Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura
Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura

Luís Miguel Cintra: O teatro, as pessoas, a vida levaram-no de volta à Igreja

Luís Miguel Cintra: O teatro, as pessoas, a vida levaram-no de volta à Igreja

Imagem Luís Miguel Cintra | D.R.

Passou por «um período grande da vida» em que andou «demasiado metido em coisas concretas e muito importantes em si próprias e tudo isso», sem «necessidade de ter um olhar mais distante e ao mesmo tempo mais íntimo».

Depois despertou a necessidade de ter «um sentido» naquilo que fazia. «Em alguns espectáculos que fiz dei-me conta de alguns desses problemas, como o caso do “Auto da Alma” (a que a gente chamou “Miserere”), muito uma coisa de interrogações sucessivas sobre o que era ter um credo e o que era aceitar uma doutrina que foi já pensada.»

Questionamentos de vida, de espiritualidade, que se cruzavam com a encenação, com os papéis que assumia. «Coisas desse género já estavam nos meus espectáculos: o “Fingir Verdadeiro” baseado numa peça do Lope de Vega (mas que é a história de São Gens, um mártir), sobre um ator que se converte quando está a representar a figura de um católico.» Porque representa tão bem, convence-se mesmo que é verdade aquilo em que está a acreditar como personagem.

«Tudo isso são coisas que se foram acrescentando e que acabaram por fazer mais sentido com o empurrão de algumas outras pessoas e circunstâncias da vida, voltando a estar inserido dentro da Igreja e a ir à missa; voltando a confessar-me, voltando a alguns dos preceitos que tradicionalmente fazem parte dos que são praticantes.»

Em entrevista publicada hoje na Renascença, Luís Miguel Cintra, distinguido com o Prémio Pessoa 2005, fala da fé, do estar na Igreja, das discordâncias, da viagem do papa Francisco a Fátima.



Confessa que o «encantamento com a vida» é o seu «ponto de partida»: «Como é tão misterioso, tão maravilhosamente misterioso e inexplicável, eu sinto a necessidade de considerar a vida divina. Com todas as contradições que tem e com todos os seus maus aspetos e tudo isso, porque também faz parte da vida...se fosse só de uma cor, provavelmente não era tão misteriosa. É exatamente essa complexidade dessa coisa esquisita: porquê?



«Padres como o padre Tolentino, e outros, porque não é só ele, davam a entender que era possível existir uma renovação da Igreja no sentido da fraternidade entre as pessoas; as pessoas se sentirem numa simplicidade absoluta e, sobretudo, a assunção dos princípios básicos do cristianismo que tinham sido afogados na criação de uma estrutura de poder hierárquica.»

Com o tempo, com a comunidade de crentes, descobriu que «é um erro» conceber a Igreja «como sendo o Vaticano, a estrutura de poder. A Igreja não é isso. A Igreja são todas as pessoas que acreditam. E, provavelmente mais até do que na hierarquia, o futuro da Igreja estará nas pessoas que acreditam mesmo ou que julgam acreditar».

«Também fui ajudado muito pelo contacto com as quatro monjas dominicanas do Lumiar que têm um convento pequenino onde também costumo ir à missa. Muitas vezes converso com elas e às vezes convidam-me para almoçar. A gente convive também com pessoas que lá vão e que têm uma atitude simples, de igual para igual.»

Confessa que o «encantamento com a vida» é o seu «ponto de partida»: «Como é tão misterioso, tão maravilhosamente misterioso e inexplicável, eu sinto a necessidade de considerar a vida divina. Com todas as contradições que tem e com todos os seus maus aspetos e tudo isso, porque também faz parte da vida...se fosse só de uma cor, provavelmente não era tão misteriosa. É exatamente essa complexidade dessa coisa esquisita: porquê? Porque se junta uma operação química que se estabelece entre duas células, uma masculina outra feminina? É bocado pouco explicação, não é?».

O avançar dos anos também contribui para uma sabedoria espiritual mais apurada: «Há uma coisa que a gente vai aprendendo a pouco a pouco, que é a aceitar as dúvidas e a aceitar a humildade como maneira de viver. Porque o corpo também envelhece, a gente percebe que não é superforte como acredita que é em determinada altura da vida, começa a perceber que fez muitas confusões, enganou-se muitas vezes, mas muitas vezes não se enganou. Tudo isso dá uma relação mais tranquila e mais confiante com essas coisas da fé».



 

Edição: SNPC
Publicado em 13.03.2017

 

 

 
Relacionados
Destaque
Pastoral da Cultura
Vemos, ouvimos e lemos
Perspetivas
Papa Francisco
Teologia e beleza
Impressão digital
Pedras angulares
Paisagens
Umbrais
Mais Cultura
Vídeos