Bíblia
Um livro admirável
É possível que a importância da Bíblia no mundo contemporâneo e o seu valor literário e simbólico sejam para mim evidentes devido à minha educação cristã e à leitura assídua da Bíblia. Talvez não o seja tanto para quem pegue nela pela primeira vez, não tenha nenhuma ideia acerca da diferença entre a cultura judaica e a de hoje, nem dos processos literários de há mais de dois mil anos, ou não saiba o que é a antropologia religiosa. Sem qualquer noção de texto simbólico ou do significado dos mitos, torna-se difícil, por exemplo, falar da iconografia, da literatura medieval e moderna ou até da música (lembre-se, por exemplo, a cantata «Elias» de Mendelson) que supõem referências bíblicas. Sem isso, a leitura de muitas passagens da Bíblia pode-se tornar chocante.
Uma das primeiras heresias do cristianismo recusava-se a identificar o Deus de Jesus Cristo, bondoso e misericordioso, com Javé, justiceiro e sanguinário. A apreciação da Bíblia, sobretudo do Antigo Testamento, requer, na verdade, uma preparação e um esforço que nem toda a gente está disposta a fazer. Mas a incapacidade para ver o lado positivo da Bíblia impede a fruição de um dos livros mais admiráveis jamais produzidos na história da humanidade. Refiro-me em particular ao livro dos salmos (onde todavia não faltam cânticos cheios de violência e de rudeza, ao lado de outros repassados de lirismo, de ternura ou de paixão), a Isaías, Jeremias ou Amós, à grande epopeia do Êxodo ou à dramática resistência dos Macabeus à ocupação romana. A mais veemente condenação da acumulação do poder político e económico nas mãos de quem dele abusa é a dos profetas de Israel contra os poderosos de então, que ressoa também no cântico «Magnificat» da Maria. O sentido religioso da palavra profética faz do abuso do poder uma abominação perpétua que nenhuma teoria política consegue igualar. Ignorar ou desprezar estes textos equivale a injuriar Homero ou Virgílio, a censurar a tragédia grega ou a troçar de Platão.
José Mattoso
Historiador
In Jornal de Letras, 04.11.2009
08.11.09

Pedro Proença
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