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Mulheres dão «finalmente» ao Conselho Pontifício da Cultura a «imagem de Deus», diz presidente

Mulheres dão «finalmente» ao Conselho Pontifício da Cultura a «imagem de Deus», diz presidente

Imagem Membros da "Consulta Feminina" com o cardeal Gianfranco Ravasi | Vaticano, 7.3.2017 | D.R.

O presidente do Conselho Pontifício da Cultura considera que o novo grupo "Consulta Feminina" confere àquele organismo a semelhança divina, e uma teóloga iraniana, que dele faz parte, afirma que se sente «uma filha muçulmana do papa Francisco».

O grupo, que foi apresentado à imprensa no Vaticano esta terça-feira, véspera do Dia Internacional da Mulher, dá ao Conselho Pontifício «a imagem de Deus» que lhe faltava, pois, segundo o Génesis, primeiro livro da Bíblia, «Deus criou o homem à sua imagem: homem e mulher os criou», afirmou o presidente do organismo.

A nova instância não é uma resposta às «recriminações» feministas, nem é uma operação de «cosmética» ou de «quotas», mas visa introduzir «o olhar feminino» em todas as atividades do Conselho e a sua presença a partir da próxima assembleia plenária, explicou o cardeal italiano Gianfranco Ravasi.

Um dos membros da "Consulta Feminina" é a iraniana Shahrazad Houshmand, licenciada em Teologia Islâmica pela Universidade de Teerão e em Teologia Católica pela Pontifícia Universidade Lateranense, de Roma.

Professora de Estudos Islâmicos e Língua e Literatura Persas na Pontifícia Universidade Gregoriana, também de Roma, integra o Conselho para o Islão do Ministério do Interior iraniano e faz parte do Centro para o Diálogo Inter-religioso do movimento católico dos Focolares.



«Estou absolutamente confiante de que a história é criada pelos indivíduos. Se nós estamos aqui é porque acreditamos que a construção de pontes e o encontro entre culturas e religiões é absolutamente possível»



Em resposta aos jornalistas, Shahrazad Houshmand evocou o poeta persa Ferdowsi, «que viveu há mil anos e que é o pai da língua persa, que escreveu: se o governo do mundo fosse confiado às mulheres, todas estas guerras podiam ser evitadas».

«Paulo VI dizia que a paz não é a ausência da guerra, o papa Francisco diz que a paz é a construção dia após dia de uma cultura que seja a favor da comunidade global. Também nós, com a nossa diversidade, queremos ser esta mensagem: a construção de uma paz estável, que não seja só a ausência da guerra, mas uma nova cultura de acolhimento, perdão, paciência e também sabedoria», declarou. A entrevista:

 

Marine Le Pen na França e Frauke Petry, na Alemanha, duas mulheres, guiam a frente, por assim dizer, menos pacífica da política europeia. Ao mesmo tempo há mulheres, como a chanceler alemã Angela Merkel, empenhadas numa política de sinal oposto...

O Corão escreve que o pecado não foi trazido ao mundo pela mulher, mas por Adão, e a mulher escorrega atrás do homem... Penso que, como vemos em toda a história, uma mulher não pega numa arma para matar, a não ser raramente para uma defesa familiar, mas a pegar na arma e ir para a guerra para matar são mais os homens. Nesta ótica penso que às vezes também a mulher "escorrega" para esta perspetiva. E ao contrário a natureza da mulher é acolhedora, biologicamente a mulher acolhe, alimenta e protege, e então se volta à sua própria natureza deverá ser construtora de paz e reconciliação, e não fonte de divisão.



A física explica que a luz, mesmo se pequena, se difunda nos grandes espaços. Então, mesmo se a nossa luz não é grande, ilumina, faz ver-se e dá a mensagem de que as mulheres são capazes, apesar da sua diversidade de conhecimento, de ciência, de cultura, de língua e também de religião, de colaborar plenamente e amigavelmente para o bem comum.



Segundo a sua experiência, esta "Consulta Feminina" pode ter algum papel na relação entre a Santa Sé e o islão, em particular o islão xiita, e com o Irão?

Estou absolutamente confiante de que a história é criada pelos indivíduos. Se nós estamos aqui é porque acreditamos que a construção de pontes e o encontro entre culturas e religiões é absolutamente possível. Hans Kung disse que a paz entre o Estados não pode acontecer se não através da paz entre as religiões. Nesta ótica a minha presença simboliza também isto: deve haver paz entre as religiões para se chegar à paz entre as nações.

 

Não vos sentis, vós, mulheres da "Consulta", uma peneira do Vaticano para tapar o sol?

Não, como se vê também pela biografia dos membros da "Consulta", há mulheres de grande coragem e de grande presença social. Não recuamos, somos mulheres que acreditamos no bem social, somos todas ativíssimas. E se também o cardeal nos abriu esta porta, seremos muito presentes.

 

Neste momento nos EUA de Donald Trump debate-se a discriminação em relação a países de maioria islâmica: esta "Consulta" pode ser uma mensagem que supera o Vaticano e se dirige a todo o mundo?

A física explica que a luz, mesmo se pequena, se difunda nos grandes espaços. Então, mesmo se a nossa luz não é grande, ilumina, faz ver-se e dá a mensagem de que as mulheres são capazes, apesar da sua diversidade de conhecimento, de ciência, de cultura, de língua e também de religião, de colaborar plenamente e amigavelmente para o bem comum.



«O papa Francisco é estimado e amado pelos muçulmanos, não só pelas mulheres, porque a sua palavra é muito atenta ao sofrimento do outro e à vida do outro, quem quer que seja. Não olha o rosto do outro só porque é cristão ou católico, olha para o sofrimento do mundo, não diz «só os cristãos são perseguidos» mas fala do sofrimento do ser humano»



A Virgem Maria pode ser uma ponte entre cristãos e muçulmanos?

Esse é um ponto que me interessa particularmente. O Líbano é um exemplo: se o Líbano, apesar da presença diversificada de cristãos e muçulmanos, estabeleceu um dia de festa nacional de todos os cidadãos que é a Anunciação a Maria, a 25 de Março, é já um grande sinal de que a figura de Maria pode ser não só uma ponte, mas uma autoestrada gigante entre islão e cristianismo.

 

Como é percecionado o papa Francisco pelas mulheres muçulmanas?

O papa Francisco é estimado e amado pelos muçulmanos, não só pelas mulheres, porque a sua palavra é muito atenta ao sofrimento do outro e à vida do outro, quem quer que seja. Não olha o rosto do outro só porque é cristão ou católico, olha para o sofrimento do mundo, não diz «só os cristãos são perseguidos» mas fala do sofrimento do ser humano, e é isto que o torna muito apreciado pelos muçulmanos, incluindo as mulheres muçulmanas, incluindo eu, que me sinto uma filha muçulmana do papa Francisco.

 

Qual é a sua opinião sobre a violência contra as mulheres?

A palavra "zalim" e a palavra "mazlum" têm a mesma raiz, aquele que comete violência e aquele que a sofre. Quem impõe uma injustiça não o conseguiria se a outra parte não a aceitasse. Deste ponto de vista há uma responsabilidade feminina se a mulher aceitou a submissão ou o ser posta de parte. Mas isto não chega a esclarecer de que parte é a maior culpa. O facto é que a nossa única salvação é colaborarmos todos juntos, ninguém excluído, homens e mulheres, crentes e não crentes. Hoje o nosso tempo está a ser sacudido por um despertar global, a nível de cada indivíduo, que pode levar a um renascimento conjunto.



«É verdade que hoje muitas mulheres muçulmana sofrem, mas também é verdade que, em geral, é a mulher a sofrer. Infelizmente a violência contra a mulher não conhece nem religião, nem tradição, nem língua»



Qual é a situação da mulher no mundo islâmico?

A ideia corânica sobre a mulher procura dar grande valor e dignidade à mulher, mas outra coisa é o quanto isso foi posto em prática na história, como acontece também no mundo cristão. É verdade que hoje muitas mulheres muçulmana sofrem, mas também é verdade que, em geral, é a mulher a sofrer. Infelizmente a violência contra a mulher não conhece nem religião, nem tradição, nem língua. Por isso também aqui seria preciso fazer um trabalho global. Há mulheres muçulmanas de grande presença social, cultural e científica no mundo muçulmano, mas infelizmente no Ocidente não têm muita voz. Há até mulheres presidentes da República ou primeiras-ministras como no Bangladesh, Indonésia ou Paquistão. Quanto mais dermos voz à parte feminina da sociedade, mais poderemos esperar uma sociedade capaz de perdoar, ser paciente e acolher, porque o perdão é necessário hoje na nossa sociedade e tem mais valor feminino: a mãe consegue mais facilmente perdoar o filho do pai. Demos mais voz à mulheres e ajudemos assim quer as mulheres muçulmanas quer as mulheres do todo o mundo, bem como os homens.

 

Na difusão da fé que papel podem ter as mulheres muçulmanas a tomar distância do fundamentalismo radical de alguns ambientes?

O perdão, repito-o, é mais forte na parte feminina. Baseando-nos na cultura do perdão e da paciência da mulher podemos chegar também a isso.



 

Iacopo Scaramuzzi
In "Vatican Insider"
Trad.: SNPC
Publicado em 08.03.2017

 

 
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