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Leitura: "Os Jesuítas em Portugal depois de Pombal – História ilustrada"

Cerca de 260 fotografias «inéditas ou pouco conhecidas», reunidas e selecionadas por Francisco Malta Romeiras, descrevem como foi o «ensino religioso, artístico, humanístico, filosófico e científico dos jesuítas ao longo de 160 anos», em Portugal, após a vigência de Marquês de Pombal como Secretário de Estado do Reino (primeiro-ministro) de D. José I.

O novo livro "Os Jesuítas em Portugal depois de Pombal – História ilustrada", da Lucerna, revela imagens que «permitem uma viagem a esse mundo fascinante dos colégios de Campolide (atual Universidade Nova) e de S. Fiel, na Beira Baixa (este infelizmente devorado pelas chamas de um incêndio ocorrido a 15 de agosto do ano passado)», sublinhou o P. António Júlio Trigueiros, diretor da revista “Brotéria”, aquando da apresentação do volume.

O acervo compreende «espaços, professores e alunos das principais instituições educativas fundadas depois de 1858», como o Instituto Nun’Alvres, o Colégio São João de Brito, o Colégio da Imaculada Conceição, a Faculdade de Filosofia e o Instituto Superior Económico e Social, lê-se na introdução, de que apresentamos um excerto.

 

Introdução
Francisco Malta Romeiras
In “Os Jesuítas em Portugal depois de Pombal – História ilustrada”

Em Junho de 1540, poucos meses antes da aprovação oficial da Companhia de Jesus pelo Papa Paulo III (r.1534–49), Francisco Xavier (1506–1552) e Simão Rodrigues (1510–1579) chegaram a Lisboa para servir a coroa e a Igreja portuguesas. A sua vinda inaugurou o primeiro período da história dos jesuítas em Portugal. Entre 1540 e 1759, os jesuítas portugueses tiveram a seu cargo a administração da Assistentia Lusitianiae, isto é a Assistência de Portugal da Companhia de Jesus. Constituída por sete províncias e vice-províncias, do Portugal ao Brasil e Maranhão, de Goa a Malabar, e do Japão à China, a Assistência de Portugal foi, sem dúvida, o território maior, e mais disperso, que os jesuítas governaram até à supressão universal da Companhia de Jesus em 1773. Neste período, os jesuítas da Assistência de Portugal dedicaram-se à propagação da fé e doutrinas católicas através de obras espirituais—nas quais se incluíram a pregação de sermões, a orientação de  Exercícios Espirituais, e a administração dos sacramentos—e de obras temporais, com um destaque particular para a educação secundária e universitária. Durante mais de duzentos anos, os jesuítas estabeleceram e administraram residências, igrejas, missões, noviciados, colégios e universidades ao longo do vasto império português. Antes da expulsão Pombalina, em 1759, os jesuítas portugueses dirigiam uma universidade, em Évora, e trinta e sete colégios em Portugal, nos Açores e Madeira, no Brasil, em Angola e Moçambique, e em Macau, sendo responsáveis pela educação de dezenas de milhares de estudantes. A grande maioria destas instituições encontrava-se em áreas urbanas, e os colégios serviam vários propósitos que em muito extravasavam os aspectos meramente educativos.



Depois da expulsão, os jesuítas foram habilmente caracterizados pelo Marquês de Pombal como os principais responsáveis pelo atraso educativo e científico português. Esta acusação, ao contrário das restantes, contudo, acabaria por ter uma influência invulgar na história dos jesuítas no período que se seguiu à restauração oficial dos jesuítas



A partir da década de 1750, contudo, a história das actividades educativas e científicas dos jesuítas alterou-se profundamente. No rescaldo do terremoto de 1 de Novembro de 1755, os jesuítas caíram numa desgraça quase absoluta. Acusados de lucrarem ilegalmente com o comércio no Brasil, de desrespeitarem as fronteiras entre os impérios português e espanhol na América do Sul, de apoiarem revoltas populares no norte do país, e de conspirarem para matar o rei, os jesuítas foram consecutivamente banidos da corte, impedidos de pregar e de ouvir confissões e, finalmente, expulsos de todos os territórios portugueses em 1759. Depois da expulsão, os jesuítas foram habilmente caracterizados pelo Marquês de Pombal (1699–1782) como os principais responsáveis pelo atraso educativo e científico português. Esta acusação, ao contrário das restantes, contudo, acabaria por ter uma influência invulgar na história dos jesuítas no período que se seguiu à restauração oficial dos jesuítas. Seguindo o exemplo português, outras nações europeias também expulsaram os jesuítas dos seus territórios. Em 1773, depois dos jesuítas terem sido consecutivamente expulsos de Portugal (1759), França (1762–5), Nápoles, Parma e Espanha (1767), o Papa Clemente XIV (r.1769–1774) decretou a supressão universal da Companhia de Jesus.

Apesar da supressão ter sido quase universalmente aceite pelos monarcas europeus, algumas nações permitiram que os jesuítas mantivessem as suas obras nos seus domínios. Ainda que, canonicamente, a ordem já não existisse, alguns jesuítas continuaram a viver e a trabalhar no Québec, na Prússia e na Rússia. Em 1814, mais de uma década depois de ter concedido algumas regalias aos jesuítas russos, o Papa Pio VII (r.1800–23) decretou a restauração da Companhia de Jesus em todo o mundo. Porém, quando a notícia da restauração chegou à corte portuguesa, então no Rio de Janeiro, a coroa rejeitou a missiva papal. Após a subida ao trono em 1828, D. Miguel (r.1828–1834) encarregou o duque de Cadaval de restaurar os jesuítas em Portugal. Durante o curto reinado de D. Miguel, alguns jesuítas franceses e belgas vieram para o nosso país. Contudo, com a derrota das forças absolutistas, os jesuítas foram presos e posteriormente deportados para França, Inglaterra e Itália. A primeira tentativa de restaurar a Companhia de Jesus em Portugal falhara.



Até à sua expulsão em 1910, os colégios dos jesuítas distinguiram-se no panorama educativo nacional, não só pela excelência do ensino humanístico e científico, mas também pelo papel desempenhado na educação das elites, sobretudo em Lisboa



Em 1858, vinte e quatro anos depois dos jesuítas franceses terem sido deportados, começou um novo período na história dos jesuítas portugueses. A 21 de Junho de 1858, o Padre Carlos Rademaker, S.J. (1828–1885) inaugurou o Colégio da Santíssima Imaculada de Campolide, o futuro berço da restauração da Companhia de Jesus em Portugal. Filho de José Basílio Rademaker (1789–1856), ministro plenipotenciário de D. Miguel, e de Charlotte Lecusson Verdier, Carlos Rademaker passou a sua infância em Chieri, Itália. Contra a vontade de seu pai, ingressou no noviciado de Turim em 1846. Contudo, as circunstâncias políticas impediram-no de continuar a sua formação religiosa em Itália. Em 1848, no seguimento da expulsão dos jesuítas de Turim, Rademaker saiu do noviciado e regressou a Portugal com a sua família. Com o apoio de um jesuíta italiano exilado em Lisboa, o Padre José Vigitello (1799–1859), e do marquês de Lavradio (1794–1874), prosseguiu a sua formação religiosa no nossos país, acabando por ser ordenado em 1851. Membro da província de Turim desde 1851, e da província espanhola desde 1855, o jesuíta acabaria por investir a herança do seu pai no Instituto de Caridade e, posteriormente, no Colégio de Campolide. A partir 1856, Rademaker começou a corresponder-se com o provincial espanhol Domingo Olascoaga (1808–1860), com o objectivo de proceder à restauração da Companhia de Jesus. No ano seguinte, foi a Loyola professar os seus primeiros votos como jesuíta e a Madrid para requerer a permissão oficial para restaurar os jesuítas em Portugal. Com o consentimento do Superior Geral Peter Beckx (r.1853–1887), o jesuíta português começou a procurar um local mais indicado para transferir o Instituto da Caridade, que então se encontrava na Lapa, em Lisboa. O local escolhido foi a quinta da Torre. Situada em Campolide, a quinta tinha uma dimensão considerável e, por isso, parecia ser o local mais apropriado para começar um novo colégio. Assim, com um terço da herança do pai, o jesuíta comprou a quinta da Torre ao poeta João de Lemos. No dia 21 de Junho de 1858, festa de São Luís Gonzaga (1568–1591), santo jesuíta patrono da juventude, foi oficialmente fundado o primeiro colégio dos jesuítas neste novo período da sua história.



Entre as iniciativas que mais contribuíram para a recuperação da credibilidade dos jesuítas foram a criação de importantes laboratórios de química, gabinetes de física, museus de história natural, observatórios e academias científicas nos seus colégios, onde procuraram promover o ensino experimental das ciências naturais, e o desenvolvimento de investigação original em áreas como a botânica e a zoologia, como espelhado pela revista “Brotéria”



Depois da fundação do Colégio de Campolide, os jesuítas foram oficialmente restaurados em Portugal, primeiro como uma missão da província espanhola (1858–1879) e depois como uma província independente (1880–1910). Durante os primeiros anos, o estabelecimento de novas instituições, apostolados e missões dependeu, em grande medida, do apoio da aristocracia, do governo e da família real. Em 1860, com o apoio do marquês de Valada (1826–?), e com o consentimento formal do marquês de Loulé (1804–1875), primeiro ministro do reino, os jesuítas compraram uma propriedade no Barro, em Torres Vedras, onde instalaram um colégio para órfãos—o Colégio de Nossa Senhora dos Anjos, sucedâneo do Instituto da Caridade—e um noviciado. E a partir de 1863, na sequência da expulsão das Irmãs da Caridade, os jesuítas ficaram encarregues de dirigir outra instituição educativa, o Colégio de São Fiel. Fundado pelo frade franciscano Agostinho da Anunciação (1802–1874) para a educação de órfãos da região de Louriçal do Campo, no distrito de Castelo Branco, São Fiel foi dirigido pelas Irmãs da Caridade até à sua expulsão em 1862. Em Roma, a infanta D. Isabel Maria de Bragança (1801–1876), benfeitora do colégio e regente do reino entre 1826 e 1828, obteve permissão para que São Fiel fosse entregue aos jesuítas. Até à sua expulsão em 1910, os colégios dos jesuítas distinguiram-se no panorama educativo nacional, não só pela excelência do ensino humanístico e científico, mas também pelo papel desempenhado na educação das elites, sobretudo em Lisboa. O Colégio de Campolide era frequentado por jovens aristocratas, tanto liberais como absolutistas, por burgueses que se queriam afidalgar, e ainda por republicanos e livres-pensadores. No Colégio de São Fiel, além de acolherem e ensinarem humanidades e ciências a órfãos e crianças pobres, os jesuítas recebiam ainda outros alunos, habitualmente da região de Castelo Branco.

Além de terem recuperado, pelo menos parcialmente, alguma da popularidade de que tinham gozado nos séculos anteriores, a restauração dos jesuítas parecia representar uma oportunidade para resolver os problemas relacionados com o Padroado do Oriente. Em 1857, depois de décadas de desocupação e funcionamento caótico, a Santa Sé estabeleceu as fronteiras e determinou a organização do Padroado. À coroa portuguesa era pedido que recrutasse e enviasse novos missionários para as missões do Oriente. Dado que não tinha conseguido ainda levar a bom cabo esta tarefa, o ministro da marinha Carlos Bento da Silva (1821–1891) dirigiu-se a Rademaker pedindo-lhe que enviasse jesuítas para as missões. Assim, a partir de 1861, os jesuítas ficaram encarregues da direcção do Real Colégio das Missões Ultramarinas, em Cernache do Bonjardim. No ano seguinte, o colégio enviou o primeiro grupo de missionários para Macau para dirigir o Seminário de São José e uma escola para alunos externos. Vinte anos depois, mais concretamente a partir de 1881, os jesuítas viraram-se para África, e estabeleceram novas missões apostólicas em Moçambique. Em 1885, quando Rademaker morreu, a Companhia de Jesus tinha crescido consideravelmente. Nesse ano, a Província Portuguesa era constituída por 161 jesuítas, incluindo 47 padres, 69 escolásticos e 45 irmãos coadjutores.



A recuperação da credibilidade educativa e científica dos jesuítas foi fundamental para a aprovação de novas missões apostólicas e para a fundação de colégios na China, Índia, Moçambique e Timor



Quando a Companhia de Jesus foi restaurada em Portugal, os jesuítas estavam perfeitamente conscientes da longevidade e popularidade das acusações pombalinas que os responsabilizavam pelo atraso científico e educativo nacional. Com o objectivo de fomentar uma educação alicerçada na aliança entre ciência e religião, os colégios de Campolide e de São Fiel contribuíram de forma indelével para a educação científica de uma nova elite, incluindo não só cientistas notáveis, como Egas Moniz (1874–1955), único prémio Nobel da Medicina português, mas também futuros militares, padres, bispos, políticos e artistas como, por exemplo, José de Almada Negreiros (1893–1970). Ao colocarem o ensino e a práticas das ciências no topo das suas prioridades educativas, os jesuítas foram recuperando, gradualmente, a sua credibilidade educativa e científica junto da família real, da aristocracia e da burguesia, e, mais importante, da comunidade científica. Entre as iniciativas que mais contribuíram para a recuperação da credibilidade dos jesuítas foram a criação de importantes laboratórios de química, gabinetes de física, museus de história natural, observatórios e academias científicas nos seus colégios, onde procuraram promover o ensino experimental das ciências naturais, e o desenvolvimento de investigação original em áreas como a botânica e a zoologia, como espelhado pela revista Brotéria. Fundada em 1902 no Colégio de São Fiel, e com um longevidade absolutamente invulgar para um periódico científico em Portugal, a Brotéria desempenhou um papel fulcral no desenvolvimento da botânica, zoologia, genética e melhoramento de plantas, bioquímica, genética molecular e bioética no nosso país. A recuperação da credibilidade educativa e científica dos jesuítas foi fundamental para a aprovação de novas missões apostólicas e para a fundação de colégios na China, Índia, Moçambique e Timor. Além de terem contribuído para a recuperação da credibilidade dos jesuítas, os colégios de Campolide e de São Fiel permitiram o renascimento e difusão da espiritualidade inaciana no nosso país, sobretudo através do estabelecimento de novas congregações marianas e da organização de Exercícios Espirituais e de outros retiros para os alunos e para o clero português.


 

Edição: Rui Jorge Martins
Imagem: Capa | D.R.
Publicado em 07.11.2018

 

Título: Os Jesuítas em Portugal depois de Pombal - História Ilustrada
Autor: Francisco Malta Romeiras
Editora: Lucerna (Principia)
Páginas: 160
Preço: 17,85 €
ISBN: 9789898809575

 

 
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