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Para uma espiritualidade da ressurreição

Para uma espiritualidade da ressurreição

Imagem "Ressurreição" (det.) | Alma Woodsey Thomas | 1966 | D.R.

As aparições pós-ressurreição mostram que Cristo ressuscitado compreendia de que é que cada discípulo necessitava para acreditar. Maria precisava de ouvir o seu nome. Pouco depois deste episódio com Maria, o Evangelho de João narra o episódio do apóstolo Tomé, que não estava presente quando Maria anunciara a ressurreição de Jesus aos outros discípulos. Tomé não acredita no que estes lhe contam, exigindo-lhes provas mais tangíveis. «Se eu não vir o sinal dos pregos nas suas mãos e não meter o meu dedo nesse sinal dos pregos e a minha mão no seu peito, não acredito.»

Por causa dessa frase, ele tem de carregar com o infeliz epíteto de Incrédulo Tomé, o que me parece injusto. Pensemos que o discípulo Pedro, seu companheiro, não só duvidou, mas negou Jesus num momento crucial. Apesar desse lapso, é chamado Príncipe dos Apóstolos e tem uma grandiosa basílica com o seu nome, em Roma. Aliás, Tomé tinha boas razões para duvidar. «Jesus voltou à vida dentre os mortos? Estão a brincar comigo? Que absurdo!» Tomé poderá ter pensado que os seus amigos tinham sido enganados por uma espécie de ilusão de massas.

Por vezes, interrogo-me se Jesus terá escolhido Tomé para Apóstolo especificamente pela sua mente investigadora ou pela sua incapacidade de aceitar que o enganassem, dois importantes atributos para um discípulo. Tomé poderia, simplesmente, ser mais exigente em termos de querer ver provas – além disso, ele pede apenas aquilo que Jesus oferecera aos outros quando lhes aparecera na Sala de Cima, segundo o Evangelho de João. Por outro lado, talvez Tomé devesse ter acreditado naquilo que tantos dos seus amigos íntimos, tantas testemunhas fidedignas, lhe tinham contado.

Ou, possivelmente, Tomé estava triste por ter perdido a oportunidade de ver Jesus. Certo dia, durante uma meditação sobre esta passagem, imaginei Tomé não só a sentir-se esmagado depois da crucifixão, mas também devastado por não ter estado presente para ver Cristo ressuscitado com os outros. Ficara de fora. Tomé poderá ter-se sentido magoado, interrogando-se se Jesus o consideraria indigno de ser testemunha dessa aparição.



Cristo ressuscitado é delicado com os incrédulos, com aqueles que precisam de se reconciliar e com aqueles que estão tão confusos, que nem o conseguem ver. Isto é especialmente importante hoje em dia, em que muitos cristãos respondem às dúvidas e à perplexidade com ameaças e expulsão



Devemos interrogar-nos se Tomé não terá ficado cansado de ouvir o relato da sua famosa dúvida. Há uma tradição segundo a qual São Tomé, por fim, partiu para a Índia, a fim de pregar o Evangelho. Talvez quisesse apenas afastar-se de todas essas histórias.

Contudo, se a tradição é dura para com Tomé, Jesus não o foi. Quando aparece ao grupo uma semana depois do anúncio de Maria, Tomé está presente. Jesus, porém, não censura o seu amigo, nem diz «afasta-te de mim, Satanás», como lançara em rosto a Pedro, pela sua falta de entendimento. Jesus começa por dizer ao grupo ali reunido:
«A paz seja convosco!»

Que faz Jesus, então? Ralha a Tomé, condenando-o? Expulsa-o da comunidade? Não, dá a Tomé aquilo de que ele precisa: provas físicas. «Olha as minhas mãos: chega cá o teu dedo». Depois, recorda aos outros o valor da fé. Sem sequer meter as mãos nas chagas de Jesus, Tomé exclama: «Meu Senhor e meu Deus!» Está assombrado com a pessoa que tem à sua frente e, talvez, também embaraçado.

Cristo ressuscitado é delicado com os incrédulos, com aqueles que precisam de se reconciliar e com aqueles que estão tão confusos, que nem o conseguem ver. Isto é especialmente importante hoje em dia, em que muitos cristãos respondem às dúvidas e à perplexidade com ameaças e expulsão. Vejamos de que modo Cristo ressuscitado reage às dúvidas. Ele chama uma pessoa pelo nome. Mostra. Explica. Acolhe. Perdoa. Dessas formas tão suaves, as pessoas são convidadas a conhecer o Ressuscitado.



O que é que Jesus quer dizer quando recomenda, nos Sinópticos: «Tomai a vossa cruz, dia após dia»? Depois desse convite aparentemente masoquista, Jesus prossegue, dizendo: «Pois, quem quiser salvar a sua vida há de perdê-la; mas, quem perder a sua vida por minha causa, há de salvá-la». O que é que tudo isso quer dizer?



O Ressuscitado mostra-nos que Deus se encontra connosco onde nós nos encontramos. Deus compreende a diversidade de formas pelas quais os discípulos vivem a sua fé. Por isso, os Evangelhos não nos falam apenas de Deus, mas também de nós mesmos. Estamos confusos ou por vezes chegamos até a negar Deus, como faz Pedro? Precisamos de que Deus nos fale de uma forma pessoal, como Maria? Somos como Tomé, que precisa de provas concretas da atividade de Deus na sua vida? Ou somos como o Discípulo amado, que está tão unido a Jesus que, mesmo sem provas, acredita, pura e simplesmente? Seja qual for a situação do leitor em termos de fé, Deus compreende, tal como o Ressuscitado compreendia os discípulos.

Os relatos das aparições também nos recordam que Cristo ressuscitado se pode identificar com Jesus de Nazaré; o Cristo da fé é identificável com o Jesus da história. A ideia de que Jesus de Nazaré morreu e foi criada uma pessoa nova é uma interpretação errada do milagre da ressurreição. O Jesus que ressuscitou do sepulcro sabe aquilo de que os discípulos precisam porque os conhecia. E eles agora reconhecem-no porque o conheceram durante o seu ministério público. Maria reconhece a sua voz porque já a tinha ouvido antes. As aparições associam de uma forma maravilhosa Jesus de Nazaré a Cristo Ressuscitado.

Stanley Marrow faz um resumo encantador desta ideia:

«O Senhor ressuscitado tinha de ser, de forma reconhecível e identificável, Jesus de Nazaré, o homem que os discípulos conheciam e seguiam, viam e ouviam, com quem comiam e por causa de quem agora se refugiavam à porta fechada, por «medo dos judeus». Se Ele tivesse ressuscitado como qualquer outra pessoa que não fosse o Jesus de Nazaré que eles conheciam, privaria a ressurreição de todo o seu significado. Aquele que eles tinham confessado como seu Senhor ressuscitado é o mesmo Jesus de Nazaré que tinham conhecido e seguido. Mostrar-lhes «as suas mãos e o seu lado» com as marcas da crucifixão e o golpe da lan ça não era um gesto teatral, mas as credenciais de identificação necessárias do Senhor ressuscitado, que ali estava de pé, diante deles, com o Jesus de Nazaré crucificado, que eles tinham conhecido».

O Ressuscitado traz dentro de si as experiências da sua humanidade. Jesus Cristo é plenamente humano e plenamente divino.



A verdadeira cruz é aquela que nós não queremos… caso contrário, de cruz pouco teria. Lembrem-se de que Jesus não cortejou a morte nem pediu a cruz, no jardim do Getsémani. Por fim, a cruz viria ter com Ele. Além disso, como é óbvio, a cruz não é consequência do pecado. É verdade que alguns sofrimentos resultam de decisões erradas ou imorais. Contudo, a maior parte do sofrimento, não



A ressurreição é o centro da minha fé. Outros cristãos poderão fixar-se mais na encarnação, por exemplo – na forma como Deus se fez homem, como Deus nos compreende da forma mais íntima possível. Ou podem centrar o seu discipulado nas Bem-aventuranças – como um modelo da vida cristã e uma orientação básica para as suas ações. Estes são aspetos importantes da vida de Cristo. Todavia, a ressurreição é o meu próprio centro espiritual. Eu regresso diariamente a esse tema – ou, em termos mais gerais, à história da morte e ressurreição de Jesus.

O que é que a ressurreição tem a ver connosco? Afinal, com toda a probabilidade, nós não vamos ser crucificados, embora os cristãos continuem a ser perseguidos em todo o mundo. E aqui há outra questão que ainda não explorámos – porque não lhe poderíamos responder sem pensar na ressurreição. O que é que Jesus quer dizer quando recomenda, nos Sinópticos: «Tomai a vossa cruz, dia após dia»? Depois desse convite aparentemente masoquista, Jesus prossegue, dizendo: «Pois, quem quiser salvar a sua vida há de perdê-la; mas, quem perder a sua vida por minha causa, há de salvá-la». O que é que tudo isso quer dizer?

Eis alguns pensamentos sobre essas questões.

Primeiro, nós não precisamos de procurar as nossas cruzes. A própria vida no-las dá. Alguns jovens costumam dizer-me, com sinceridade, que, em seu entender, não têm sofrimento suficiente nas suas vidas. É tentador responder-lhes, em tom macabro: «Espera e verás.» Quer se trate de uma doença devastadora, de um acidente, de uma morte na família, da rutura de uma relação, de preocupações financeiras, de solidão prolongada, de problemas na escola ou de conflitos no trabalho, os sofrimentos virão. E a verdadeira cruz é aquela que nós não queremos… caso contrário, de cruz pouco teria. Lembrem-se de que Jesus não cortejou a morte nem pediu a cruz, no jardim do Getsémani. Por fim, a cruz viria ter com Ele. Além disso, como é óbvio, a cruz não é consequência do pecado. É verdade que alguns sofrimentos resultam de decisões erradas ou imorais. Contudo, a maior parte do sofrimento, não. Mesmo aquele que não tinha pecado sofreu.

Segundo, nós somos convidados por Deus, tal como Jesus, a aceitar a nossa cruz. Isso não significa que devemos aceitar as coisas sem pensar, como um animal sem entendimento, oprimido sob o seu fardo. Além disso, as sentenças do tipo «oferece o teu sofrimento» tampouco resolvem o problema do mesmo. A ideia de oferecer a própria dor a Deus é útil em certas situações, mas não noutras. Durante muitos anos, a minha mãe visitou a minha avó na sua casa de repouso. Nessa casa vivia também uma religiosa católica de idade, confinada a uma cadeira de rodas devido a dores muito debilitantes. Certo dia, a superiora da sua ordem foi visitá-la. Quando a irmã falou das dores que sentia, a superiora replicou: «Pensa em Jesus na cruz.» A anciã respondeu: «Mas Ele só esteve três horas na cruz.» Alguns conselhos fazem mais mal do que bem.



Quando Jesus fala daqueles que «perdem a sua vida», Ele não se está a referir apenas à morte física. Os cristãos acreditam que lhes é prometida a vida eterna se acreditarem em Jesus e seguirem o seu caminho. No entanto, há outras mortes que vêm antes da morte final. Nós somos chamados a deixar certas partes da nossa vida morrer, para que outras partes possam viver



O que significará, então, aceitar a nossa cruz?

Para começar, significa compreender que o sofrimento faz parte da vida de toda a gente. Aceitar a nossa cruz significa que a determinada altura – depois do choque, da frustração, da tristeza e até da raiva iniciais – devemos aceitar que algumas coisas não podem mudar. É por isso que a aceitação não é uma postura masoquista, mas realista. É nisso que o Cristianismo se diferencia do Budismo, segundo o qual o sofrimento é uma ilusão. Não, diz Jesus do alto da cruz, sofrer faz parte da realidade humana. Os discípulos tiveram dificuldade em compreender isto – queriam um líder que os livrasse da dor, e não um líder que a suportasse pessoalmente. Muitas vezes, também nós temos essa mesma dificuldade. No entanto, Jesus convida-nos à aceitação, do alto da cruz.

A aceitação também significa não contaminar os outros com qualquer amargura que sintamos em relação ao nosso sofrimento. Isso não quer dizer que não devamos conversar acerca do mesmo, queixar-nos dele, ou até chorar na presença de familiares ou amigos por causa dele. E, como é óbvio, somos convidados a ser sinceros na oração no que diz respeito ao nosso sofrimento. O próprio Jesus expôs o que lhe ia no coração diante do seu Abbá, no jardim do Getsémani.

Todavia, se o leitor está zangado com o seu chefe, ou com a escola, ou com a sua família, não contamine os outros com essa ira, aumentando assim o seu sofrimento. O facto de ter um péssimo chefe não é razão para tratar mal a sua família. As dificuldades com uma família em situação de rutura não são desculpa para ser insensível para com os seus colegas. Os problemas na escola não significam que tenha de ser cruel com os seus pais. Cristo não açoitou ninguém quando estava a sofrer, mesmo quando a Ele o açoitaram com um chicote.

Como eu já referi, isso não significa que não deva partilhar o seu sofrimento com outras pessoas. A dor e o sofrimento resultantes, por exemplo, de abusos ou de traumas precisam, muitas vezes, de ser partilhados com outros (com amigos ou com terapeutas profissionais), como parte do processo de cura. Por outro lado, as pessoas que vivem situações difíceis prolongadas, como, por exemplo, ter de criar um filho com necessidades especiais ou tratar de pais idosos, sentem-se, muitas vezes, reconfortadas e apoiadas falando com outras pessoas com circunstâncias de vida semelhantes. Tal como Jesus, poderá deixar que outros o ajudem a carregar a sua cruz. Jesus não era orgulhoso a ponto de não deixar Simão de Cirene acorrer em seu auxílio. Se os seus amigos lhe oferecerem ajuda, aceite-a.



A cruz é, muitas vezes, o lugar onde nos encontramos com Deus, porque a nossa vulnerabilidade pode tornar-nos mais abertos à sua graça. Por isso, Thomas Merton pôde escrever: «Deus ensina-nos através da tribulação. As pessoas mais infelizes do mundo são aquelas que não conhecem tribulações»



Portanto, há uma diferença entre ter uma discussão com o seu filho adolescente e por causa disso mostrar-se insensível no trabalho, ou partilhar as dificuldades (e as alegrias) decorrentes de ter de criar uma criança com necessidades especiais num grupo de apoio. É a diferença entre transmitir o nosso sofrimento aos outros ou partilhá-lo.

Em suma, a sua cruz não se deve transformar na cruz de mais ninguém.

Terceiro, quando Jesus fala daqueles que «perdem a sua vida», Ele não se está a referir apenas à morte física. Os cristãos acreditam que lhes é prometida a vida eterna se acreditarem em Jesus e seguirem o seu caminho. No entanto, há outras mortes que vêm antes da morte final. Nós somos chamados a deixar certas partes da nossa vida morrer, para que outras partes possam viver. Será o desejo de dinheiro que o impede de ser mais compassivo no trabalho? Talvez a sua necessidade de estatuto tenha de morrer. Está tão apegado ao seu próprio conforto que não deixa que as necessidades das outras pessoas interfiram com as suas? Talvez o seu egoísmo tenha de morrer para que possa experimentar a sua generosidade renascer. Estará o orgulho a impedi-lo de escutar as críticas construtivas das outras pessoas, travando assim o seu crescimento espiritual? É possível que tudo isso também precise de morrer.

Nos círculos espirituais cristãos, chama-se a isso «morrer para si próprio». O que é que o impede de ter mais amor, de ser mais livre e mais maduro, de estar mais disposto a seguir a vontade de Deus? Será que consegue deixar essas coisas morrer? Se conseguir, certamente «encontrará» a sua vida, porque morrer para si próprio significa viver para Deus. É isso, em parte, que Jesus quer dizer acerca daqueles que tentam, desesperadamente, salvar as suas vidas. Esse tipo de «salvação» apega-se àquelas partes de nós que nos mantêm escravizados às velhas maneiras de fazer as coisas. Tentar manter essas coisas vivas poderá conduzir-nos à morte. Deixá-las morrer permite--nos viver de verdade.

Quarto, esperar a ressurreição. Cada cruz encerra, em certa medida, um convite a uma vida nova, e muitas vezes de uma forma misteriosa. Para mim, não é claro se Jesus terá entendido exatamente o que lhe sucederia depois de se ter abandonado ao seu Abbá no jardim. É óbvio que Ele se entregou completamente ao Pai. Mas porventura sabia onde é que isso o levaria? Há certos sinais do seu conhecimento prévio, como o desafio lançado por Jesus aos líderes judeus: «Destruí este templo, e em três dias Eu o levantarei»; João qualifica esta frase como uma profecia da ressurreição 22. Todavia, a agonia de Jesus no jardim e o seu grito de abandono na cruz parecem indicar que nem Ele sabia que tipo de vida nova o Pai tinha reservado para si. Talvez o próprio Jesus tenha ficado surpreendido no domingo de Páscoa. Em meu entender, isso torna a sua autodoação ainda mais assombrosa.



Muitas vezes, sentimo-nos incapazes de acreditar que Deus poderia ter uma vida nova reservada para nós. «Nada pode mudar – costumamos dizer. – Não há esperança.» Nesses momentos, acabamos por ficar atolados no desespero, o que, às vezes, pode ser um reflexo de orgulho. Ou seja, nós pensamos que sabemos mais do que Deus, o que será uma maneira de dizer: «Deus não tem poder para mudar esta situação»



É por isso que os cristãos falam do encontro com Deus na cruz. Ao ignorar ou ao não abraçar a cruz perdemos oportunidades de conhecer Deus de uma forma mais profunda. A cruz é, muitas vezes, o lugar onde nos encontramos com Deus, porque a nossa vulnerabilidade pode tornar-nos mais abertos à sua graça. Muitos alcoólicos em recuperação apontam a aceitação da sua doença como o momento em que começaram a encontrar uma nova vida. Por isso, Thomas Merton pôde escrever: «Deus ensina-nos através da tribulação. As pessoas mais infelizes do mundo são aquelas que não conhecem tribulações».

Quinto, muitas vezes o dom de Deus não é aquilo que nós esperamos.Maria Madalena descobriu isso no domingo de Páscoa. E – tal como Maria – por vezes precisamos de um certo tempo para apreender que aquilo que estamos a experimentar é uma ressurreição. Mais tarde, como veremos, os outros discípulos terão muita dificuldade em reconhecer Jesus. Como os Apóstolos descobriram na Páscoa, a ressurreição também não se dá quando nós esperamos. Pode levar anos até que chegue. E, geralmente, é difícil de descrever, porque é a sua ressurreição. Poderá não fazer sentido para as outras pessoas. (...)

Finalmente, com Deus, nada é impossível. É essa a mensagem a que eu volto com maior frequência. No primeiro dia da semana, o Evangelho de João diz-nos que a maioria dos discípulos estava escondida, à porta fechada, por medo. Depois de Sexta-feira Santa, os discípulos estavam aterrorizados. Anteriormente, na Quinta-feira, Mateus e Marcos referem que todos eles tinham fugido do jardim, cheios de medo. Nessa mesma noite, Pedro negou conhecer Jesus. Se os discípulos já tinham medo, antes de Jesus ter sido condenado à morte, imaginem as suas reações depois de o terem visto ser arrastado pelas ruas de Jerusalém, ser pregado a uma cruz e ficar suspenso nela até morrer. O seu líder fora executado como inimigo do Estado. (...)

Muitas vezes, sentimo-nos incapazes de acreditar que Deus poderia ter uma vida nova reservada para nós. «Nada pode mudar – costumamos dizer. – Não há esperança.» Nesses momentos, acabamos por ficar atolados no desespero, o que, às vezes, pode ser um reflexo de orgulho. Ou seja, nós pensamos que sabemos mais do que Deus, o que será uma maneira de dizer: «Deus não tem poder para mudar esta situação.» Que caminho escuro e perigoso é o desespero, muito mais escuro do que a morte!

Quantos de nós acreditam que certas partes das nossas vidas estão mortas? Quantos acreditam que certas partes da nossa família, do nosso país, do nosso mundo, da nossa Igreja, não podem voltar à vida? Quantos de nós nos sentimos privados da esperança de mudança?

É nesses momentos que eu me volto para a ressurreição. Muitas vezes, volto-me para a imagem dos discípulos aterrados, escondidos atrás de portas fechadas. Nós não somos chamados a viver nessa sala. Somos chamados a sair dos nossos esconderijos e a acompanhar Maria, chorando, por vezes, sempre à procura, e, por fim, ofuscados pela madrugada da vida nova de Jesus – surpreendidos –, encantados e comovidos de alegria. Somos chamados a acreditar naquilo que ela viu: Jesus está ressuscitado.



 

James Martin, S.J.
In "Jesus - Um encontro passo a passo", ed. Paulinas
Publicado em 20.04.2017

 

 
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