Pastoral da Cultura em movimento
Fé e Cultura

Igreja e contemporaneidade

O sentido de “contemporaneidade”

1. A contemporaneidade pode ser “física” e “psicológica”. Todas as pessoas e instituições existem num tempo concreto, que partilham com todos os outros e que constitui o enquadramento temporal do seu existir e agir. Nesse sentido nenhuma realidade pode deixar de ser “contemporânea”, no sentido em que existe num tempo concreto, onde interage com todas as outras realidades.

A “contemporaneidade psicológica” supõe a inteligência e a liberdade, a capacidade de transformar o “tempo físico” em “tempo humano”, discernir o sentido das coisas. O “tempo psicológico” é o lugar da cultura através da qual o homem dá sentido à vida e à história, capta a inevitável inter-penetração do passado e do futuro com o presente histórico. O “tempo psicológico” supõe uma leitura cultural do “tempo físico”, onde a herança do passado não se renega e as “utopias” de um futuro desejado e procurado, ultrapassam a fisicidade do tempo. A cultura proporciona uma “leitura crítica” do tempo físico. O homem é a sua medida, pois só ele consegue harmonizar a perenidade do seu mistério com a precariedade do tempo que passa. A essa harmonia, vivida não apenas individual mas comunitariamente, chamamos civilização.

Tanto a recusa do “tempo físico” como a sua absolutização, como se toda a compreensão do homem a ele se reduzisse, são limites da cultura e da liberdade. O tempo humano é, necessariamente, psicológico, porque introduz na interpretação do tempo que passa, as lições da tradição e a utopia da esperança. Só neste contexto tem sentido definir a “contemporaneidade” da Igreja. É por isso que o Concílio Vaticano II nos lançou o desafio de ler no tempo que passa, “sinais dos tempos”, isto é, portas abertas à esperança da salvação.

 

A contemporaneidade de Jesus Cristo

2. Se Cristo não tivesse ressuscitado dos mortos, a sua contemporaneidade aos tempos que se sucederam ao seu ficaria reduzida à ténue afirmação da memória que dele guardasse a história. É o sentido dramático da afirmação de Paulo aos cristãos de Corinto: se Cristo não ressuscitou dos mortos, a nossa fé é vã, somos os mais infelizes de todos os homens, se a nossa esperança n’Ele é apenas válida para o tempo da nossa vida (cf. 1Cor. 15,19).

Mas não, Cristo ressuscitou dos mortos, tornando-se definitivamente Vivo, contemporâneo de todos os tempos, até à eternidade. Cristo Vivo, em cada tempo, marca, de forma decisiva, a maneira de viver o tempo presente para aqueles que acreditam na sua ressurreição, e que O têm como companheiro de viagem, sujeito de amor, Mestre de vida, força da liberdade. Viver o tempo que passa, com Cristo Vivo, é, de certo modo, sentir-se contemporâneo de quantos O amaram e com Ele conviveram, e dos que, na glória da eternidade, já alcançaram a plenitude da vida. É por isso que Cristo ressuscitado é o centro da história e chave do sentido de todo o tempo humano, que vivendo corajosamente o “tempo presente”, nunca fica dele prisioneiro. Só esta contemporaneidade está à altura da grandeza do homem.

 

A contemporaneidade de Jesus Cristo define a contemporaneidade da Igreja

3. A Igreja é a casa onde Cristo vive, é o seu Povo, a sua comunidade de amigos e de irmãos. Só Ele torna possível, através da força do seu Espírito que nos comunica, que a Igreja seja essencialmente a mesma em todos os tempos e procure ser corajosamente contemporânea dos seus contemporâneos. Sem a densidade da convivência com Cristo ressuscitado, a Igreja, mesmo que perdurasse no tempo, correria seriamente o risco de ser diferente em cada tempo. Inventada e rejeitada por cada geração, deixaria de ser testemunha da perenidade humana e arauto da esperança da verdade definitiva do homem. Aliás é isso que pedem à Igreja, em cada tempo, no nosso tempo, aqueles que não têm a experiência exigente e libertadora de conviver com Cristo Vivo, tão do nosso tempo como de todos os tempos.

À Igreja de que somos membros pertence também Jesus Cristo. Ele é o Senhor da Igreja e torna-a um corpo vivo através do Seu Espírito. Nós pertencemos à Igreja porque estamos vitalmente unidos a Cristo Vivo, fazemos com Ele um só corpo, partilhamos a mesma vida. Esta união vital com Cristo. Inicia-se, em cada cristão, no sacramento do batismo que se torna, assim, na porta de entrada na Igreja, e exprime-se continuamente na Eucaristia, partilha de vida com Ele, onde a precariedade do nosso tempo presente toca a plenitude do tempo definitivo. Afirmação sublime da contemporaneidade de Jesus Cristo, a Eucaristia é também a fonte da verdadeira contemporaneidade da Igreja aos homens de cada tempo.

 

A contemporaneidade da Igreja é um desafio ao tempo presente

4. Conhecemos todos as críticas dirigidas à Igreja por não se “atualizar”, não se adaptar ao tempo que passa. É a atitude de quem gostaria de reinventar a Igreja em cada momento da história. Esta exigência tem, na base, a falta de fé em Cristo ressuscitado, contemporâneo de todos os tempos e, consequentemente, a dificuldade, ou mesmo impossibilidade, de aceitar modelos e critérios de vida que são suscitados pela relação viva com Cristo Vivo. Só Ele é verdadeiramente transversal a todos os tempos, garantindo a única fonte sólida da unidade da história humana.

Aqueles que exigem à Igreja que ela se adapte aos critérios do tempo presente, negam, talvez inconscientemente, a dimensão transcendente da Igreja e a visão do homem e da história que ela encerra. Têm dificuldade em conciliar o presente com a Tradição, em harmonizar o tempo histórico com a eternidade, em aceitar como modelo de vida aquela que está em plenitude em Jesus Cristo, nos é anunciada pela sua Palavra e comunicada pelo seu Espírito, que torna a vida do momento que passa em “primícias” da vida em plenitude, apenas anunciada e prometida.

A Igreja não pode desconhecer as exigências do tempo presente, pois elas encerram o drama dos homens concretos. O Concílio afirmou que as suas alegrias e dramas são-no também da Igreja (cf. Gaudium et Spes, n.1). Mas a Igreja só pode ser profundamente contemporânea dos homens, se for fiel à contemporaneidade com Jesus Cristo e a sua mensagem tem de conter sempre a densidade do ultra-temporal, porque é mensagem perene de eternidade. A contemporaneidade da Igreja tem a densidade da profecia: ao mesmo tempo que abraça todos os anseios do coração humano, denuncia todas as manifestações de um corte com a perenidade da mensagem e com o horizonte da eternidade que, longe de desvalorizar o momento presente, lhe revela o horizonte pleno do seu sentido.

Analisaremos, a seguir, alguns aspetos mais cruciais desta denúncia profética, terreno da afirmação da fidelidade da Igreja, mas também ocasião da sua infidelidade e do seu pecado.

 

A Tradição enquanto expressão da contemporaneidade da Igreja

5. A fidelidade da Igreja ao tempo que passa é iluminada pela Tradição, que não é uma simples memória do passado, mas a expressão da contemporaneidade de Jesus Cristo a todos os tempos, traduzida na fidelidade da Igreja e dos cristãos na vivência da fé em todas as circunstâncias históricas.

Toda a cultura integra, necessariamente, a memória histórica. A cultura não se esgota, nem pode ficar prisioneira, do tempo que passa. Absolutizar o presente em termos de valores e de compreensão da vida e da história é negar a cultura enquanto expressão da alma de uma comunidade. É assim na arte, na definição dos valores éticos, no aprofundar o sentido da vida humana e da sua dignidade, no caldear da identidade de um Povo.

Mas a Tradição é mais do que o “preservar da memória”: é a afirmação da atualidade perene de Jesus Cristo, transversal a todos os tempos. O próprio texto sagrado, a que chamamos Escritura, é expressão de uma Tradição viva, porque o desígnio amoroso de Deus, vivido no concreto da história de um Povo, quer se trate do “Povo escolhido” do Antigo Testamento, quer da Igreja, “Povo que o Senhor reuniu”, é o mesmo em todos os tempos, podendo ser surpreendentemente novo, nas suas expressões, em cada tempo. É por isso que a Igreja relê continuamente, com a surpresa da atualidade, as expressões da fé e da fidelidade das grandes testemunhas cristãs, os Padres, os Doutores, os Pastores, os Santos. É, para nós fonte de uma certeza consoladora o identificar a unidade da mesma fé em todas essas gerações de irmãos nossos, que pertencem ao mesmo “Corpo de Cristo”, que é a Igreja. Sentimo-los nossos contemporâneos, apesar das diferenças do tempo em que viveram. Eles são, para nós, testemunhas da fé, no combate da fidelidade que eles venceram no seu tempo e nós estamos a travar no tempo que estamos a viver. Negá-los ou esquecê-los seria reduzir a Igreja, enquanto processo de fé vivida, ao efémero do tempo presente.

Na fidelidade à tradição, os indivíduos relativizam-se, identificando-se com o “Povo de crentes” a que pertencem. Só o “Eu” da Igreja, como Povo de Deus, é o verdadeiro sujeito de acolhimento e receção da Tradição. Por mais que isso choque e interpele a consciência e a liberdade individuais, só a Igreja pode receber a Tradição e exprimir a sua atualidade na iluminação da liberdade individual de cada um. Perante a Tradição cada um sente a sua pequenez, encontrando a sua grandeza no facto de ser membro de um “Povo de crentes”, que atravessa os tempos, na fidelidade à atualidade de Jesus Cristo.

Numa sociedade e numa cultura profundamente marcadas pelo “mito” do tempo presente e pela absolutização da liberdade individual, como se cada indivíduo pudesse decidir do sentido da história, esta fidelidade à Tradição torna densa e de difícil afirmação a contemporaneidade da Igreja e da sua adaptação às características do tempo que passa. Por isso afirmámos atrás que a fidelidade à Tradição é um dos campos onde se exprime a fidelidade da Igreja, que só pode ser fidelidade a Jesus Cristo, Ele que é de ontem, de hoje e de todos os tempos, para a eternidade. E nesta luta pela fidelidade há “pecados” em que a Igreja pode cair: o primeiro é ousar dar respostas aos problemas contemporâneos, desligadas dessa densidade da Tradição, respostas fáceis de ouvir, que pretendem ir ao encontro de reais problemas humanos, tantas vezes sugeridas pelas análises, pela mediatização em que vivemos, mas que arriscam “esvaziar a Cruz de Cristo”, contra as quais clamam o sangue dos Mártires e a coragem dos confessores.

Mas a Igreja pode incorrer noutro desvio: em nome da Tradição, vista mais como fidelidade ao passado, não arriscar respostas novas aos problemas do homem contemporâneo. A fidelidade à tradição não impede, necessariamente, a busca de novos caminhos de fidelidade. No fundo foi isso mesmo que o Concílio Vaticano II sugeriu ao dizer que a Igreja deve, em cada tempo, ler os “sinais dos tempos”, para poder traduzir no realismo dos problemas atuais, as respostas evangélicas de sempre. Mas também aí é preciso ter a coragem de perceber e a humildade para aceitar que o sujeito dessa tradução nos problemas presentes da Tradição viva, só pode ser a Igreja e não cada cristão individualmente.

 

O tempo presente abraçado pela eternidade

6. Por quanto acabámos de afirmar, ficou claro que a Igreja é também contemporânea do tempo definitivo que há-de vir, não apenas do “amanhã” humano e histórico, mas do tempo definitivo, já expresso na plenitude de Jesus Cristo. A contemporaneidade da Igreja inclui sempre um tempo que ainda não conhecemos no pormenor, mas de que já experimentamos as “primícias”, na nossa união a Cristo Vivo e na experiência da caridade. A Igreja também é contemporânea da eternidade, dos “novos céus e nova terra”. Na sua forma de ser contemporânea a Igreja abraça a eternidade, pela sua união a Jesus Cristo, em Quem experimenta as “primícias” do “tempo novo”; porque dela fazem parte, de corpo inteiro, aqueles que, tendo morrido para este tempo, convivem com Cristo, na vida em plenitude; porque todo o cristão pode, ao viver neste mundo, dar à sua vida a densidade da vida eterna. Para ser contemporânea, a Igreja tem de ser este grito de eternidade, na sua fé em Deus e em Jesus Cristo morto e ressuscitado, na coragem de celebrar a Eucaristia, na ousadia da caridade. E isso marca, irremediavelmente, a contemporaneidade da Igreja, porque afirma a transitoriedade precária da vida presente, como momento de uma peregrinação para a luz, e decide radicalmente do sentido último de todas as coisas. Não vale a pena disfarçar: somos discípulos d’Aquele que venceu a morte e inaugurou, para o homem, o tempo definitivo de Deus. E este dado radical, se pode unir os cristãos no realismo de um povo peregrino, põe-nos em confronto com todas aqueles, pessoas, ideologias e culturas, para quem o tempo presente se esgota na morte e não são capazes de integrar o tempo e a eternidade.

Num mundo e numa civilização onde se confessam ateísmos, se fazem “confissões” de agnosticismo, e se vive num imediatismo pragmático que gera um “ateísmo prático”, onde muitos cristãos são pouco coerentes com a densidade de eternidade que a sua fé encerra, este abraçar da eternidade na compreensão do tempo presente é a verdadeira fronteira entre a fé e a descrença. As realidades humanas cruciais, o nascimento e a morte, o mistério da vida e a sua dignidade, o amor e a liberdade, a justiça e a busca da paz, decidem nessa fronteira o seu sentido. Não vale a pena procurar integrar sociológica e culturalmente a Igreja no tempo presente, se não se aceita que ela é, na sua ação e na sua voz, esse grito de eternidade.

 

O desafio da liberdade

7. É difícil definir a liberdade: ela é autonomia, capacidade de escolha e de decisão, santuário da consciência, criatividade, dinamismo de descoberta da vida. A liberdade define o homem, marca a sua especificidade e diferença em relação a todos os outros seres da criação. A liberdade é a afirmação suprema da dignidade do homem. Deus só podia criar o homem livre, porque o quis sujeito de uma relação de amor, e só os seres livres podem amar e deixar-se amar, porque o amor é a expressão mais pura da liberdade.

Na sua dimensão existencial a liberdade exprime-se no seu exercício e este é, como toda a história, dramático e dialético. O amor e o ódio, a generosidade e o egoísmo, o abandono à beleza e apetite voraz com que se desfruta a vida, a harmonia e a violência, a paz e a guerra tecem a teia do drama da liberdade. A própria história bíblica, a que chamamos história da salvação, é o imenso drama da eleição rejeitada e do amor recusado, mas também da obediência humilde dos “servos” que aceitaram tomar a vida para a oferecer, servindo.

Neste vasto drama do exercício da liberdade que é a história da humanidade, dá a ideia que a Igreja, em muitas circunstâncias, lidou mal com as diversas expressões da liberdade, e isso levou muitos a desconfiar da capacidade da Igreja de ser contemporânea, de se abrir aos tempos novos. Foi a liberdade da ciência, que chocou aqueles que tinham uma visão fixista da explicação do universo e que na sua exploração progressiva dos segredos do universo e da vida, obriga a reformular afirmações doutrinais. Sendo um meio para aprofundar a verdade sobre o mundo e sobre o homem, a ciência tem na dignidade da pessoa humana a sua razão de ser e o seu condicionamento ético. Este aspeto ainda hoje é problema para a afirmação da contemporaneidade da Igreja.

Foi a liberdade política, na base da evolução das doutrinas sobre a sociedade e causa da mudança de regimes, de estruturas de poder e de alterações nas formas organizativas da sociedade. Nem sempre a Igreja lidou bem com as consequências da liberdade política, que progrediu, mais na base de ruturas do que de consensos. A liberdade política trouxe ao exercício da liberdade um dado novo: a necessária harmonia entre a liberdade individual e a liberdade coletiva dos povos e das comunidades. A noção de “pessoa jurídica” levou tempo a solidificar-se e ainda hoje o aferir das escolhas livres do “eu coletivo” é delicado e problemático. Supõe o desenvolvimento cultural do princípio da prioridade da responsabilidade coletiva e comunitária sobre os direitos individuais.

Foi a liberdade religiosa, a expressão mais sagrada da liberdade de consciência, a base inalienável do direito de ter uma fé e de a praticar. Ao longo da história a Igreja não ficou isenta de “pecados” contra esta expressão da liberdade. Entre nós a ambiguidade da reconquista cristã em ambiente de cruzada, a imposição da conversão dos judeus ao cristianismo e a violência sobre esses “cristãos novos”, são páginas a exigirem o arrependimento e a purificação da memória. Normalmente foram os contextos históricos e os condicionamentos políticos que dificultaram o respeito por esta expressão da liberdade. E no mundo de hoje estamos a viver um momento em que mais uma vez os acontecimentos políticos e sociais podem trazer dificuldades acrescidas ao respeito pela liberdade religiosa. Ainda não respeitada em muitos países do mundo, pode ser posta em questão mesmo por aqueles que a afirmam, devido à ambiguidade de certos processos políticos em curso, entre os quais o terrorismo organizado é o mais preocupante.

Em todos os tempos pôs problemas à Igreja a autarcia moral da liberdade individual. Ela relativiza valores morais e modelos de verdade e de bem, com origem no Evangelho e tornados valores comunitários pela cultura que informaram. A liberdade sexual, o direito ao aborto, a relativização da família e a precariedade do vínculo matrimonial, a equiparação da relação homossexual à relação heterossexual, a desonestidade económica, etc., são expressões atuais da liberdade individual, tantas vezes favorecidas por políticas e correntes de opinião e que a Igreja rejeita como expressões válidas da liberdade e que trazem a tal densidade dramática à contemporaneidade da Igreja. Esta só pode proclamar, com a Palavra e com o testemunho dos cristãos, horizontes mais exigentes e mais belos do exercício da liberdade.

8. Porque é que, nestes casos, como noutros, a Igreja parece lidar mal com as diversas expressões da liberdade? O cristianismo surge na história como um processo libertador. “Foi para a liberdade que Cristo vos libertou”, ensinava São Paulo; e segundo o próprio Cristo, a adesão à verdade é um caminho para a liberdade.

A primeira causa deste mal-estar encontramo-la, antes de mais, na compreensão da própria liberdade como caminho de vida. Para o cristianismo a liberdade é a capacidade de adesão ao bem e à beleza. Antes de optar, o cristão deixa-se atrair, pelo bem, pelo belo, pela verdade, pelo amor, por Deus. E a fonte dessa capacidade de mergulhar na verdade e na beleza, é um coração liberto. A libertação do homem começa na renovação do coração, um “coração novo”, como anunciavam já os Profetas do Antigo Testamento. Aí reside a precariedade das políticas e processos de promoção das liberdades: não se cuida, pela educação e pela cultura, da transformação e enriquecimento da interioridade. Na dimensão explicitamente religiosa do cristianismo esse é um processo de conversão contínua, conduzido pelo Espírito de Deus, que nos ensina a descobrir em Jesus Cristo o mais belo horizonte do exercício da liberdade.

Em segundo lugar temos de ter em conta que, para o cristianismo, há outros valores absolutos, que inspiram e, porventura, condicionam o exercício da liberdade, tais como a verdade, a justiça e o amor. E para os cristãos todos estes valores, na sua profundidade, são definidos a partir do coração de Deus e não da consciência individual. A verdade é-nos revelada, e está personificada em Jesus Cristo; a justiça supõe repor a verdade do homem, segundo o desígnio de Deus; e o amor divino é a fonte de todo o amor, sendo Cristo o seu modelo: “amai-vos como Eu vos amei”.

Continua a ser verdade que, numa cultura que absolutizou a liberdade individual, a relação da Igreja com a liberdade continua a ser página exigente do seu estar no mundo. É o contexto exigente da sua missão profética.

 

A visibilidade da Igreja

9. A contemporaneidade da Igreja afirma-se, também, na sua visibilidade no conjunto da sociedade. São Roberto de Belarmino, noutro contexto histórico, escreveu um dia que a Igreja é tão visível como a República de Veneza. Hoje não há, se é que alguma vez houve, uma identificação entre Igreja e sociedade. Mas a Igreja faz parte da sociedade, e tem um serviço a prestar na humanização. Afastados que estão, nos nossos dias, as tentações do poder e do domínio político, abre-se um campo imenso para uma visibilidade da Igreja no campo de serviço. Apesar de haver forças que gostariam de apagar, na sociedade, todos os sinais visíveis da visibilidade da Igreja, a Igreja tem de lutar por garantir esta visibilidade e exprimi-la no diálogo cultural, no abraçar das grandes causas da cidade, no serviço desprendido, sobretudo dos mais desfavorecidos, na celebração da liturgia, como ato público de louvor de Deus, rezando e ensinando a rezar, sendo testemunho vivo do amor a Deus e aos irmãos, porque o amor é a mais bela expressão da liberdade. A visibilidade da Igreja é o campo da sua missão e da sua vocação de serviço.

D. José Policarpo
Cardeal Patriarca de Lisboa
04.09.2006

in Didaskalia

03.03.2009

 

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