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Libertados do medo

«Porque é que tendes medo? Não tendes ainda fé?»: medo e fé, os dois antagonistas que disputam eternamente o coração do ser humano. A palavra de Deus, de um extremo ao outro da Bíblia, conforta e espicaça, repetindo sem fim: não temais. Não tenhais medo! Na boca de Deus, de Jesus, dos profetas, de mulheres e dos anhos, de reis e de mendigos, centenas de vezes esta palavra vem ao nosso encontro, quase como se fosse o «bom dia» de Deus. A cada nosso despertar, a cada início de dia, como nosso pão diário, o «não tenhais medo» de Deus. São mil os motivos dos nossos temores. Temos o medo da criança, a do doente, do pobre, do agredido, do moribundo, do perseguido.

Mil motivos. Mas o primeiro “porquê” do medo remonta ao jardim do Éden. O medo entra no mundo e não mais o deixará. Entra não como filho da nudez, como pretende Adão, mas de outra mãe. O homem esconde-se porque quem lhe faz medo é Deus. Imagina-o dentro da lógica culpa-punição, pecado-castigo. Nem sequer imagina a possibilidade da misericórdia. Tem medo, torna-se incapaz de diálogo, consegue apenas agredir para defender-se. O medo de Deus é o medo dos medos. O pior de todos, aquele de que todos os outros descendem. E é filho de uma falta de confiança.

O pecado original não narra a simples transgressão de um interdito, mas a adulteração do rosto de Deus, que a serpente induz: deu-vos mil árvores, é verdade, mas negou-vos a melhor; tem medo de vós, é ciumento, proibiu-vos a coisa mais importante. Não confieis. Adão e Eva acreditam nesta imagem invertida de Deus: um Deus que tira, e não um Deus que dá; um Deus que rouba liberdade, em vez de oferecer possibilidades; um Deus que dá mais importância à sua lei do que à alegria dos seus filhos; um Deus de olhar judicativo, de quem é preciso fugir em vez de ir ao seu encontro; um Deus que não é de confiança. Escreve o P. David Maria Turoldo: «Enganarmo-nos acerca de Deus é o pior que nos pode acontecer, porque depois nós enganamo-nos acerca de tudo, acerca da história, do homem, de nós mesmos, acerca do bem e acerca do mal, acerca da vida».



As barcas, as pequenas barcas, estão em segurança, atracadas no porto, mas não é para isso que foram construídas. Foram feitas para navegar, e inclusive para enfrentar tempestades. A rota do Evangelho não passa por ficar imóvel, retido pela âncora



O primeiro de todos os pecados é um pecado contra a fé. Da imagem deturpada de Deus nasce o medo dos medos. Do rosto de um Deus temível descende o coração amedrontado de Adão.

O fio que remenda o rasgão na trama de amor entre Deus e o ser humana chama-se confiança. O que se opõe ao medo não é a coragem, mas a fé: porque tendes medo? Não tendes ainda fé? Os dois antagonistas, inversamente proporcionais. «Vindo o anoitecer, Jesus disse-lhes: “Passemos à outra margem”». As barcas, as pequenas barcas, estão em segurança, atracadas no porto, mas não é para isso que foram construídas. Foram feitas para navegar, e inclusive para enfrentar tempestades. A rota do Evangelho não passa por ficar imóvel, retido pela âncora. O nosso lugar não é nos sucessos e nos resultados triunfais, mas numa marca no mar, mar aberto, onde mais cedo ou mais tarde durante a navegação da vida virão águas agitadas e vento contrário. A verdadeira formação não consiste em ensinar as regras da navegação, mas em transmitir a paixão pelo mar aberto, o desejo de navegar mais além, a paixão do alto mar.

Na breve navegação, Jesus adormece. Está cansado, vem de situações que lhe tiraram forças preciosas: tinham vindo a sua mãe e os seus irmãos, talvez para o reconduzir a casa, à segurança do lar doméstico. E Jesus tinha reafirmado a sua distância: «Quem é a minha mãe e quem são os meus irmãos?» (Marcos 3, 33). São aqueles que comigo partem para a outra margem. Separação e fadiga de laços e de afetos, exaustão do coração. E Jesus adormece, esgotado. E os homens parecem terem sido abandonados mal se levantam o vento e as ondas das traições. É como se o mundo inteiro estivesse na tempestade, uma situação em que o direito é do mais forte, do mais armado, do mais cruel. E Deus parece dormir! Quando nós queríamos que interviesse desde logo, aos primeiros sinais do cansaço, ao primeiro assomo do medo, mal a dor nos arranhasse. Mas Ele intervém, Ele está ali, fonte da força dos remadores que não se rendem, Ele está no braço firme do timoneiro, Ele está na coragem partilhada, está nos olhos de todos os que fixam o Oriente para perscrutar quanto falta para a noite acabar. E a barca, símbolo de mim e da minha vida frágil, da grande comunidade e dos seus problemas, entretanto resiste e avança. E não porque o vento amaina, não porque acabam os problemas, mas pelo milagre humilde dos remadores que não abandonam os remos, que sustentam a esperança do outro.



Eu, como vós, gostaria que não viessem mais, que a viagem para a outra margem da vida fosse rápida e fácil, que o caminho da Igreja fosse traçado com clareza, e ao contrário estamos numa casca de noz. E Deus parece dormir, indiferente e mudo



Deus não age em nosso lugar, não nos tira da tempestade, mas sustém-nos dentro da tempestade. «Não salva do sofrimento mas no sofrimento, não protege da dor mas na dor.» A expressão é de Dietrich Bonhieffer: «Deus não salva da cruz, mas na cruz». Uma simples mudança de preposição e tudo adquire outra luz. Deus não traz a solução dos nossos problemas, traz-se a Ele próprio, e dando-se a si mesmo dá-nos tudo (cf. Catarina de Sena).

Pensávamos que o Evangelho teria resolvido os problemas do mundo, ou pelo menos que com Jesus diminuíram as violências e as crises da história, mas não é assim. Pelo contrário, o Evangelho trouxe consigo recusa, perseguições, outras cruzes: «Sereis perseguidos, aprisionados, traídos, alguns morrerão». Rezámos tanto e a paz não chegou: esse milagre frágil e mil vezes violado, e todavia sonho de quem não é concedido que se detenha. Não têm culpa os discípulos pela imprevista borrasca nem pelo seu medo. Não há que nos culpabilizarmos pelos nossos medos; se o ter medo, se a fraqueza fossem uma culpa, seria também uma culpa rezar. Eu não sei porque é que se levantam tempestades na vida. Não o sabe Lucas, não o sabe Marcos, não o sabe Mateus: narram tempestades sempre iguais e todas sem porquê. Eu, como vós, gostaria que não viessem mais, que a viagem para a outra margem da vida fosse rápida e fácil, que o caminho da Igreja fosse traçado com clareza, e ao contrário estamos numa casca de noz. E Deus parece dormir, indiferente e mudo. Observo os apóstolos, gente de lago, gente que entretanto faz as coisas certas na tempestade, e oiço: «Faz tudo aquilo que depende de ti, com o máximo empenho, e depois aprende a confiar porque tudo depende de mim». Tudo, como afirma S. Paulo: «Sabemos que tudo concorre para o bem para aqueles que amam Deus» (Romanos 9, 28). Tudo trabalha para o bem, inclusive no lago. Tudo, inclusive as tempestades, inclusive as dúvidas, até o pecado concorre para o bem. Feliz culpa: um dos oximoros mais belos da fé cristã. Esta a esperança última, final, total: «Tudo estará bem» (Juliana de Norwich). Deus extrai o bem mesmo do mal. Mesmo do pecado, da morte, da cruz, do túmulo. Uma história de reviravoltas atravessa toda a Bíblia e a história, aliás, todo o universo. Pareciam provações e eram oportunidades.



Acredita que no tempo da tempestade, Deus não está noutro lugar, está no reflexo mais profundo das tuas lágrimas, a fazer de dique aos teus medos. Deus está presente, não como tu quererias, mas como Ele quer



Os apóstolos, naquela noite de medo, gritam a Jesus: «Não te importas nada connosco?». Não te importa a vida ou a morte dos teus amigos? Palavras duras, de lágrimas e medo: não é verdade nada daquilo que dizias, não queres saber de nós! Jesus responde, uma resposta sem palavras mas que tem a força dos gestos: importo-me contigo, importa-me a tua vida, és importante para mim. Importam-me as aves do céu e vós valeis mais do que muitas aves, importam-me os lírios do campo e vós valeis mais do que todas as flores da Terra. Tu importas-me ao ponto de te ter contado todos os cabelos da cabeça e todo o medo que tens no coração (cf. Mateus 10, 29-31). Deus mais não faz do que, eternamente, considerar cada ser humano mais importante do Ele próprio. Eu sou esse homem. E sou um homem grato. Apoio-me sobre isto, sobre o Senhor que repete: importo-me contigo. A isto me agarro, como uma criança que pode dormir na tempestade porque sabe que está nos braços da sua mãe, presente inclusive no coração negro da mais dura tempestade. Deus não salva da tempestade, mas na tempestade. Eu gostava que o Senhor gritasse logo ao furacão: «Cala-te!»; que repreendesse logo as ondas: «Acalmai-vos!»; e que à minha angústia repetisse: «Paz!». Gostaria de ser dispensado da luta, gostaria de um céu sempre sereno e claros faróis a indicar a rota da minha barca. Mas eu tenho tanta luz quanto a que é precisa para o primeiro passo; tenho tanta força quanto a que me basta para o primeiro golpe de remo. Jesus ensina-nos que há uma só maneira de vencer o medo, e é a fé! Não a religião, mas a fé. «Quando é que é religião e quando é que é fé? A religião é quando fazes Deus à tua medida; a fé é quanto tu próprio te fazes à medida de Deus» (David Maria Turoldo).

A fé manifesta-se em três passos: tenho necessidade, fio-me, confio-me. E acredita que no tempo da tempestade, Deus não está noutro lugar, está no reflexo mais profundo das tuas lágrimas, a fazer de dique aos teus medos. Deus está presente, não como tu quererias, mas como Ele quer. Está presente, mas ao seu modo: não age no meu lugar mas juntamente comigo, não para me isentar da tempestade mas para me dar força dentro da tempestade. Fazendo apelo à perseverança, à resistência, a não deixar cair os braços, a voltar a agarrar nos remos e no balde para esvaziar a água. «Eram perseverantes», diz Lucas ao descrever os apóstolos após a ascensão de Jesus (Atos 1, 14), e a perseverança é virtude humilde, sem efeitos especiais cinematográficos, não está sob os projetores, mas é cimento da comunidade. Mesmo a primeira comunidade cristã de Jerusalém é narrada com este adjetivo colocado ao início, como uma placa indicadora, um sinal na estrada: «Eram perseverantes no ensinamento dos apóstolos e na comunhão, no partir o pão e na oração» (Atos 2, 42). A perseverança não é clamorosa, não arranca aplausos, mas é a virtude sólida que faz avançar a barca da comunidade. Quando, como os doze, não te rendes, mas continuas a remar e a lutar, as mãos no leme, os olhos a perscrutar a margem, e fazes tudo o que deves fazer, então encontra-lo no coração da tempestade. E faz-se dique e fronteira para o teu medo. Fé nua é perseverar, inclusive na borrasca, certo de que Deus está na minha barca, que cruza o seu respiro com o meu, a sua rota com a minha. Talvez adormecido. Talvez mudo. Mas se fala é por amor, se cala é também por amor.



«O que conta é uma relação nova, em que não haja nada que possa ter a ver com o medo». Não ter medo, não fazer medo, libertar do medo: uma missão eclesial, uma pedagogia a fazer nossa, para toda a Igreja



Na narrativa paralela de Lucas, Jesus pergunta aos marinheiros: «Onde está a vossa fé?» (Lucas 8, 25). Os discípulos ficam encantados pelo silêncio imprevisto do vento, pela bonança das ondas. Mas Jesus sacode-os: onde está a vossa fé? Onde está? Nos sinais da omnipotência? Num Deus que mostra ser capaz de dobrar as regras da natureza? No Deus omnipotente ou no omnipresente? O termo “omnipotente” martelajado pela liturgia nunca ocorre no Evangelho, mas na boca de Jesus como atributo de Deus. Jesus é a narrativa não da omnipotência, mas da ternura de Deus, da sua combativa ternura. Deus é amor, e não pode tudo, pode apenas o que o amor pode. O seu poder não é o de um cirurgião que extirpa o mal, o poder de um exército que destrói os inimigos ou de um vulcão que muda a geografia de uma ilha; é o poder de uma semente, de um amante, de uma mãe junto ao filho doente, que não pode curar, mas está junto, e não se vai embora, é coração a coração, força, segurança, presença que não abandona. Deus não é um “omnipotente que ama”, o rei do poder absoluto que digna amar; é um “amor omnipotente”, que pode amar as suas criaturas até ao extremo, até ao fundo, sem limites, como ninguém (cf. João 15, 13). Ele ama em primeiro lugar, ama em perda, ama sem retribuição. Um Deus que pode só o que o amor pode. Não um Deus omnipotente, segundo a linguagem política ou os nossos mitos humanos, que esmaga os inimigos, mas um Deus omni-amante, que pode só e tudo aquilo que o amor pode. Omniamante quer dizer belo, porque a norma, a regra da beleza é o amor. Belo é cada gesto de amor, belíssimo é quem te ama até ao extremo.

No seu testamento, um padre operário da diocese de Milão, Cesare Sommariva, deixou estas simples grandes regras: «A concluir tudo», escreve», «possamos pôr as três leis do humano educador: não ter medo, não fazer medo, libertar do medo. O que conta é uma relação nova, em que não haja nada que possa ter a ver com o medo». Não ter medo, não fazer medo, libertar do medo: uma missão eclesial, uma pedagogia a fazer nossa, para toda a Igreja.



O medo nasceu em Adão porque não soube sequer imaginar a misericórdia, e o seu fruto que é a alegria: do céu, do pastor, do pai bondoso, da mulher que reencontra a moeda. O medo, ao contrário, produz um cristianismo triste, um Deus sem alegria



Não ter medo. Nós, muitas vezes, como os adolescentes, fazemos uma cara quando estamos a trabalhar e outra com os amigos; uma cara com os nossos familiares e outra com os colaboradores, outra ainda com os superiores. Máscaras, que são o anúncio a nós próprios de que não somos livres. E não somos livres porque temos medo. Medo dos juízos, antes de tudo, e vivemos como reflexo, como eco daquilo que os outros dizem de nós. Um pouco como nas redes sociais, como o Facebook ou Twitter, onde quem os usa busca o efeito que tem nos outros, o número dos contactos ou dos “gostos”, de quem o segue, e é levado a viver como que fora de si mesmo. Temos muitas faces e temos medo porque não somos pessoas resolvidas, realizadas, bem sucedidas. Ter uma só cara e não ter medo, isto me chegaria para ser verdadeiro.

Não fazer medo. Durante longo tempo a Igreja transmitiu uma fé feita de medo. Que girava em torno do paradigma culpa-castigo, em vez do florescimento e plenitude. O padre intimidava os rapazes da região, fugíamos dele. O medo nasceu em Adão porque não soube sequer imaginar a misericórdia, e o seu fruto que é a alegria: do céu, do pastor, do pai bondoso, da mulher que reencontra a moeda. O medo, ao contrário, produz um cristianismo triste, um Deus sem alegria. Alguns experimentam até prazer ao instilar subjugação e intimidar os outros. Tornam-se assim em anticriadores.

Libertar do medo. Significa trabalhar ativamente para levantar este sudário do medo pousado no coração de tantas pessoas, o medo do outro, e passar da hostilidade à hospitalidade, da xenofobia à “filoxenia” [hospitalidade]. Jesus vem em auxílio de cada pessoa que é surpreendida ao largo, a cada pessoa capturada pela tempestade, a cada pessoa que se está a afundar. Invoquemo-lo e virá, mas depois da nossa luta com as ondas, Ele bradará ao vento e acalmará o mar. Virá dentro da nossa pouca fé para nos salvar de todos os nossos naufrágios. E a pequena barca de canas, o coração, avançará para a outra margem, onde o grito de medo se torna abraço entre o homem e o seu Deus.


 

Ermes Ronchi
In L'Osservatore Romano, 29.8.2016
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado em 08.08.2018

 

 
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