
Portugal, de Novo
Aproximam-se as comemorações do centenário da implantação da República em Portugal. A Igreja Portuguesa não vai alhear-se desse acontecimento, aliás estará presente em diversas entidades que serão responsáveis pelas comemorações, mas está mais preocupada em contribuir para uma reflexão sobre o país, os problemas que o afectam, cem anos depois da instauração da República e os desafios que enfrenta, no início deste século XXI. Nesse âmbito, muitos organismos da Igreja poderão dar um bom contributo e promover uma salutar reflexão sobre o Presente e o Futuro do nosso País.
Entre as diversas Comissões da Conferência Episcopal Portuguesa, há uma que acompanha as problemáticas dos Bens Culturais, das Comunicações Sociais e da Cultura. No âmbito da Cultura, essa Comissão vai reflectir durante os próximos anos sobre a temática “Portugal, de Novo”. Pretende-se com esta reflexão ultrapassar velhos equívocos do passado, superar crispações entre católicos e certas mentalidades republicanas mais radicais, que não respeitam as características próprias da Igreja e do seu agir, e contribuir com propostas para um Portugal melhor.
D. Manuel Clemente, bispo do Porto e responsável por essa Comissão, deu o mote para esse caminho que se irá percorrer, com uma reflexão intitulada “Costurar o Presente com as linhas do Futuro”. Apresentou essa sua abordagem às comemorações da República, perante representares de quase todas dioceses do país, que estiveram reunidos em Fátima, no 5.º Encontro Nacional de Referentes da Cultura.
O bispo do Porto contextualizou a implantação da República no movimento mais amplo que se iniciou com a consolidação dos ideais liberais e dos valores da Revolução Francesa, cem anos antes da República. Todo esse movimento entra agora numa fase preocupante de um “libertalismo”, caracterizado pela exacerbação da liberdade individual, desligada de qualquer responsabilidade social, vivida num contexto efémero e sentimental.
Um dos principais equívocos que D. Manuel Clemente procurou desfazer na sua exposição foi o de que os católicos, na sua globalidade, se opuseram tanto ao liberalismo como à República, o que não é verdade. Muitos conseguiram “dialogar com a sociedade liberal em cujo espírito em parte participavam” como vários “apreciaram a República como regime” e continuam a apreciar, desde que ela respeite as características próprias da Igreja, com a sua identidade “hierárquica e transnacional”.
Os católicos não podem ficar indiferentes a determinadas correntes, marcadas por algum radicalismo liberal e republicano, que rejeitam qualquer tipo de crença religiosa, a consideram própria de espíritos fracos ou incultos e a querem remeter para o mais recôndito
da vida privada de cada um, sem qualquer tipo de manifestação pública. Também não podem
aceitar que o Estado não respeite a sua liberdade de culto e de organização. Mas, nenhum se deve
escusar a colaborar com católicos e não católicos, na “regeneração” do país, como se defendia na República. Então esse ideal passava “pela generalização da educação e da participação cívica e política, pelo desenvolvimento económico e pela reafirmação de Portugal no mundo”.
Cem anos depois ainda muito há a fazer nessas áreas. Mas, nas vésperas das comemorações da República, outros novos desafios se colocam ao país e aos católicos. D. Manuel Clemente elencou os seguintes: “individualismo “pós moderno” na cultura, retraindo as expectativas à compensação imediata de cada qual; e grande frustração social e económica, na presente crise global”.
Calado Rodrigues
Referente da Pastoral da Cultura na Diocese de Bragança-Miranda
12.02.2009
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