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Guerra Junqueiro: muito mais que um poeta

Miguel de Unamuno (1864-1936), o basco conhecido em Espanha como “El Rector de Salamanca”, cargo em que se notabilizou nas suas funções académicas, o que por vezes pode encobrir a sua faceta de pensador e de crítico literário, chamou um dia a Junqueiro “Nada menos que todo un poeta”. Unamuno teve em Portugal, terra que ele olhava com um gosto e uma estranha amargura paternalista (basta ler o que escreve nesse livro simples e sublime que se chama “Por tierras de Portugal y de España”, recentemente traduzido em português com o mesmo título) dois admiradores e ao mesmo tempo admirados: Guerra Junqueiro e Teixeira de Pascoaes (1877-1952), a quem considerava e proclamava como uma das maiores figuras da literatura peninsular.

Em Guerra Junqueiro (1850-1923), Unamuno exalta então a sua especial e específica faceta de poeta, a força da sua linguagem truculenta, a visão de uma sociedade decadente, as convicções republicanas que partilhava. Chegaram a visitar-se algumas vezes e sobretudo mantiveram uma correspondência epistolar que também se encontra publicada (“Unamuno y Portugal” de J. García Morejón e “Epistolario portugués de Unamuno”, por A. Marcos de Diós).

Para um mais profundo e polifacético conhecimento de Guerra Junqueiro, muito poderá contribuir a obra que acaba de ser publicada pela Universidade Católica Portuguesa (Escola das Artes, Porto), por Henrique Manuel S. Pereira, docente daquela Escola, com o título “À volta de Junqueiro: vida, obra e pensamento”. O próprio título fundamenta o que afirmamos no nosso título: Junqueiro é “nada menos que todo un poeta”, mas é também muito mais que um poeta”.

Henrique Manuel ouviu um leque muito amplo de personalidades: do mundo da crítica literária, do mundo da filosofia, da política, da religião e da teologia, da arte e da ciência. Com todos eles compôs um quadro cheio de variações tonais e de registos de observação que mostram aquilo que dizíamos no título: Junqueiro é muito mais que um poeta. Ele dá razão àqueles que afirmam, nem sempre com a necessária insistência, que um grande poeta nunca é apenas um poeta, mas um pensador, um criador, um artista, muitas vezes um filósofo. Citemos Camões e Pessoa, Antero e Pascoaes, e Junqueiro e Unamuno. Foi assim que a obra de Junqueiro começou a merecer a atenção dos pensadores mais atentos desde cedo, sendo Leonardo Coimbra um dos primeiros a salientar a importância das suas posições como pensador.

O livro tem uma introdução de Ângelo Alves, homem academicamente do mundo da filosofia, num trabalho cujo título define o poeta de “Os simples”: “Da ‘Omnipotência da forma’ a um pensamento libertador, panteísta, gnóstico pós-cristão”. Nele analisa especialmente o projecto de Junqueiro que deixou manuscrito, “A unidade do Ser”, projecto em que queria plasmar a sua compreensão do mundo e da vida, propondo a tese “À evolução do amor corresponde inseparavelmente a evolução da dor, sua companheira eterna”. Ângelo Alves conclui que na “genial obra junqueiriana” se encontram duas faces inseparáveis: a “omnipotência da forma”, e o conteúdo ideológico ou o pensamento filosófico”. O seu percurso que vai das obras mais satíricas e cáusticas, como “A velhice do Padre Eterno”, até ao naturalismo telúrico e panteísta de “Os simples” era acompanhado de uma evolução do pensamento, sem que tivesse sido um filósofo, foi um poeta que pensou o universo.

Entre as 28 as personalidades do mundo da cultura com quem Henrique Manuel dialogou encontram-se A. Cândido Franco, António Telmo, Arnaldo Saraiva, Dalila Pereira da Costa, Eduardo Lourenço, Elias Feijó, Fernando Guimarães, J. C. Seabra Pereira, Joaquim Domingues, José Pereira Pinto, D. Manuel Clemente, Manuel Ferreira Patrício, Manuel Graça, Manuela de Azevedo, Maria Helena Rocha Pereira, Mário Soares, Miguel Real, Nuno Júdice, Pedro Sinde, Pinharanda Gomes e Reto Monico.

O resultado é uma espécie de fresco polícromo de leituras e análises que permitem revisitar uma das figuras eminentes do final do século XIX e início do século XX, assim resumida por Eduardo Lourenço: “uma figura mais complexa do que na actual visão do nosso passado poético dos últimos cem anos se diz”. Jorge Cunha salienta o seu “ideário moderno, de altíssima generosidade”. Esse fresco polícromo está expresso nestas palavras de Maria Helena da Rocha Pereira: “A poderosa imaginação visual de Junqueiro alarga-se a todos os campos…” Outro poeta, Nuno Júdice, evidencia a sua “profundidade místico-teológica e poética”. E António Braz Teixeira, homem da filosofia, afirma: “A sua reflexão e o seu percurso espiritual marcou o regresso à consideração filosófica dos grandes problemas que caracterizam a nossa contemporaneidade”.

A Escola das Artes da Universidade Católica lançou também o livro “A Música de Junqueiro” e um CD duplo com o mesmo título que inclui interpretações (voz, piano e coro) das composições poéticas do autor.

O site dedicado a Guerra Junqueiro projecto inclui os textos de algumas das suas obras, bem como excertos das faixas do disco.

 

C.F.
In Voz Portucalense (2.6.2010)
02.06.10

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