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Diálogo fé-cultura

Pastoral da Cultura: tarefa dos leigos e dos pastores

Um arcebispo americano com quem convivi nos tempos do Concílio, D. Fulton Sheen, fez-me um dia este sábio comentário: "Nos Estados Unidos não há mais de 100 pessoas - diz ele - que detestem a Igreja Católica. No entanto, alguns milhões detestam aquilo que imaginam ser, erradamente, a Igreja Católica."

Com uma linguagem diferente, o futuro Cardeal Henri de Lubac (...) publicou no seu livro Catholicisme de 1936: "se tantos observadores, que não são de todo desprovidos de perspicácia nem de espírito religioso, se enganam tão profundamente sobre a essência do catolicismo, não será isto um indício de que os católicos deveriam fazer um esforço para melhor se compreenderem a si mesmos?"

Uma pastoral da cultura aparece desde logo como decisiva, uma vez que é no diálogo franco e sincero com as culturas que a Igreja de Cristo se pode fazer entender pelo espírito moderno e apresentar-se a si mesma como uma fonte, um oásis refrescante.

Um dos grandes desafios do nosso tempo é, sem dúvida alguma, o da transmissão da fé, transmissão fiel da mensagem evangélica, numa linguagem que se possa fazer entender pelos nossos contemporâneos. Foi por essa razão que o Conselho Pontifício para a Cultura publicou um documento, Para uma pastoral da cultura, que se apresenta como um instrumento pastoral para ser utilizado pelos pastores e formadores sociais para responder aos "sinais dos tempos".

Assinando o dito documento, no dia 23 de Maio de 1999, eu exprimia o desejo do Conselho Pontifício para a Cultura de responder ao pedido insistente que o Papa João Paulo II nos endereçou: "Deveis ajudar toda a Igreja - são estes os termos utilizados na sua Carta autógrafa que institui o Conselho Pontifício para a Cultura, datada de 20 de Maio de 1982 -, a responder a estas questões fundamentais para as culturas actuais: como tornar acessível às novas culturas a mensagem da Igreja, dadas as formas actuais da inteligência e da sensibilidade? De que modo a Igreja de Cristo se pode fazer compreender ao espírito moderno, tão orgulhoso das suas realizações e simultaneamente tão inquieto com o futuro da família humana?"

Trata-se, para as Igrejas Locais, conduzidas pelos seus pastores, de ler os sinais dos tempos, de avaliar os desafios que se apresentam à nova evangelização, e de responder a esses desafios com o anúncio da Boa Nova no coração das culturas. É precisamente neste sentido que se realiza a missão do Conselho Pontifício para a Cultura, que o Papa João Paulo II caracteriza do seguinte modo: "O Conselho manifesta a solicitude pastoral da Igreja face aos graves fenómenos da ruptura entre o Evangelho e as culturas". Ora, precisamente estes fenómenos de ruptura chamam a atenção do "laboratório" ou do "observatório" do qual eu asseguro a presidência, e conduzem à observação dos sinais dos tempos para transmitir a fé, tendo em conta os seus pontos de contacto com a cultura ou, mais precisamente, com as culturas do nosso mundo em mutação na aurora do novo milénio. É uma das lições que se destacam do vasto inquérito que eu lancei em todo o mundo sobre a incredulidade e a indiferença hoje, as suas causas e os seus efeitos e as pastorais a encetar para fazer frente a estes fenómenos.

A época em que vivemos é caracterizada por perturbações cujas repercussões são enormes na vida dos homens e das mulheres de todas as regiões do mundo. O Concílio Vaticano II constata que entrámos numa nova etapa da história humana, e precisa mesmo que os tempos são favoráveis a uma nova evangelização. Na realidade, a Igreja evangeliza sempre: ela nunca interrompeu o decurso da sua evangelização. O seu impulso missionário, desde a origem nos tempos apostólicos, não cessa de se renovar, pois os novos desafios aparecem sem cessar e estimulam a procura de novos caminhos de evangelização. São estes novos caminhos de evangelização da Igreja que caracterizam a nova evangelização. (...)

O Concílio Vaticano II convidou a Igreja a um aggiornamento: não se trata de adaptar o Evangelho ao mundo, mas sim de adaptar as nossas linguagens para que a eterna verdade da Revelação encontre os homens e as mulheres do nosso tempo, no próprio coração das suas culturas. O conhecimento das mutações culturais convida a um discernimento. É, com efeito, à luz de fé, alimentada na mesa da Palavra de Deus, que os pastores e o conjunto dos fiéis são chamados a "procurar com atenção os sinais de Deus e os apelos da sua graça através da diversidade dos acontecimentos da existência". (...)

Gaudium et spes, luctus et angor... [As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias...] Estas primeiras palavras da Constituição pastoral sobre a Igreja deste tempo são reveladoras dos sentimentos que habitam a Igreja de hoje. O amor pelo homem demonstrado nestes dois milénios, que é como o amor de uma mãe e de uma mestra, Mater et Magistra, fez-se acompanhar de inquietude.

O Venerável papa Paulo VI, do qual eu tive o grande privilégio de ser colaborador na Secretaria de Estado, disse-o no seu memorável discurso, na abertura da Segunda Sessão do Concílio: "Ao olhar para a vida dos homens de hoje, tal como é, dever-nos-íamos sentir mais temerosos que tranquilos, mais aflitos que alegres, mais impelidos à defesa e à condenação do que à confiança e à amizade".

A expansão do divórcio e o recurso a uma nova união da parte dos próprios fiéis, a aceitação do matrimónio meramente civil, em contradição com a vocação baptismal, a celebração muito difundida do sacramento do matrimónio sem fé viva, a recusa de normas morais que dirijam a vida e orientem o exercício da sexualidade no matrimónio, são também resistências ao testemunho do Evangelho e um apelo urgente a uma renovação da evangelização das famílias, essa célula fundamental da Igreja e da sociedade humana.

São Paulo, com o qual tenho a honra de partilhar o nome, "perscrutador" atento dos sinais dos tempos e apóstolo intrépido da Boa Nova do Evangelho, pede a Timóteo que insista oportuna e inoportunamente: "Prega a palavra, insiste em todas as ocasiões, favoráveis ou não, repreende, censura, exorta com toda a paciência e doutrina" (2 Timóteo 4, 2). É que, apesar das sombras que tendem a dissimulá-los, os sinais de esperança florescem e estimulam-nos. (..)

Como presidente do Conselho Pontifício para a cultura, chamo a atenção para uma afirmação belíssima do papa João Paulo II, afirmação esta que se inspira no Concílio: "Uma fé que não se torne cultura é uma fé que não foi plenamente acolhida, inteiramente pensada e fielmente vivida". (...)

A pastoral da cultura exige uma formação sólida, que se insira numa vida autenticamente cristã, alimentada na mesa da Palavra e da Eucaristia. Se esta pastoral da cultura é antes de mais tarefa dos leigos, ela não se pode realizar sem o auxílio e o impulso de pastores desejosos de promover o reencontro e o diálogo entre todas as componentes da cultura e a fé da Igreja. Os pastores do Evangelho, neste início do terceiro milénio, são chamados à coragem da inteligência e do testemunho e a tomarem consciência da urgência de uma autêntica evangelização das culturas através de uma fecunda inculturação do Evangelho.

 

Card. Paul Poupard
Primeiro presidente do Conselho Pontifício da Cultura
In Novellae Olivarum, Fevereiro 2003
27.01.10

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Card. Paul Poupard
Presidente emérito do
Conselho Pontifício da Cultura



















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