
Jesus pobre nasceu para os pobres
Divina luz e rica bondade desta pobre alma, ouvi, Senhor meu, e respondei ao interior desta alma: falai-me, palavra eterna de Deus, e ensinai meu desejo, que de vós quer aprender. Por ventura, Senhor, estando tão enjeitador de tudo, e tão amigo de viver de tudo minguado, lançais também meu coração, e quereis também viver pobre dele? Ah, coração de meu coração; ah, alma da minha alma, ah, vida da minha vida, este meu cego coração me diz que não, e não mo diz, senão porque vós lho ensinais. De tudo vos despejais, para que eu só tenha entrada, de tudo vos sacudis para estar despejado para mim, De tudo vos fazeis pobre, para que este coração supra o lugar de todas essas mínguas. De mim vos quereis manter, de mim vestir-vos, em mim reclinar-vos, de mim satisfazer-vos, quando tudo vos falta.
Para isso sois pobre, para que todo o pobre coração cuide que pode ser vossa choupana e gasalhado, Vinde, Jesus meu, vinde pobre meu, reclinai aqui vossa cabeça neste pobre coração. Agasalhai-vos no ninho desta alma. Lembrai-vos, Senhor, que quando vivíeis no mundo tão pobre, Mateus publicano vos convidou à mesa de pecadores, tão pobres como eu de vossos bens, e entre eles aceitastes, tão contente, gasalhado, que vos não dava dos grandes que vo-lo tachavam. Então Zaqueu pecador desejou de vos ver, e para que vos visse à sua vontade, vos oferecestes a ir receber seu gasalho, e santificastes aquela casa. A Madalena vos foi buscar uma vez à casa alheia donde foi santificada, e vós daí por diante a sua buscáveis já como vossa. Quando tudo enjeitáveis, chamáveis a todos os carregados, todos os embaraçados, todos os apartados de vós, com promessas que a todos recrearíeis. Só de ser amado de nossos corações estais faminto e desejoso; e de tudo o mais (para isso) falto e minguado.
Pois Senhor, quem me detém? Quem me tira não ter um lugar a par de vós? É verdade que não sou digno que vós entreis nesta alma, mas vós não tivestes conta com a minha baixeza para deixardes de me chamar a vós. E quando dissestes que na Cruz tudo leváveis a vós, não me tirastes a mim de fora. Pois Senhor, já que eu não sou menos vosso que todos estes, como a mais errado, e mais cego, que não sei onde e por onde hei-de ir, vinde vós a esta alma, que nesta hora vos deseja; e se há-de ser em alguma hora seja nesta; bastem minhas pobrezas e perdas passadas. Desta hora para sempre vos acompanhai com este coração. Ah, meu Senhor, e verdadeiro bem, olhai que nenhuma sorte de pobres enjeitastes nunca. Da santa pobreza nascestes, e Santo pobre vos criou, em casa pobre nascestes, e em pobre Cruz morrestes; pastores ignorantes e pobres escolhestes, e discípulos imperfeitos pobres chamastes; pecadores espiritualmente pobres conversastes, e entre dois ladrões pobríssimos de virtudes acabastes. Todas as pobrezas vos contentaram, e aceitastes por companheiras; umas para as exercitardes, e outras para curardes e enriquecerdes. Pois como posso eu ficar de fora? Eu sou mais pobre de bens que os ladrões; para vós sou pobre, para vós, bom Jesus, e para vossa companhia tenho já justa acção; recebei-me, pobre Senhor, à vossa companhia, curar-me-eis, enriquecer-me-eis, possuir-me-eis, e santificar-me-eis: amar-vos-ei, e em mim vos glorificareis.
Oh, meu pobre Senhor, e meu pobre Salvador, pobre vos vejo, mas não sei que sente este meu pobre coração, que não me posso apartar de vós, e não sei que grandezas vejo nesta vossa pobreza. Eu as adoro quanto posso, dai-me vós que as ame quanto devo. Tudo o de que vós estais pobre, empobrece as almas que o possuem com afeição desordenada. E os que por vosso amor nada têm, nem desejam, vós os tendes riquíssimos, e contentíssimos. As almas dos vossos pobres estão cheias de luz alumiadas em vossos segredos, sábias sem outro mestre senão o vosso espírito: riquíssimas de divinos bens, que se não podem dizer, nem cuidar; contentíssimas, sem cuidado que as perturbe; e em perpétua paz, e sossego, com corpos na terra conversam o Céu, e em corpos de barro têm vida e excessos angélicos. O gosto e o contentamento que os mundanos cegos buscam, e não acham, estes os têm. O senhorio de tudo, eles, sem ter nada, o possuem; a alteza de coração entre misérias terrenas, eles sós a conhecem e gozam. O poderio contra todo inimigo só eles como próprio o usam. Aos olhos do mundo bichinhos desprezíveis, aos vossos divinos são príncipes e senhores. Enfastiados e enjoados de quanto no mundo se estima, e sendo também para o mundo o mesmo fastio, sempre vivem em vossos espirituais banquetes, não querem outros manjares senão os celestiais.
Oh, quando, bom Jesus, desapegado de tudo, contente, rico de vós, alagado na abastança de vossas riquezas, vos dirá todo meu coração: Padre meu, riqueza minha, fartura minha, bem-aventurança minha? É verdade que sempre o sois de verdade, mas meu coração o não sente, senão quando lho vós fazeis sentir. Quando chega o vosso toque interior que tirais as névoas a esta alma, e gastais todos seus terrenos desejos, oh, com quão diferente conhecimento vos diz então sabendo, amando, e desejando o que diz: Deus meu, amor meu, riqueza minha, consolação minha, e toda minha satisfação. Porque então deveras gosta de vós como do seu, porque não tem outra coisa sua no coração senão a vós.

Jesus e Zaqueu. Mosaico na Basílica de S. Marcos, Veneza
Foge de mim, terra, deixai-me, terrenos pensamentos, afastai-vos de mim, amigos, cuidados, desejos, pouquidades terrenas, deixai-me abraçar com o meu pobre Jesus, com o meu pobre Jesus, com o meu amigo Jesus, com todo meu bem Jesus. Oh, oh, Jesus. Oh, oh, oh, Jesus! Oh, oh, meu, oh, amor meu!
Frei Tomé de Jesus (1529-1582/3)
17.12.2008
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