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Confiar nos afetos, exaltar o amor: Jornal do Vaticano elogia série "This is us"

Confiar nos afetos, exaltar o amor: Jornal do Vaticano elogia série "This is us"

Imagem D.R.

«Agrada-me que tenham tomado o limão mais amargo que a vida pode dar e o tenham transformado numa bela limonada.» É o que diz um ginecologista emocionado a Jack e Rebecca, jovem casal que esperava três gémeos, dos quais um não sobreviveu. Assim comenta o médico a decisão tomada pelos dois de adotarem um menino abandonado, chegado ao hospital precisamente quando um dos três recém-nascidos deixava de respirar.

Nesta metáfora reside uma das chaves para compreender e apreciar a série americana "This is us", candidata aos "Golden Globe" de 2017 para melhor série dramática, e que é transmitida em Portugal desde fevereiro no canal Fox Life. Os protagonistas transformam os imprevistos da vida em beleza, mediante a capacidade que têm de assumirem a sua história, mesmo que dolorosa, e de modelar uma obra-prima de fertilidade, transformando as experiências negativas em ocasião de evolução, convertendo-as em ensinamento do mesmo modo que as experiências positivas.

Não sem um tempo para o sofrimento, não sem uma comprometida interrogação sobre a melhor maneira de consumar a vida. Compreenderão, os protagonistas desta série coral, irónica e comovente sobre o tema da família e do ser humano antes de tudo, que nenhuma vida vale tanto como a que é derramada para construir o bem, para fecundar outras existências a partir da própria.

Todos estão em viagem, cada qual com o seu passo, cada qual num percurso de crescimento nem sempre linear. Todos têm um entusiasmante vaivém temporal que remonta ao início dos anos 80 e que chega aos nossos dias, desde que Jack e Rebecca eram um carrossel de beijos apaixonados, até quando os três filhos, Kevin, Kate e Randall, embatem contra as mil provas da vida, experimentando o declive, a encruzilhada e a queda, com as feridas inevitáveis de qualquer pessoa neste mundo.



Fazer respirar o amor não teve o objetivo, impossível e inumano, de anestesiar a existência dos jovens, mas alimentou-os de confiança nos afetos e conduziu-os à abertura para o próximo



Do cubo de Rubik e das canções de Madonna até Notting Hill e ao realizador Ron Howard, enquanto Randall, o filho adotado, procura ser perfeito, com o terror de ser novamente abandonado. Enquanto Kate convive com o problema da obesidade, e toda a sua vida é uma questão de peso: roupas, viagens, relações. Enquanto Kevin, protagonista de uma "sitcom" famosíssima, ainda não sabe se tem talento, e para o perceber tem de dobrar as grades de uma popularidade sem sabor, aceitando ansiosamente novos desafios.

Cada dúvida e sofrimento destes jovens de 36 anos é atenuada pelo trabalho dos seus pais: de Jack, que apesar de ter tido um pai alcoólico e que gostava mais de futebol do que do filho, soube transformar-se no super-herói mais normal da América, e de Rebecca, que nunca deixou de ser mãe e esposa apesar do talento e da paixão pelo canto.

Ambos teceram relações autênticas com os filhos, olhando-os nos olhos e usando palavras, sorrisos e carícias como pronto e eficiente socorro aos jovens que entretanto cresciam. «Quando via futebol na televisão» - dizia Jack à esposa - «o meu pai permitia-me estar próximo dele, desde que me sentasse no chão e não fizesse barulho. Os meus filhos podem sentar-se no sofá e fazer todo o barulho que quiserem».



"This is us" emociona e vê-la faz bem, porque na sua semelhança com a vida envolve-nos a darmo-nos mais, aconselha-nos a nunca antepor os ídolos aos afetos e aos sentimentos, recomenda-nos que escutemos a verdade que habita em nós e agarremos o quanto antes a nossa existência



Fazer respirar o amor não teve o objetivo, impossível e inumano, de anestesiar a existência dos jovens, mas alimentou-os de confiança nos afetos e conduziu-os à abertura para o próximo. «Não existe um tu e um eu, existe um nós», mesmo se continuamente obstaculizado pelo medo, pelo cansaço e pelas inseguranças que produzem erros e incompreensões.

«Terão de aceitar tudo de mim: o belo e o horrível», sussurra profeticamente Rebecca às três vidas que tem no ventre, inclusive o terror que a levará, uma vez conhecido William (o pai natural de Randall) a não dizer ao filho adotivo que o seu pai biológico o desejava conhecer: por medo de que um pai melhor do que ela lhe pudesse arrancar a criança que tinha aprendido a amar como os filhos naturais.

Randall pedirá ao tempo, depois de ter descoberto o erro da sua mãe, e depois de ter localizado o pai biológico, para saborear o gosto do perdão e abraçar o lado frágil da humanidade materna. Saberá, a partir desta passagem dolorosa, tirar uma lição inesperada e preciosa, escrevendo a enésima página de uma série que exalta a beleza do verbo amar enquanto narra a sua complexidade, que conta o extraordinário que é uma família, recordando-nos o empenho e a fadiga que requer.

Por isso "This is us" emociona e vê-la faz bem, porque na sua semelhança com a vida envolve-nos a darmo-nos mais, aconselha-nos a nunca antepor os ídolos aos afetos e aos sentimentos, recomenda-nos que escutemos a verdade que habita em nós e agarremos o quanto antes a nossa existência, embora nunca seja tarde para remediar os erros cometidos.

Recorda-nos que os milagres acontecem - basta saber reconhecê-los -, mas é, acima de tudo, uma magnífica homenagem ao amor que flui entre pais e filhos, um canto a esse milagre que é a relação entre nós e quem nos pôs no mundo e fez crescer, entre nós e quem pomos no mundo e procuramos fazer crescer.















 

Edoardo Zaccagnini
In "L'Osservatore Romano"
Trad.: SNPC
Publicado em 21.04.2017

 

 
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