma missão dialogante, que não se reduzia à oferta da graça, mas respondia aos anseios e actuações que a mesma graça originava nos locais mais diversos; a evangelização libertadora, finalmente, requer que o anúncio evangélico corresponda às aspirações concretas de liberdade e igualdade dos pobres e oprimidos.

Evangelizar tornou-se mote e tema omnipresente a partir de meados do século XX. Em 1975, a exortação apostólica Evangelii Nuntiandi deu-lhe formulações paradigmáticas, quer quanto à incidência cultural, quer quanto à acentuação cristológica: «Evangelizar, para toda a Igreja, é levar a Boa-Nova a todas as parcelas da humanidade, em qualquer meio e latitude, e pelo seu influxo transformá-las a partir de dentro e tornar nova a própria humanidade […] Não haverá nunca evangelização verdadeira se o nome, a doutrina, a vida, as promessas, o Reino, o mistério de Jesus de Nazaré Filho de Deus, não forem anunciados» (E.N., 18.22). Quinze anos depois, a encíclica Redemptoris Missio de João Paulo II especificou os vários âmbitos da evangelização contemporânea: «Olhando o mundo de hoje, do ponto de vista da evangelização, podemos distinguir três situações distintas: Antes de mais, temos aquela a que se dirige a actividade missionária da Igreja: povos, grupos humanos, contextos socioculturais onde Cristo e o seu Evangelho não são conhecidos, onde faltam comunidades cristãs para poderem encarnar a fé no próprio ambiente e anunciá-la a outros grupos. É esta propriamente a missão ad gentes. Aparecem depois as comunidades cristãs que possuem sólidas e adequadas estruturas eclesiais. São fermento de fé e de vida, irradiando o testemunho do Evangelho no seu ambiente e sentindo o compromisso da missão universal. Nelas se desenvolve a actividade ou cuidado pastoral da Igreja. Finalmente, existe a situação intermédia, especialmente nos países de antiga tradição cristã, mas, por vezes, também nas Igrejas mais jovens, onde grupos inteiros de baptizados perderam o sentido vivo da fé, não se reconhecendo já como membros da Igreja e conduzindo uma vida distante de Cristo e do seu Evangelho. Neste caso, torna-se necessária uma «nova evangelização», ou «re-evangelização» (R.M., 33).

A evangelização deve ser sempre convite libertador. Não a ameaça dum juízo eminente, apelando ao medo, mas a apresentação duma humanidade chamada pelo seu Criador a uma total realização. É essa a sua verdade, experienciável já por evangelizadores e evangelizados. Deveremos interrogar-nos com Caballero: “- Porque não falar de Deus como ele é de facto, tal como no-Lo revelou Jesus: como […] Liberdade absoluta que garante e preenche todas as nossas aspirações mais legítimas e as nossas esperanças mais íntimas?”.

A promoção da justiça é uma dimensão constitutiva da evangelização. No que diz e faz, no que vive e celebra, a Igreja só pode ser promoção e realização da equidade perfeita, lembrou-o o documento final do Sínodo dos Bispos de 1971: “A acção pela justiça e a participação na transformação do mundo aparecem-nos claramente como uma dimensão constitutiva da pregação do Evangelho, que o mesmo é dizer, da missão da Igreja em prol da redenção e da libertação do género humano de todas as situações de opressão […] Convém, portanto, que nós mesmos façamos um exame sobre os modos de agir, sobre as posses e o estilo de vida que se verificam dentro da Igreja”.

A Evangelii Nuntiandi indicou depois os laços teológicos, antropológicos e caritativos que unem intrinsecamente a evangelização e a promoção humana. Laços antropológicos, porque o homem a evangelizar não é um ser abstracto, antes alguém socialmente condicionado; laços teológicos, porque é a criação que precisa de ser redimida daquilo que a diminui ou desfeia; laços caritativos, que realizem na prática o mandamento novo (cf. E.N., n.° 31).

Lembremos também que a evangelização de Cristo foi enunciado e modo. Modo simples, meios pobres. Por mais longe que as modernas técnicas de comunicação nos possam levar, não esqueçamos que a eficácia evangélica passou pela autenticidade simples dos seus processos, que podemos enumerar assim: solidariedade com os pobres, acolhimento de cada um, relações justas e fraternas, verdade, perdão e reabilitação, sentido e esperança para a vida e para a morte.

Desde o início do pontificado de João Paulo II sucederam-se os apelos à nova evangelização, quer definindo-a quer urgindo-a, apontando-lhe ainda as diversas incidências de espaços e culturas. Em 1979 na Polónia, em 1983 no Haiti, para toda a Europa em 1985, para o mundo inteiro finalmente, a nova evangelização tornou-se palavra de ordem para a Igreja. Floristán resume-lhe os objectivos na instauração da civilização do amor e da solidariedade no mundo e na renovação da Igreja para a tornar capaz de tal obra65. João Paulo II indicou-lhe a tripla novidade «no ardor, nos métodos e na expressão» (Discurso na Assembleia da CELAM, Haiti 1983), e traduziu-a em «propor uma nova síntese criativa entre o Evangelho e a vida» (Discurso ao IV Simpósio das Conferências Episcopais Europeias, 1985). González-Carvajal comenta tal novidade no ardor, por ser tempo de deixarmos complexos e inibições na nossa afirmação religiosa; nos métodos, porque, pela primeira vez desde o século IV, não contaremos com qualquer coacção social a favor do Cristianismo; na expressão, por devermos apresentar o Evangelho nas categorias da cultura actual. Quanto às conotações espacioculturais, recordemos que a Ásia e a África deparam com as contrapropostas das religiões não cristãs e esperam por uma verdadeira inculturação evangélica; que na América Latina o grande problema continua a ser a promoção da dignidade humana e da justiça; e que na Europa permanecem os desafios do secularismo e do ateísmo.

No que à Europa respeita, mantêm-se o diagnóstico e a terapêutica apresentados respectivamente pelos cardeais Hume e Daneels no simpósio de 1985. O primeiro constata que muitos europeus se dizem religiosos, ainda que famílias e outras instituições se secularizem; que a religião tende a privatizar-se e marginalizar-se; que a adesão a crenças, práticas e normas depende cada vez mais da escolha de cada um; que, por outro lado, os crentes se apoiam em grupos e movimentos. O segundo, propõe que se reflicta filosófica e cristãmente sobre a questão; que se inculture a fé; que se dê importância às razões de crer; que se respeite e cultive a piedade popular; que se estudem os valores do humanismo ocidental; que se criem grupos e comunidades; que se promova a acção missionária dos leigos; que se acompanhe a evangelização com a catequese; que se empreguem as novas técnicas de comunicação; que se valorize a força da graça e do Espírito de Deus.

Nalguns espíritos, os apelos à nova evangelização da Europa têm despertado receios de novos confessionalismos políticos. Foi a eles que João Paulo II respondeu em Outubro de 1988 (Estrasburgo), dizendo basicamente não se pretender qualquer retorno a uma ordem antiga que não respeitasse a distinção evangélica entre o espiritual e o temporal; mas também não ser justo marginalizar socialmente a religião ou relegá-la para a esfera privada, sendo ela geradora de valores necessários à reconstrução da Europa.

Lembremos também uma certa e real reciprocidade entre a nova evangelização e os novos tempos. Não é difícil admitir que a Igreja assumiu várias preocupações e práticas de muitos dos nossos contemporâneos cristãos e não cristãos, como sejam a prioridade da justiça e da paz, a solidariedade, a sensibilidade ecológica, o pluralismo cultural, a liberdade e os direitos humanos, a «democratização» interna: constataremos que, em tudo isso, o diálogo com o mundo levou a Igreja a aprofundar o Evangelho, especialmente nas exigências para consigo mesma.

A exortação apostólica Christifideles Laici definiu também a nova evangelização, destinando-a, mais do que a indivíduos, a faixas inteiras da população e visando criar comunidades eclesiais de grande autenticidade e expressão. «É seu fim “formar comunidades eclesiais maduras, onde a fé desabroche e realize todo o seu significado originário de adesão à pessoa de Cristo e ao seu Evangelho, de encontro e de comunhão sacramental com Ele, de existência vivida na caridade e no serviço» (Ch. L., n.° 34).

Comunidades que exemplifiquem o novo relacionamento que o Evangelho anuncia, que o comprovem na prática, que sejam modelos de convivência e referências para quem quer um mundo mais humano. Comunidades diversificadas, paroquiais, religiosas e laicais, que conjuguem o enraizamento territorial, próprio das paróquias, com a vocação itinerante dalguns religiosos e a acção dos leigos nas várias realidades terrestres. Tornando-se a paróquia em centro de partilha de comunidades e grupos, autêntica «comunidade de comunidades», onde tudo acabe por se encontrar e convergir na obra única da evangelização.

A nova evangelização do mundo vai a par com a da própria Igreja e as comunidades eclesiais são a sua primeira realização. Podemos terminar com algumas notas nesse sentido: o que se vive alastra, assim os crentes se convertam ao testemunho, à responsabilidade cívica, à solidariedade, ao amor libertador e à esperança; a credibilidade das tomadas de posição dos responsáveis eclesiais depende do que for o testemunho das comunidades cristãs que as asseverem, pois a Igreja não pode anunciar o que não vive; não importa a mera enunciação verbal duma utopia, mas sim a inauguração real dum lugar onde se concretizem as virtudes cristãs; urgem comunidades simples, em que a reconciliação e a esperança sejam possíveis e todos possam crescer saudavelmente, já que "uma comunidade sã e sanante é hoje um lugar privilegiado para a nova evangelização" (Pagola); que tudo se celebre em grande autenticidade sacramental, iluminando o rito com a palavra da fé e circunstancializando a fé em cada celebração, na qual a comunidade seja o sujeito concreto e o Espírito o reconhecido agente.

 

D. Manuel Clemente
Bispo do Porto, Presidente da Comissão Episcopal da Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais
In 1810-1910-2010. Datas e desafios, Ed. Assírio & Alvim
27.05.09

Capa

1810-1910-2010
Datas e desafios

Autor
Manuel Clemente

Editora
Assírio & Alvim

Páginas
174

Ano
2009

ISBN
978-972-37-1407-4










































































































































 

 

 

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