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Entrevista

José Tolentino Mendonça: «A palavra e a experiência cristã deslocam-nos para fora do rebanho»

Terceira parte da conversa entre o diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, padre José Tolentino Mendonça, e o jornalista Paulo Rocha.

Alguns excertos desta entrevista estão a ser transmitidos durante a Quaresma nos programas da Ecclesia (RTP 2, de segunda a sexta-feira, às 18h00).

 

De que forma falaria hoje Jesus da nossa sociedade?

Jesus levar-nos-ia de novo para a beira do lago, ao deserto, ao rio Jordão. Entraria nas nossas casas e falaria uma palavra que nos tocaria e comoveria o coração.
A sua palavra é sempre alternativa. A voz de Jesus não é mais uma. Não é uma voz que nos confirma, que diz “está tudo bem”, mas é uma voz que não se conforma. Jesus é um inconformista e por isso leva-nos sempre para a margem.
A palavra e a experiência cristã deslocam-nos para fora do rebanho, para fora das nossas certezas e daquilo que está estabelecido. Ou então é uma palavra que nos leva para dentro, nos reaproxima, estabelece connosco de novo uma intimidade. E aí, Jesus é capaz de tocar por dentro o nosso coração.

 

Jesus é a palavra do Pai na sua maior perfeição?

O evangelho de São João constitui um mapa da fé porque dá-nos a ver como Jesus corporiza e é ícone e Verbo do Pai, mostrando-o como relação. Jesus é o grande hermeneuta de Deus, que descobre o que nele está escondido. Que torna Deus palpável e próximo, avizinhando o divino da história humana, das suas contradições e da sua fragilidade. Jesus é o Deus connosco, como Mateus, que é o evangelho do Emanuel, nos ensina. Connosco em todas as etapas da nossa vida. Jesus revela o segredo de Deus.
Quando ele morre, o evangelho mostra a cortina do templo [de Jerusalém] que se rasga e nós podemos ver o oculto de Deus. Isto é, Jesus escancara Deus.
Aos pés da cruz, o centurião diz esta palavra escandalosa: “Este homem, verdadeiramente, é o filho de Deus”. Isto é, na humanidade extrema de Jesus, na radicalidade do seu dom que o pendurou daquele martírio que a cruz significa, podemos contemplar o santo dos santos de Deus. Nesse sentido, Jesus dá a ver o Pai. Ele é a grande teofania, a grande manifestação de Deus na História.

 

Há o perigo de substanciar a figura de Cristo, tirando-lhe essa função de mostrar o Pai?

Podemos, e essa é uma tentação permanente da História. Podemos, de facto, reduzir Jesus à figura de um grande homem, de um mestre, de mais um profeta de Israel, e esquecermos que tudo isso é verdade, mas para nós, cristãos, e esse é o núcleo da nossa fé, Jesus dá a ver o Pai e só se entende no mistério do próprio Deus, nessa relação divina de pessoas que é a Santíssima Trindade.

 

Não se pode reduzir, portanto, à dimensão histórica que a pessoa envolve…

A dimensão histórica é sempre lida com os olhos da fé. Toda a História dá-nos a revelação de um outro plano de significado, que é o plano divino de Jesus.

 

Há dois mil anos, como nos dias de hoje, pode haver o perigo de ler a pessoa de Jesus a partir de um quadro mental pessoal, no contexto da sociedade?

Esse é um grande risco permanente, que consiste em condicionar a visão de Jesus pelas expectativas da nossa época. E por isso cada tempo é chamado a uma redescoberta de Jesus. Não limitarmos Jesus ao contexto atual, mas sentirmos, pelo contrário, o desafio apaixonante de o descobrir como ele é e como é contado pela fé das comunidades cristãs.

 

Foi a tentação de humanizar ao extremo a pessoa de Jesus Cristo que fez surgir incursões no cinema e na literatura, com abordagens muito fechadas acerca dele?

Por um lado, entendemos esse regresso permanente a Jesus feito pela cultura contemporânea como fruto do fascínio e sedução que ele continua a exercer, de forma interminável, no coração humano. Mas há que distinguir o trigo do joio porque muitas abordagens acabam por ser equívocos e estar ao serviço muito mais da promoção ou absolutização de uma ideia ou ideologia, e têm pouca disponibilidade para ir até ao fim.
As coisas mais extraordinárias, escritas mesmo por pessoas que não têm fé em Jesus, são aquelas que de coração muito livre aceitam levar até ao fim a interrogação que ele significa.

 

São fantasiosos, e mesmo falsos, os fundamentos arqueológicos e literários para essas leituras de Jesus?

Muitas vezes manipulam-se as fontes. E nós vivemos num tempo em que, de vez em quando, se anuncia a descoberta de um túmulo, inscrição ou verdade num evangelho apócrifo. E nós percebemos que tudo isso parte deste preconceito em relação à comunidade cristã: acham que a Igreja, com dois mil anos, forjou uma imagem falsa de Jesus e que o cristianismo é uma fraude. Nesse sentido tentam descobrir uma verdadeira imagem de Jesus, mas constituindo eles uma fraude porque, aludindo à História, pouco ou nada têm a ver com ela.
Hoje o cristianismo é assente na fé, como sempre foi, mas também em processos históricos, verificados pela ciência. Os evangelhos têm uma base histórica. Foram reconstruídos como uma minúcia que não partiu simplesmente de uma visão de fé, mas da procura da verdade. E aquilo que o credo da fé hoje professa e apresenta tem um grande diálogo com o contexto histórico e literário. Desde sempre que o cristianismo tem estudos científicos, nos seus vários modos, em torno a Jesus.
Por isso é muito estranho que apareça de repente um autor ou um cineasta a querer colocar em causa a seriedade destes dois mil anos de procura de Jesus, para, de uma forma normalmente muito ligeira e frívola, querer chegar à verdade do evangelho.

 

Trata-se de indisponibilidade de ir até ao fim diante do mistério e da fé?

Muitas vezes é uma coisa mais primária, que são os objetivos comerciais. Hoje há uma grande pressão para vender tudo o que tenha o nome de Jesus ou de segredo e de códigos. Tudo isso gera uma epidérmica vivacidade, um entusiasmo superficial, e muitas vezes as leituras que se fazem servem para fabricar produtos em torno a Jesus.
No mercado atual é preciso distinguir entre aquilo que são as leituras mais sérias, que vão até ao fundo, que representam uma viagem espiritual, daquelas leituras muito epidérmicas que são apenas para ampliar o ruído da cultura em que vivemos.

 

Nos dois mil anos da sua história a Igreja Católica terminou a construção de Jesus?

A Igreja continua a ser sua discípula. Há uma imagem de Jesus que nos aparece, e que não é unívoca, testemunhada por quatro evangelhos que fazem a fé da Igreja. Ela procurou uma plausibilidade para a sua fé nos evangelhos e a imagem que dá de Jesus não é imposta, mas tateada. É uma imagem no interior do mistério. É uma imagem que só a mística, a oração e o ambiente litúrgico da fé é capaz de tocar.

 

Falemos das muitas perspetivas espirituais nas quais é possível concretizar a mensagem do evangelho. Todas elas se regem por essa lógica do primeiro momento, que é o discipulado?
O discipulado é a base de toda a procura cristã e de toda a experiência comunitária.

 

A palavra de ordem continua a ser, também hoje, “Vem e segue-me”…

“Vem e segue-me”: a todos, não só aos religiosos e consagrados, mas todos os batizados ouvem o chamamento de Jesus.
Hoje a teologia está a valorizar muito aquilo que se chama a biografia crente: a história de vida, o capital de experiência que cada cristão constrói com a sua própria vivência. Cada um vive uma história única no seguimento de Jesus, aceitando o repto “Vem e segue-me”.

 

É possível falarmos de uma espiritualidade cristã? Quais os seus contornos?

Sim, sabendo que ela é plural, que é uma possibilidade de endereços espirituais, caminhos e carismas, porque a Igreja tece-se na pluralidade. Mas podemos realmente falar de uma espiritualidade cristã, que tem de ser cristológica. Há linhas permanentes na diversidade do modo como o cristianismo é vivido, e isso, antes de tudo, é colocar Jesus no centro. Que seja Jesus a grande referencialidade. Que aprendamos dele e do seu evangelho as atitudes e o estilo que somos chamados a seguir.
Eu diria que o núcleo de uma experiência cristã é a própria referência a Cristo.

 

Essa referência a Cristo será determinada por uma perspetiva eurocêntrica que necessariamente temos, mas que também determinou muito da construção e investigação de Jesus?

Jesus não é um europeu, mas vem do Oriente. Mesmo a Europa cristã, tendo o impacto que teve, se pensarmos no que representa toda a teologia que se escreveu no continente, a verdade é que o cristianismo é sempre uma realidade aberta.
Nós hoje, por exemplo, olhamos para Santo Agostinho como um europeu, mas ele era africano. E mesmo no século XXI, temos a abertura a novos mundos. Hoje precisamos muito de aprender com a vitalidade de algumas Igrejas na Ásia, ler os teólogos dos continentes africano e americano, porque a força do cristianismo e a sua autenticidade passam muito por uma diversidade de abordagens e perspetivas que se complementam e são necessárias umas às outras.

 

E revelar-se-ão aí traços da figura de Jesus que a perspetiva eurocêntrica ainda não conseguiu atingir?

Sem dúvida nós vemos isso por exemplo no chamado regresso à beleza e à estética para falar de Deus. A teologia tradicional europeia é muito positivista e racional que esquece outras dimensões. Quando um cristão europeu vai a África fica extasiado porque a liturgia não tem de caber no tempo de uma hora, mas estende-se e não é apenas uma celebração mental: o corpo dança e automaticamente o gesto e a corporeidade são implicados na celebração. Isto quer dizer que há outras formas e que o nosso discurso muito racional também é limitado. Precisamos de aprender com o mundo ortodoxo, com a Ásia e África outras modalidades de abordagem do mistério cristão. (Continua)

 

© Ecclesia | 18.04.11

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