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Nascerá uma nova lua sobre este mundo de injustiça

De 27 para 28 de abril, como a cada noite, ergueu-se a lua no céu aveludado e repleto de estrelas. Ergueu-se sobre um universo em oração, apertada num abraço que não se via há muito tempo. Estava alta no céu a lua quando Alfie Evans morria, na madrugada de 28 de abril.

No mesmo dia em que a Igreja evocava a memória de Gianna Beretta Molla (1922-1962), uma mãe que deu a vida pela filha, um sistema de pensamento doente deu a morte a uma criança. Um sistema de pensamento sem Deus e sem fé, que não escutou a voz de um pai, do papa, de milhares de pais, a voz de uma mãe e de milhares de mães.

Sim, a lua ergue-se também sobre o panorama desolado pintado por Samuel Bak (1933). Uma nova lua sobre uma paisagem velha, como sugere o artista no título da obra, "New moon for an old landscape".

As casas do gueto, lares familiares em tempos repletos de vida e calor, jazem aos pés de uma enorme taça de leite. Uma taça como muitas onde as crianças mergulham os lábios para beber o leite do seu desmame.

Já não há ninguém a reclamar a sede e a fome. Água e alimentos foram negados a milhares de crianças, do Holocausto aos nossos dias. A vida, ainda que preciosa e querida de Alfie Evans, empalidece diante do real problema que temos à nossa frente.

A morte de Alfie, como a lua de Bak, traz à luz que o problema não é uma única vida, mas o infindável número de crianças mortas para delas fazer carne de matadouro, cosméticos e tráfico de órgãos. Uma mercantilização aterradora do corpo humano.



Fazia impressão ouvir, durante uma vigília de oração organizada na noite de 28 de abril, um povo que, à volta da igreja, proclamava de pé as palavras de João Paulo II: «Erguer-nos-emos de cada vez que a vida humana é ameaçada... Erguer-nos-emos quando uma criança é vista como um peso»



O eugenismo hitleriano está prestes a chegar ao seu ápice. O sonante nome de "Lord Justice", assumido pelos juízes que no tribunal de apelo negaram repetidamente a dois pais dispor da vida e da saúde do próprio filho, soa como uma injúria.

Mas os senhores da justiça não têm poder sobre uma coisa: a Cruz do Salvador. Esta morte abrirá a consciência de muitos, mais do que muita propaganda mediática viciada e falsa, esta morte arrebatará o ferrão à mentira. A nós cabe recordar, fazer memória, não esquecer.

Samuel Bak, que nas suas obras continua tenazmente a recordar o Holocausto, não esqueça os genocídios atuais. Numa exposição de 2015 dedicou muitas das suas obras à justiça, pensando na Síria, Paquistão e em todos os lugares onde guerra e perseguições continuam a matar.

São enfaixadas as personificações da justiça de Bak, são enfaixadas e de pedra. Querem dizer-nos que é importante não esquecer. Devemos ser nós os olhos dessa justiça cega que tira às famílias os seus direitos e ao ser humano indefeso a sua dignidade.

Na paisagem irreal da pintura de Bak tudo parece destruído: as casas, as árvores, as colinas. Tudo, exceto a pequena taça partida da criança que já não existe, mas cuja voz, ainda, embala a lua. Esta taça imóvel canta já a glória da ressurreição.

E se a lua se ergue alta no céu sobre uma paisagem velha, também é verdade que essa lua é nova. Nova a consciência de quem pregou, nova a fé de quem escutou a voz do papa, nova a esperança de quem viu o governo italiano oferecer-se para acolher o pequeno Alfie.

Fazia impressão ouvir, durante uma vigília de oração organizada na noite de 28 de abril, um povo que, à volta da igreja, proclamava de pé as palavras de João Paulo II: «Erguer-nos-emos de cada vez que a vida humana é ameaçada... Erguer-nos-emos quando uma criança é vista como um peso».

Sim, erguer-nos-emos e ficaremos de pé como a taça de Bak, certos do amanhecer de uma nova lua.



 

Gloria Riva
In Avvenire
Trad.: SNPC
Imagem: "New moon for an old landscape" (det.) | Samuel Bak | D.R.
Publicado em 09.05.2018

 

 
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