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«Só vos não peço para rezar o Pai-nosso porque me punha a chorar»: Luís Miguel Cintra recebe Prémio da Igreja católica

«Só vos não peço para rezar o Pai-nosso porque me punha a chorar»: Luís Miguel Cintra recebe Prémio da Igreja católica

Imagem Luís Miguel Cintra recebe o Prémio Árvore da Vida-Padre Manuel Antunes das mãos de D. Pio Alves | Fátima, 3.6.2017 | SNPC

«Disse-me no outro dia a irmã Mary John, do convento pequenino de dominicanas do Lumiar num ligeiríssimo tom de repreensão, que não era preciso muito para me pôr a chorar. Não sei se chegou a dizer também o tão antigo: “um homem não chora” mas foi como se o tivesse dito e a emenda foi pior que o soneto porque acho que logo choraminguei. Ou foi a irmã Maria Domingos? Não importa. Elas conhecem-me bem e é um facto, sou piegas. Espero hoje portar-me bem.»

Foi com estas palavras que o encenador Luís Miguel Cintra iniciou hoje, em Fátima, o agradecimento por ter recebido o Prémio Árvore da Vida-Padre Manuel Antunes, atribuído pela Igreja católica há 13 anos consecutivos para destacar um percurso ou obra que refletem o humanismo e a experiência cristã. Portou-se bem, como desejou, mas não evitou as lágrimas.

Ao expressar que para ele foi sempre crucial «o cuidado com as palavras», o cofundador da companhia teatral Cornucópia revelou que a sua «tardia necessidade» de se «reaproximar da prática religiosa» passou «por um momento em que sem qualquer espécie de reflexão e depois de bastantes anos de silêncio» lhe saíram as «palavras do Pai Nosso»: «É o passo da missa que mais me faz chorar».

«Não será entregando-nos a uma passividade que deixarmos tomar por contemplação que conseguiremos o que os católicos deveriam tomar como missão: a evangelização do nosso tempo é a luta contra o poder do dinheiro, é o regresso à simplicidade original. A fé terá de ser o que não nos deixe repousar na busca de refúgios individuais nem sonhos pessoais de felicidade. E a força capaz de lutar contra a civilização da desconfiança e a obsessão da segurança», afirmou na intervenção, que pode ser lida integralmente (cf. Artigos relacionados).



«Parece-me que tem de haver uma mudança se não quisermos que o mundo e com ele a nossa Igreja mais uma vez se recolham na oração e em tudo o que em si transporta, visto que a sociedade capitalista se tornou tão monstruosamente castradora de todas as liberdades, tão burocrática, que cada vez menos há lugar para repararmos uns nos outros»



«Lembro-me da ideia de Deus. Perante os frescos de Miguel Ângelo ou os quadros de Velázquez, tenho-os por verdadeiros milagres do Espírito Santo. E falo a sério. Como foi possível a um homem “bicho da terra vil e tão pequeno”, ter posto numa tela, guiado pelo que lhe disse o pensamento, umas tintas com um pincel, e que o resultado me provoque tantas centenas de anos depois tanta emoção? Como foi possível que homens como os autores dos Evangelhos escrevessem textos tão inacreditavelmente universais que resistem a todos os maltratos que se podem imaginar e é neles que milhões de seres humanos continuam a encontrar a base da sua maneira de estar vivos?», questionou.

Depois de assinalar que «é voz comum que a Igreja sempre se entendeu mal com o Teatro», Luís Miguel Cintra vincou que é «ideia errada»: «Haverá mais magnífico teatro que todo o aparato das celebrações solenes? E quantas peças de teatro religioso não se escreveram ao longo da História? Basta talvez lembrarmo-nos de que um grande poeta como foi Gil Vicente dedicou grande parte do seu tempo a integrar o teatro nas vias da liturgia».

«Foi consciente do perigo que resolvi que trabalhar no teatro era boa maneira de viver. Obrigado por me irem resgatar do que também vocês, júri, sabem que mais perto está do sagrado do que se julga, dado que é lugar para os homens se encontrarem com os outros. Nem sempre é o inferno, em que por este andar da civilização ocidental, também ameaça tornar-se se se deixar tornar apenas em mais um artigo em permanente promoção no mercado de sucesso», afirmou.

Depois de rezar a «oração de Nossa Senhora» em latim, Luís Miguel Cintra evocou o P. Manuel Antunes e acentuou que «mais forte que a rejeição ou condenação» dos «erros», da Igreja, «que é estéril, e só interessa ao teatro do prestígio de quem acusa», o que faz Igreja é a confiança no que «transcende». «Justamente o teatro, a minha necessidade de estar e contracenar com os outros, tem-me levado de encenação em encenação a pensar mais neste assunto. E a ter permanentemente na cabeça um desejo ou utopia de Igreja que me comove e que não sou o único a ter.»



Luís Miguel Cintra afirmou-se comovido por a Igreja lhe dar um prémio que «para além de significar: agradecemos o teu trabalho, de que gostamos, diz, ou eu gostava que dissesse: reconhecemos-te como irmão». «Mas do que eu gostava mesmo era que não fosse preciso haver prémios nenhuns. E desde já vos peço licença para não aceitar a sua componente monetária»



«Parece-me que tem de haver uma mudança se não quisermos que o mundo e com ele a nossa Igreja mais uma vez se recolham na oração e em tudo o que em si transporta, visto que a sociedade capitalista se tornou tão monstruosamente castradora de todas as liberdades, tão burocrática, que cada vez menos há lugar para repararmos uns nos outros ou para assumirmos um direito esquecido da dignidade de cada um diferente da do outro. E cada vez mais dou comigo a sonhar com uma Igreja como julgo que Jesus encarregou São Pedro de a fundar», observou.

«Na minha imaginação, calculem!, gostava que tivesse sido o grupo dos frades que São Francisco reuniu, tal como Rossellini os representou nesse filme maravilhoso que é o "Santo dos Pobrezinhos" quem me tivesse dado este prémio. Disparate, claro está. E eles não foram com certeza tão divertidos e puros como o cinema os pintou. Mas é como se me dissessem: não fiques aí sozinho. Ficamos aqui todos a pensar. A tratar do que Deus deu. A viver o Espanto. A brincar. Tenho permanentemente na cabeça uma ideia de Igreja ideal onde todos fizessem um trabalho que se parecesse com brincar, jogar com os outros, estabelecer cumplicidades, sem sofrimento nem culpa», prosseguiu.

Luís Miguel Cintra afirmou-se comovido por a Igreja lhe dar um prémio que «para além de significar: agradecemos o teu trabalho, de que gostamos, diz, ou eu gostava que dissesse: reconhecemos-te como irmão». «Mas do que eu gostava mesmo era que não fosse preciso haver prémios nenhuns. E desde já vos peço licença para não aceitar a sua componente monetária. Tenho muito má relação com o dinheiro e sabe-me melhor assim.»

«O amor aos outros dos cristãos não pode nunca passar pelo habitual sentimento da compaixão humana, que na maior parte das vezes, nos faz olhar o próximo de cima para baixo, dos felizes para os infelizes, e mascara o conforto de uma hierarquia em que há mais fortes e mais fracos, ricos e pobres, inteligentes e estúpidos, nobres e plebeus, chefes e súbditos em vez de ser pura solidariedade para um único destino: o amor», declarou.



«Lembrem-se de que foram homens como nós que escreveram Jesus e tudo o resto, querendo na palavra, inscrever uma Revelação. Para que os Homens reconhecessem o Filho de Deus e quisessem seguir o seu mandamento. E cada dia me espanta como o escreveram, que pensamento claro, exposto, sem máscaras, tinham aqueles escritores»



«Arrepia-me o início do Evangelho de João. No princípio era o Verbo e o verbo estava em Deus. A palavra, segundo o seu Evangelho, está no ponto de partida da existência da humanidade. E o Verbo se fez carne. E a carne criou pensamento. Entendo que o que estava em Deus passou para a consciência humana. Interrogo-me sobre o que diz o Génesis, que Deus disse ao primeiro homem que nomeasse todas as coisas, e é impressionante como o nome de cada um é importante nos textos bíblicos. Nomear, aponta, identifica, reconhece. Falo dos nomes próprios. Cada homem tem o seu. É essa primeira função da língua que é no fundo o reconhecimento da obra de Deus. Ah, quem conseguisse ser poeta sempre», disse.

Sobre a Bíblia, destaca que «é um maravilhoso convite» a  «pensar de outra maneira»: «Não nos reprimindo, deixando que uma nova palavra surja. Frases curtas, menos vocabulário, estrangeirismos, pois claro, são perdas. Mas quanto não se ganha se usarmos o não dito, o irracional, as contradições, a livre associação de ideias, o imprevisto, a desordem. Aquilo que cada um conhece de si próprio e em si prepara para se dar aos outros».

«Lembrem-se de que foram homens como nós que escreveram Jesus e tudo o resto, querendo na palavra, inscrever uma Revelação. Para que os Homens reconhecessem o Filho de Deus e quisessem seguir o seu mandamento. E cada dia me espanta como o escreveram, que pensamento claro, exposto, sem máscaras, tinham aqueles escritores. A Bíblia não raciocina, produz imagens, nomeia, simbolicamente ou não, dá a ver o que a liberdade de cada um transformará em pensamento. E na sua diversidade constitui um monumento ao Homem tomado como filho de Deus. À sua capacidade de viver em tantos níveis de consciência, à liberdade e responsabilidade que Deus para ele pensou. A de pensar também, sem relações de poder nem lutas de argumentos. Viver sem medo. Aceitar que não sabemos, e no entanto amamos. E tudo isto passa pelo uso que fazemos das palavras», salientou.

Por isso, tem «por fundamental uma educação que volte a dar à palavra a importância que tem. Ninguém tem liberdade se não tiver com que inventar o que diz. E o que diz um analfabeto pode ter a mesma importância que o que diz o doutor».



«Nem que seja apenas respeitando quem, sem referência cristã, tem o amor aos outros que a vida pede a todos, construindo finalmente a fraternidade que ainda se não construiu, a partir das relações pessoais a solidariedade entre os povos. Descobrindo pouco a pouco que seja, com a prática de vida que os Evangelhos nos pedem, onde se aloja o cancro que está a minar a obra de Deus»



O encenador considera que o homem «está à beira de desistir da sua humanidade. Todos temos consciência de que os sistemas políticos que a humanidade inventou e tomou por civilizados como forma de organizarem a sua vida política se tornaram em máscaras de "halloween", as democracias deixaram de representar os interesses da maioria ou das várias minorias de cidadãos».

«Que a Igreja me perdoe mas creio que a situação política mundial é tão grave, que seria tempo de deixarmos de perder tempo com questões evidentemente abusivas da responsabilidade de cada cristão, todas as questões sexuais, em leigos e eclesiásticos, as excomunhões, perdões e autorizações, carreiras religiosas, acumulação de riquezas, privilégios e castigos e voltarmo-nos para o mundo. Nem que seja apenas respeitando quem, sem referência cristã, tem o amor aos outros que a vida pede a todos, construindo finalmente a fraternidade que ainda se não construiu, a partir das relações pessoais a solidariedade entre os povos. Descobrindo pouco a pouco que seja, com a prática de vida que os Evangelhos nos pedem, onde se aloja o cancro que está a minar a obra de Deus», apontou.

A concluir, Luís Miguel Cintra afirmou: «Perdão, meus irmãos, falei demais. Mas tão nobre matéria a isso me obrigou e só vos não peço para rezar o Pai Nosso, Mary John, porque me punha a chorar».









 

SNPC
Publicado em 05.06.2017

 

 
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