Observatório da Cultura
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Novembro 2011 [n.º 16]

O que é mais importante (criar, manter, repensar) na relação da Igreja com a Cultura?

Alice Vieira: Pastoral da Cultura usa «linguagem nem sempre acessível a todos»
«Penso que a Pastoral da Cultura está com muita força e a fazer um bom trabalho mas por vezes usa uma linguagem nem sempre acessível a todos. Temos de pensar que há muitas camadas diferenciadas de pessoas, pelo que é importante chegar a todas e que todas cheguem a nós, sem afastar ninguém.»

André Dourado: Cultura é «campo por excelência» para «contacto entre a Igreja e a sociedade»
«Na relação entre a Igreja e a Cultura, é tempo de restaurar descomplexadamente uma das linhas mestras da relação entre as duas ao longo dos tempos, e que fez da segunda um meio privilegiado de propagação da Fé. Apesar da Cultura ser hoje feita de realidades muito diversificadas das quais a religião é apenas uma parte, e já não o centro, ela deve ser assumida, a par da área social/humanitária, como o campo por excelência no qual se estabelece o contacto entre a Igreja e a sociedade, tornando-se um palco de afirmação do papel da Igreja no mundo

Ângela Xavier: «Reabrir definitivamente as portas da Igreja» a todos os que pesquisam caminhos «para além do óbvio»
É preciso «reabrir definitivamente as portas da Igreja a todos os que, por vias diversas, pesquisam caminhos que os conduzam «para além de», para além do óbvio, para além de um senso comum repetidamente repetido, numa qualquer busca do(s) sagrado(s), das diversas formas pelas quais o(s) sagrado(s) se pode(m) manifestar, experienciar.»

Duarte Brito de Goes: É preciso fazer «renascer» os tempos em que a Igreja era a «fonte da cultura»
Num momento em que o mundo se centra no económico e no material, caberá à Igreja ser um centro de promoção do Homem em todas as suas vertentes. Estou certo que nos tempos mais próximos, a Igreja vai desenrolar um papel crucial na Cultura pois só através da Cultura o Homem se poderá realizar na sua plenitude.

P. Duarte Melo: Igreja não se deve deixar «contaminar pela cultura do slogan»
Um diálogo teimoso e criativo com a pluralidade favorecerá a Igreja e a sua missão no mundo. A Igreja não existe fora do mundo cultural e, por isso, está condenada a viver com a cultura, enquanto realidade histórica.

Filipa Oliveira: Separação entre Igreja e Cultura é «perda para os dois lados»
A cultura contemporânea está impregnada por uma espiritualidade profunda e a Igreja, na maior parte dos casos, está afastada das manifestações culturais de mais vanguarda. Penso que um repensar desta ligação através de projetos que podem ser pontuais ou mais a longo prazo seria um desafio muito enriquecedor.

Guilherme d'Oliveira Martins: «Não há um romance cristão como não há arte cristã. Há, sim, cristãos na arte e na vida»
Como é bem evidente no inesperado encontro de Cristo com a samaritana do que se trata é de dar testemunho pela dignidade humana não numa sociedade formatada e perfeita, mas entre a imperfeição e a estranheza - porque o vento da Graça sopra onde menos se espera.

Inês Gil: «Igreja tem feito enorme esforço para reencontrar um debate com a cultura»
A Igreja pode ser uma voz importante, sem impor, na proposta de uma cultura moderna e atualizada, para a expressão de um mundo mais humilde, sendo crítica e não excluindo o humor. A Igreja está disposta a entrar em diálogo com a cultura contemporânea; é preciso que a cultura também se mostre aberta a acolher a proposta da Igreja.

P. Jardim Gonçalves: Igreja em Portugal «está muito longe do mundo cultural»
Não há escrito nenhum, boletim paroquial, revista, diário ou semanário eclesial que não fale da cultura na Igreja. Estou convencido que se trata mais de uma palavra que se escreve com uma noção bastante abstrata, pouco concreta e, sobretudo, sem conteúdo. Se formos perguntar a muita gente da Igreja o que quer dizer com “cultura”, estou certo que a resposta é bastante dececionante. É um “flatus vocis”, uma coisa que se diz mas que não mobiliza interiormente as pessoas nem o seu pensar, e muito menos a sua ação e intervenção na sociedade.

João Bigotte Chorão: Uma obra pode não ser religiosa à primeira vista mas, «pela sua carga espiritual, tornar-se naturalmente cristã»
Vimos de um tempo em que havia literatura, editoras e imprensa expressamente católicas, que foram desaparecendo com a progressiva laicização e secularização da sociedade e da cultura. Mas nem sempre o que tinha rótulo “católico” era na verdade católico, isto é, universal. Uma literatura piedosa e um jornalismo de sacristia não era o melhor cartão de visita para entrar no mundo da cultura. Nesse mundo há quem procure e encontre, como Pascal, e quem, como Unamuno, se debata sempre em dramática, agónica dúvida.

João Duque: «Deveremos repensar certo alheamento de muitos cristãos e comunidades, em relação aos processos culturais»
Esse alheamento pode ser originado por certo tradicionalismo religioso de inércia, que se limita a práticas mínimas de manutenção de uma débil identidade cristã e não assume o seu papel configurador de cultura; ou então, pode ser originado por um novo espírito de seita, que apenas se preocupa com a vida interna das pequenas comunidades, sem se aventurar na praça pública, no debate comum, como contributo para a humanidade toda.

João Madureira: «É imprescindível criar para manter, manter para repensar, e repensar para criar»
São múltiplos os caminhos desta aliança, que não deve, na minha opinião, ser destruída.

João Wengorovius Meneses: Relação com a cultura «obriga a Igreja a sair para a rua»
É fundamental manter o interesse e o diálogo entre a Igreja e a Cultura, sabendo que essa relação obriga a Igreja a “sair para a rua”, a “estar entre gente”, a valorizar o pluralismo cultural, a expor-se, a reinventar os modos e, portanto, a correr riscos. Claro está, evitando o relativismo, o consumismo cultural ou ter de pedir desculpa pela existência de Deus ou pelos princípios que defende e a definem.

Joaquim Azevedo: «Qual é a palavra e a presença da Igreja nesta crise?»
A Igreja está aí, no meio do turbilhão e é precisamente aí que tem de dar as razões da sua esperança, agindo e falando não para si mesma, nem para os outros, mas com os outros, sobretudo com quem mais precisa.

Jorge Reis-Sá: A fé na cultura
Não estamos de costas voltadas, quero crer. Em Portugal, a Igreja tem ainda (e ainda bem) um papel importantíssimo na sociedade. Não podemos nem devemos esquecer que grande parte do país ainda é feito de localidades e que, tirando os dois grandes centros urbanos de Lisboa e Porto, é a Igreja quem sustenta muito do que a juventude cria. Se a isto se somar que é nela que, mesmo aqueles para quem a fé desapareceu, se encontra o Belo, percebe-se a dimensão da sua importância. Seja nas igrejas, seja nos cânticos ou seja nos ritos.

Jorge Wemans: «Cabe à Igreja interrogar a cultura e a arte com aquela pergunta inquietante: de que queremos ser salvos (curados)?»
A urgência fundamental centra-se hoje na revalorização dos laços comunitários, no recentrar da pessoa (experiência individual livre e irrepetível) cujo horizonte de felicidade e alegria só pode existir na relação de comunhão.

José Carlos Seabra Pereira: Igreja deve «passar à ofensiva no debate de ideias e na manifestação de criatividade»
Sem iludir os limites (aliás tão injustos) do impacto que a ação da Rádio Renascença, da agência Ecclesia e da imprensa católica alcança na opinião pública, é preciso encontrar e ativar novos e eficazes meios de visibilidade no espaço público, conquistando maiores efeitos de presença e de afirmação, de motivação e de adesão.

José Leitão: «Diálogo com criadores culturais não pressupõe o silenciamento das diferenças»
Sem iludir os limites (aliás tão injustos) do impacto que a ação da Rádio Renascença, da agência Ecclesia e da imprensa católica alcança na opinião pública, é preciso encontrar e ativar novos e eficazes meios de visibilidade no espaço público, conquistando maiores efeitos de presença e de afirmação, de motivação e de adesão.

José Pedro Serra: «A Igreja não é uma organização cultural»
Parecer-me-ia muito prejudicial para a noção de identidade e missão da Igreja que possibilitássemos a ideia de que ela se pode dissolver ou reduzir à cultura. A voz mais profunda que a Igreja possui aponta para uma dimensão que está para além da cultura. Por outro lado, e sem desmentir nada disto, entendo que a Igreja não tem de temer nenhum diálogo com o mundo nem nenhuma relação com a cultura.

Leonor Xavier: Igreja pode incluir «arte e sensibilidade» nos seus rituais e espaços sagrados
É também impossível não nos lembrarmos do encontro de Assis, em que o papa chamou pessoas não crentes para expressarem o seu pensamento sobre questões fundamentais como a paz, a justiça e a liberdade, que também são coordenadas de cultura no tempo em que vivemos.

Lídia Jorge: Relação entre Igreja e Cultura não se pode «manter por muito tempo tal qual se encontra»
Se em determinados contextos a Igreja ainda associa a criação de ambientes e discursos pouco inteligíveis como forma de desencadear relações místicas, é bem verdade que hoje em dia se assiste à prática salutar de uma crescente aproximação do discurso lógico, interventivo, por vezes com alto grau de racionalidade e muita informação, como convém a uma sociedade cada vez mais aberta e exposta ao mundo da comunicação e da crítica globalizada. Mas nem todos os agentes da Igreja conseguem atingir um nível eficaz.

Manuel Carmo Ferreira: Sem «inventividade» não há cultura mas apenas património adquirido
A relação da Igreja com a cultura tem de processar-se segundo uma dupla polarização: o pólo da invenção permanente do novo, que no evangelho está configurado na expressão de ir buscar ao tesouro coisas novas e velhas, e simultaneamente reconhecer que essa criação precisa de um espaço institucional. A cultura é uma permanente busca da realização do humano que tem como suporte uma certa estabilidade, dada pelas instituições.

Maria Helena da Rocha Pereira: «Todas as áreas da ciência devem, cada vez mais, ser consideradas pela Igreja como matéria de reflexão e estudo»
Multiplicaram-se as áreas de saber, algumas das quais, como a astronomia e a física, parecem alterar todos os conhecimentos sobre o mundo que nos rodeia. Por isso um dos mais notáveis cientistas de todos os tempos - Heisenberg - escreveu esta frase famosa: «O primeiro golo da taça das ciências da natureza torna-nos ateus, porém, no fundo da taça, Deus está à nossa espera».

Mário Avelar: Relação da Igreja com a cultura deve ser criada na «tensão entre discursos que divergem de uma conceção cristã da vida»
Exige-se de cada católico que “não tenha vergonha” de intervir na cidade, que não receie a polémica, e que não abdique de dar voz a uma postura ética, que é também estética, de estar no mundo; uma forma ética que foi determinante na construção da matriz cultural que é a nossa - algo que importa não deixar de recordar, analisar e compreender.

Martim Avillez: «Manter viva a memória de Cristo na nossa cultura é uma das contribuições mais decisivas que a Igreja nos deu»
Desde o papa João Paulo II a Igreja tem mantido uma relação muito aberta com a cultura. Acho que essa é a visão que todos desejamos: ver a Igreja em diálogo com todas as variáveis que contribuíram para desenhar a cultura ocidental. Esse ecumenismo, essa capacidade de nos abrirmos ao outro - que é também um exemplo da vida de Cristo - é algo que a Igreja não deve perder, estimulando-a e reforçando-a o mais possível.

P. Peter Stilwell: Cultura e experiência espiritual
Face a calamidades naturais e à corrupção moral, famílias, clãs, nações e culturas tentaram escorar a sua confiança coletiva a fim de garantir a sobrevivência. Tanto a honra familiar, como o orgulho nacional, ou ideologias abstratas têm servido, ao longo dos tempos, para esse objetivo. Nada, no entanto, tem contribuído tão poderosa e criativamente para esse esforço como a “experiência espiritual”.

Simão Lucas Pires: Igreja «não pode ficar satisfeita» quando «o lugar da verdade é o canto que ninguém quer»
A primeira coisa importante é não compactuar com este esvaziamento, com esta desistência em relação à única coisa urgente. Não promover a cultura morna na qual, apesar dos tons de voz, dos prémios e da gravidade cuidadosamente encenada, nada está em causa. A Igreja não pode ficar satisfeita com um cenário onde o lugar da verdade é o canto a que ninguém liga e a inquirição acerca do homem é uma forma de entretenimento tão insignificante como todas os outras.

Zita Seabra: Não faz sentido que a Igreja pense em evangelizar sem «procurar a representação da Beleza»
O papa Bento XVI tem falado e escrito sobre este tema, incentivando, tal como aconteceu noutras épocas, que a Igreja na sua liturgia e noutras formas de expressão não esqueça a procura do Belo. Esta demanda não se reduz ao património mas também se exerce nos dias de hoje, não deixando que algum mau gosto e incultura, que por vezes parecem sobrepor-se aos valores culturais inseparáveis dos valores espirituais, deixem abafar esse encontro constante entre Deus e a noção de cultura.

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