
Padre Manuel Antunes e a Teoria da Cultura
Manuel Antunes (1918-1985), jesuíta, homem de cultura e, desde 1957, professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, soube perscrutar os fenómenos culturais como poucos. Ao mesmo tempo pensador da cultura feita e da cultura infieri, do produto cultural à disposição de eruditos e do processo de criação de cultura hic et nunc, distinguiu-se como raríssimos. Da frequentação assídua e conjunta do arquivo e da oficina é que lhe veio gosto e engenho para o necessário exercício de indagar a natureza, os instrumentos conceptuais, a organização formal, a elaboração sistemática, a expressão analítica e sintética de práticas culturais, singulares e colectivas, antigas e contemporâneas. Instado por exigências de uma implícita teoria da cultura entregou-se naturalmente ao projecto de lhe dar corpo, formulando uma teoria da cultura explícita.
A leccionação da cadeira de História da Cultura Clássica deve ter tornado ainda mais urgente o compromisso de concretizar o trabalho sistemático de abrir as fundações para a elaboração de uma perspectiva global, criticamente fundamentada, acerca do acontecer cultural e das suas produções mais significativas. De facto, na primeira centena e meia de páginas mimeografadas de Estudos de Cultura Clássica - Aulas Teóricas (1970), sob o título “Introdução: Conceitos Fundamentais”, encontramos o traçado do itinerário de uma obra autónoma, em preparação, intitulada Teoria da Cultura e que vem anunciada, tanto em Grandes Derivas da História Contemporânea (1972) como em Educação e Sociedade (1973) e noutros lugares.
A opção do docente de História da Cultura Clássica surpreende, e presumo que nem sempre pela positiva, pelo menos aos olhos de espíritos mais empíricos e apressados. Ousou antepor às matérias convencionais uma longuíssima introdução em que se desdobram com porfiada acribia “os conceitos fundamentais de história, cultura, civilização, mito, logos, mística, classicismo, teoria dos conjuntos”, isto é, o núcleo duro da sua “teoria da cultura”. São abordagens hermenêuticas e incursões epistemológicas a que com as necessárias actualizações e complementos será sempre oportuno regressar. Respiração profunda de ideias e doutrinas que só espíritos estreitos ou eruditos sem rasgo podem considerar supérfluas. Elas contribuem para oxigenar a circulação dos saberes e dar-lhes aquele vigor e consistência orgânica que transformam conhecimentos parcelares em material aparelhado para preencher o lugar que lhes pertence na arquitectónica dos saberes e na construção do homem.
Nas longas, documentadas e substanciais páginas que ocupam a introdução aos Estudos de Cultura Clássica - Aulas Teóricas não se pode pretender que esteja a totalidade dessa teoria geral da cultura nem sequer acabada a teoria da cultura como totalidade. Temos de ir procurá-la ao conjunto dos ensaios, estudos, anotações e registos publicados ao longo de várias décadas, sobretudo nas páginas da revista Brotéria que, depois, foram recolhidas em volumes vários. Lá se encontram tanto a inscrição de uma teoria da cultura implícita como, frequentemente, aproximações e delineamentos da sua tematização explícita. Nas páginas que abrem caminho à exposição das culturas grega e romana, a elaboração teórica sobre o fenómeno cultural apresenta-se apenas mais informativa, mais sistemática e didacticamente exposta. Pela feitura densa e travada assemelham-se, por vezes, a eruditas sínteses transcritas de entradas de enciclopédias e dicionários de especialidade. Mas seria puro engano pretender confiná-las a esse estatuto utilitarista e funcional. Muito mais e melhor do que mera justaposição de notas sobre noções, nomes, correntes doutrinais, teorias estéticas, épocas históricas, é o horizonte filosófico que do princípio até ao fim unifica a sucessão de conceitos e temas, e lhes dilata o sentido.
Nos marcos miliários da introdução está, afinal, inscrito o duplo programa de uma antropologia e de uma ontologia. Reflexão sobre o ser do mundo como totalidade e destino; meditação sobre a condição humana como responsabilidade e esperança. Em ambos os casos, a cultura como generosidade do ser que se expande e comunica, do homem que se interroga e procura.
A teoria da cultura proposta por Manuel Antunes organiza-se metodologicamente em tomo de três objectivos dominantes: conceptualizar, classificar, sistematizar. Com tal chave propõe-se abrir o escrínio das culturas helénica e latina, habilitando com ferramentas imprescindíveis a curiosidade inexperiente de quem aspira a informar-se meticulosamente acerca dos meandros da cultura clássica para os explicitar, compreender e, em certa medida, explicar.
Fulgura aí uma concepção de cultura entendida como instrumento de orientação, bússola do saber, volante de vida orientada e em permanente demanda de harmonia. O sujeito que produz cultura é também a figura que nela fica modelada. Daí que os documentos e monumentos façam parte de qualquer projecto de formação do homem ou de reencontro com dimensões perdidas da humanidade. À memória de acontecimentos, factos e criações assim recuperados junta-se o trabalho de os compreender e organizar. Com os conceitos responde-se ao real diverso e caótico, analisando o que de semelhante e comum nele se esconde, por debaixo do descontínuo e vário. Ao mundo, os conceitos conferem ordem. À linguagem, dotam-na de rigor e sentido. São o ingrediente elementar e fundamental para que as operações de classificação e síntese sejam bem sucedidas, possam ser ditas e transmitidas sem ambiguidade e com economia.
A preocupação quase obsessiva de classificar e sistematizar concepções, tendências, correntes, doutrinas é responsável por algumas marcas que individualizam este trabalho eminentemente didáctico, e igualmente a generalidade dos ensaios que o autor escreveu.
Antes de mais, a feição metódica da exposição. Impõe-se por méritos próprios de clareza, ordenamento, sobriedade e desenvolvimento das matérias. Impõe-se igualmente pelas inevitáveis limitações decorrentes do esquematismo, selectividade e leveza de fundamentação.
Depois, o carácter diferenciador de que vive a sua arte de expor. O trabalho analítico e diferenciador que se esmera a precisar com minúcia dados, situações e conceitos transparece em procedimentos e marcas estilísticas como o enraizamento semântico do léxico frequentemente analisado através das etimologias e da história, o pendor para a enumeração, e o movimento anafórico do discurso. Na construção anafórica, que lhe é tão peculiar, perpassa o propósito de desdobrar conceitos para desse modo ocupar, gradualmente e com segurança, todo o campo semântico.
O saber diferenciador e progressivo está documentado de maneira lapidar no confronto etimológico e contextual entre o logos dos gregos e a ratio dos romanos. Esta, conforme se lê no texto de Manuel Antunes, “é uma função de cálculo, de decisão reflectida, de segurança e perspicácia nos contratos, de responsabilidade na acção concreta. É uma palavra que documenta bem a practicidade do génio romano, tal como o logos, a que ela corresponde, exemplifica a teoreticidade do génio grego.” Saber diferenciador, sim; mas que avança através de recapitulações e sínteses. E, por isso, saber didacticamente progressivo. Essa ratio desdobra-se logo no vigor sintético de uma perspectiva evolutiva da história que da razão antiga passa à ratio mediaevalis, à ratio moderna, e à emergente ratio planetaria.
Se a progressividade faz parte do movimento da história como sua lei imanente, então as doutrinas, os sistemas, as ideias e as respectivas expressões não conseguirão atravessar imunes os usos e abusos dos tempos. Poderá não ser a descoberta de novas fontes, nem a construção de novos instrumentos de pesquisa a ditar reavaliações, mas antes o “progresso no conhecimento das dimensões da consciência histórica”. Assim sendo, a proposta de teoria da cultura que nos faz Manuel Antunes está, também ela, sujeita à voragem dos anos, e a evolução dos saberes, dos gostos, das formações sociais e dos interesses mentais marcam-na com índices de efemeridade. E não haverá que lembrar somente as bibliografias indicadas, abundantes e bem escolhidas, mas irremediavelmente datadas. Temas e derivações aparecem que podem suscitar um displicente encolher de ombros, mas que o mestre, sempre atento e perspicaz, haveria de apresentar hoje de maneira muito diversa. É de prever que assim ocorresse com a abordagem de problemáticas tais como a história-ciência, o progresso, a teoria dos conjuntos e outras.
Devemos acrescentar, porém, que a consciência da transitoriedade humana e do seu reflexo em concepções e textos não significa rendição cobarde a que todo o espírito bem formado deveria saber resistir até ao limite das forças. O próprio Manuel Antunes deixa-nos uma oportuníssima sugestão para não sucumbirmos à vertigem de uma intemporalidade intransigente, sempre obcecada por limpar as pegadas do tempo. Fá-lo na “Nota preambular” a “Occasionalia” - Homens e Ideias de Ontem e de Hoje (1980), quando em nome da cultura viva se entrega à reabilitação do efémero: “Porque a efemeridade faz parte da radical historicidade do existente humano. Porque a efemeridade constitui, por vezes, um belo espaço — espaço privilegiado, não raro — para a manifestação da Verdade. Da Verdade do ente e da verdade do Ser, na linguagem heideggeriana.”
Em matéria de epistemologia das ciências sociais e humanas, a posição do autor pode sintetizar-se no propósito de levar a aproximação com o paradigma das ciências da natureza tão longe quanto possível. A esse paradigma se fica a dever, segundo tudo indica, o aparecimento da teoria dos conjuntos de Cantor como tradução formal embora não formalizada, da tentativa de reconstrução final, sistemática e sintetizadora, da teoria dos conjuntos culturais e civilizacionais, depois da analítica dos conceitos que lhe serve de fundamento. Não obstante o autor reivindicar, em nota bibliográfica final, o carácter mais pessoal desta parte da introdução, permanecem bem visíveis as questões específicas do debate em torno da abordagem das produções culturais a partir da génese e da estrutura, sob a bandeira do estruturalismo genético de Lucien Goldmann e continuadores.
A aproximação tem, no entanto, limites para os quais vigilantemente nos desperta o autor. É necessário que não se elidam a liberdade e temporalidade constitutivas do ser humano e as consequentes unicidade e irredutibilidade do agir. Dessa intimidade de mistério onde continua a ressoar a Palavra originária, brota a dinâmica do humano de que a história em sua complexidade multímoda é a epifania. Intimidade, intimidade secreta e irredutível, matriz onde se gera a multiplicidade das teorias que em vão procuram alcançar a visão unitária do todo! O homem como ser singular e como “sujeito universal” encontra-se, assim, tanto na génese dos factos culturais e civilizacionais, mais elementares e simples, como na profusão dispersiva de teorias e sistemas que os procuram interpretar e explicar.
A publicação da Teoria da Cultura quer dar livre curso a uma contribuição científica e pedagógica notável, exemplar a vários títulos, quando já passaram mais de trinta anos sobre a sua circulação no restrito claustro universitário olissiponense.
Para além do propósito de divulgar uma obra que se arranca ao esquecimento, outros intuitos devem ainda ser considerados: prolongar uma proposta doutrinal e formativa, abrir espaço para a actualização dos seus dados e interpretações, reapreciar e reorientar os horizontes curriculares do ensino superior português. Quanto a este último objectivo, seja-me permitido realçar que a mais profunda e inequívoca diferença entre a proposta metodológica e programática de Estudos de Cultura Clássica de Manuel Antunes e outras se traduz pela exigência de um sólido alicerce reflexivo e estruturante, precisamente a exigência que a sua teoria da cultura intenta satisfazer. Tal inspiração, porventura mais difusa do que directa, produziu efeitos na organização curricular de alguns cursos de Letras, desde finais da década de 1970, com o aparecimento de uma disciplina de primeiro ano, chamada Introdução às Ciências Humanas, nem sempre devidamente valorizada.
Na sua obra, Manuel Antunes lega-nos o testemunho vivo de alguém que celebra o mistério da encarnação do uno, verdade, bem e beleza na palavra. O mistério que é intimidade secreta sempre procurada, jamais possuída, sempre percepcionada, jamais claramente vista, sempre degustada, jamais exaurida. Donde esse título Ao Encontro da Palavra (1960), em que muito mais do que a nomeação de um livro próprio se condensa o enredo de uma aventura amorosa. Aventura de uma vida que se consumiu a perscrutar na mediação da palavra que nos falta a superabundância solidária do Verbo das origens feito silêncio.
Neste ministério da palavra, muitos são os perigos, subtis as ciladas. Superou-as quase sempre com êxito e fulgor. Como soam verdadeiras, justas, as palavras com que Sophia de Meilo Breyner Andresen, ao apontá-lo como símbolo de liberdade intelectual e de defesa dessa mesma liberdade, nele encontra “um dos homens que mais deve ter contribuído para enfraquecer o horrível jacobinismo português” (In: O Semanário de 28/01/1985). Manuel Antunes soube reconhecer e admirar o valor do outro, mesmo quando as divergências ideológicas ou apenas de geração podiam ser profundas. Para exemplo, sirvam as páginas breves, indignadas, vibrantes, com que na mesma leva denuncia “tanta mediocridade coroada” e exalta António Sérgio, “um dos maiores escritores de ideias até hoje aparecidos em Portugal”.
À força de tanto escrever, deve ter sido visitado, vezes sem conta, pela tentação da facilidade. Resistiu e conseguiu roubar-lhe argumentos, ao esmerar-se por ser igualmente expedito na escrita e claro no dizer. Acima de tudo, nunca tropeçou no moinho de orações do psitacismo. Em seus textos, há substância, vida, sabedoria, humanidade. E com prosa tersa, elegante e informada, que nos continua a falar de cultura e a traçar a cartografia de um universo de sageza e história, onde não faltam territórios que fascinam e desafiam a nossa disponibilidade para, em nós mesmos e nos outros, tornarmos o homem mais humano.
Luís Machado de Abreu
17.10.2008
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Autor
P. Manuel Antunes
Editora
Edições Colibri
Páginas
122
Ano
1999
Preço
€ 8,00
ISBN
972-772-110-9




