Pedras angulares
Epifania

Deus fez bem-aventurada a pobreza que é miséria

Começando pela pobreza: este nome tão mal avaliado entre os homens tem duas significações. Há pobreza, diz Santo Agostinho, que é virtude e pobreza que é miséria. A pobreza que é virtude, é a pobreza voluntária, com que se desprezam todas as coisas do mundo. A pobreza que é miséria, é a pobreza forçada, com que se carece dessas mesmas coisas e se padece a falta delas.

Suposta esta divisão em que não há dúvida, duvido agora e pergunto: Se a pobreza que é miséria, é também bem-aventurada ou não? A pobreza que é virtude, essa é a canonizada por Cristo, e a essa se promete o reino do céu: Beati pauperes spiritu, quoniam ipsorum est regnum coelorum.

Porém a pobreza que é miséria, à qual nem se prometem os bens do céu, nem ela possui os da terra, antes padece a falta de todos, parece que não pode ser bem-aventurada. Mal-aventurada sim, porque para essa pobreza não há ventura: mal-aventurada sim, porque todos a desprezam e fogem dela: mal-aventurada sim, porque ainda para se conservar na mesma miséria há-de pedir e depender da vontade alheia, que é a sorte mais triste.

Contudo, tal é a bondade de Deus e tão larga a imensidade da sua providência, que até a pobreza que é e se chama miséria fez bem-aventurada. E porquê ou de que modo? Transformando-se Cristo a si mesmo em todos os pobres do mundo. De sorte que os pobres da pobreza que é virtude são bem-aventurados, porque hão-de ver a Deus; os pobres da pobreza que é miséria são bem-aventurados, porque neles está Deus.

P. António Vieira

07.01.2009

 

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