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Mais do que turismo e arqueologia, património cristão é desafio e interpelação

A intenção do Programa dos Itinerários Culturais do Conselho da Europa, ao qual a Santa Sé aderiu formalmente a 21 de março de 2018, é mostrar que o rico património cultural dos países europeus é uma realidade que, apesar de poliédrica, os une, como compartilhadas são as raízes históricas que a geraram.

Desta forma, os itinerários culturais europeus apresentam-se como uma tradução em chave cultural e turística dos valores fundamentais a que o Conselho da Europa faz referência para a sua ação política, como os direitos do homem, a democracia, o Estado de direito, o diálogo e o intercâmbio intercultural; valores que ultrapassam as fronteiras territoriais nacionais e que, na sucessão de diferentes períodos históricos, encontraram expressões culturais eloquentes, que se tornaram parte do património comum europeu.

A estreia oficial do programa dos itinerários culturais europeus ocorreu em 1987, com a certificação do primeiro itinerário, "os Caminhos de Santiago de Compostela". É significativo que seja precisamente uma antiga rota de peregrinação, ainda muito frequentada, a exprimir as aspirações e os destinos comuns do continente, em cuja história a dimensão religiosa desempenhou um papel importante e decisivo.

Nos anos seguintes nasceram e foram reconhecidos (certificados) outros 30 itinerários. Alguns têm uma referência direta à tradição religiosa do continente: a Via Francigena (1994); a rota do património judaico europeu (2004); o itinerário de S. Martinho de Tours (2005); os sítios cluniacenses na Europa (2005); a Transromênica, os itinerários do património românico europeu (2007); o itinerário europeu das abadias cistercienses (2010); o itinerário europeu dos cemitérios (2010); o itinerário dos caminhos de Santo Olavo (2010); os caminhos dos huguenotes e dos valdenses (2013).



Através da adesão ao acordo acima mencionado, a Santa Sé pretende mostrar o seu envolvimento na promoção do que é comum e enriquece a identidade europeia e o seu património de valores e ideais



Entretanto, o programa inicial foi estruturando-se e organizando-se, tanto nos procedimentos relativos à certificação do "Itinerário Cultural do Conselho da Europa", como nas estruturas operacionais e estratégias da sua promoção. Deste ponto de vista, deve ser sublinhado o desenvolvimento que conheceu o binómio cultura-turismo, até confluir num plano de ação europeu do turismo, para o qual os itinerários culturais contribuem grandemente. É também significativo que tenha sido assinado em setembro de 2006 um memorando de cooperação entre o Conselho da Europa e a Organização Mundial do Turismo.

A execução técnica dos objectivos do Acordo é confiada ao Instituto Europeu dos Itinerários Culturais, sedeado no Luxemburgo, na antiga abadia de Neumunster, criada em 1998 através de um acordo entre o Conselho da Europa e o Grão-Ducado do Luxemburgo. A sua tarefa é avaliar itinerários certificados e oferecer suporte a novos projetos interessados ​​na certificação.

Pode dizer-se que o programa dos itinerários culturais propõe-se como um "canal" para o diálogo intercultural e visa promover a compreensão da identidade da Europa, através da valorização do rico património histórico dos seus povos. Nesse sentido, quer mostrar-se que a ideia da Europa não se esgota na adoção da moeda única comum, ou apenas na regulação do seu mercado continental, ou na elaboração de políticas económicas mais ou menos compartilhadas.

Existe, com efeito, um pano de fundo de valores e ideais que deu vida no tempo à variada diversidade de expressões de uma "identidade comum" - como mencionado, poliédrica e variada -, cuja redescoberta só pode beneficiar a própria identidade e servir como antídoto contra as recorrentes pressões nacionalistas. Espera-se que 2018, declarado pela União Europeia "Ano Europeu do Património Cultural" - iniciativa a que também aderiu o Conselho da Europa - possa registar uma consideração renovada do precioso papel da cultura na construção da sociedade e na escolha das orientações gerais da política comunitária.



Deve nascer o compromisso de fazer encontrar hoje os dois âmbitos, religião e cultura, e entabular um diálogo livre de contraposições ideológicas e preconceitos, na perspetiva de um serviço compartilhado ao bem integral da pessoa humana e da construção da sociedade europeia



Através da adesão ao acordo acima mencionado, a Santa Sé pretende mostrar o seu envolvimento na promoção do que é comum e enriquece a identidade europeia e o seu património de valores e ideais. Por outro lado, como afirmava o cardeal Joseph Ratzinger na sua lição magistral perante o Senado da República Italiana (13 de maio de 2004), «a Europa apenas de maneira completamente secundária é um conceito geográfico: a Europa não é um continente claramente compreensível em termos geográficos, mas é um conceito cultural e histórico».

Uma especial atenção merecem as expressões religiosas dessa identidade, que contribuíram notavelmente para moldar o rosto da Europa. Elas ainda estão vivas em todos os países europeus e têm oferecido, ao longo dos séculos, terreno fértil para o crescimento, amadurecimento e difusão de valores compartilhados de alto conteúdo simbólico e ético. Delas são expressão eminente os itinerários acima elencados que fazem referência à peregrinação, à experiência monástica, às formas de piedade religiosa e a figuras de santos, que marcaram profundamente uma era e contribuíram para fixar os traços típicos da identidade europeia.

Esses mesmos itinerários são o testemunho histórico de como a experiência religiosa, em particular a cristã, se traduziu em cultura, e como esta encontrou força inspiradora na religião, vindo depois a expressar-se em edifícios singulares (catedrais, basílicas, igrejas, mosteiros, etc.), obras de arte de valor incomparável (retábulos, pinturas devocionais, ícones, jóias e objetos de artesanato sacro, etc.), textos musicais e literários (o canto gregoriano, os hinos medievais, os poemas e as representações sacras, etc.) que se encontram em todo o continente, nas grandes cidades como nas pequenas aldeias. Todo este património ainda tem muito a dizer ao homem europeu do nosso tempo e convida a abrir os olhos e a mente à função social da cultura e do "sentimento religioso" num sentido geral.



A conservação, valorização e promoção do vasto património cultural europeu, fruível também em chave turística, não se limita a uma necessária recuperação arqueológica, mas pretende torná-lo disponível para o conhecimento e leitura de uma mensagem que desafia a nossa contemporaneidade



Como são ainda atuais as considerações do profundo teólogo Romano Guardini que, estudando a incidência do elemento religioso na totalidade da existência, salientava como sempre iminentes dois extremos possíveis: por um lado, «uma religiosidade que se retira cada vez mais dos campos de vida cultural», fazendo-se «mais interior»; por outro, uma cultura que se torna mera expressão horizontal da autonomia humana e na qual «o homem cai à mercê da sua própria obra».

Desta sábia constatação deve nascer o compromisso de fazer encontrar hoje os dois âmbitos, religião e cultura, e entabular um diálogo livre de contraposições ideológicas e preconceitos, na perspetiva de um serviço compartilhado ao bem integral da pessoa humana e da construção da sociedade europeia . Vale a pena recordar aqui o desejo do papa Francisco aos participantes da conferência "(Re)Pensar a Europa", organizada pela Comissão dos Episcopados da Comunidade Europeia (COMECE), em colaboração com a Secretaria de Estado da Santa Sé, a 28 de outubro de 2017, «a considerar o papel positivo e construtivo que, em geral, a religião tem na edificação da sociedade».

A conservação, valorização e promoção do vasto património cultural europeu, fruível também em chave turística, não se limita a uma necessária recuperação arqueológica, mas pretende torná-lo disponível para o conhecimento e leitura de uma mensagem que desafia a nossa contemporaneidade e cujo valor transcende o tempo e o espaço em que foi criado, voltando a propor as sempre atuais questões sobre o sentido do viver e do agir do homem no mundo.



 

Mons. Maurizio Bravi
Observador permanente da Santa Sé na Organização Mundial do Turismo
Sala de Imprensa da Santa Sé
Trad.: SNPC
Imagem: D.R.
Publicado em 28.04.2018

 

 
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