
Comentário ao Apocalipse
Apríngio, bispo de Beja nos tempos do réu visigodo Teudis (531-548), tem sido injustamente esquecido entre nós. Tal injustiça é posta a nu pelos termos elogiosos com que já S. Isidoro de Sevilha se refere à pessoa e obra do primeiro bispo conhecido de Pax Julia:
“Apríngio, bispo da Igreja Pacense das Hispânias, eloquente no uso da língua e erudito no saber, interpretou o Apocalipse do Apóstolo João com subtileza e estilo brilhante, quase melhor do que parece terem-no fito os antigos comentadores eclesiásticos. Escreveu ainda outras obras que, todavia, chegaram a nossos olhos apenas em mínima parte. Brilhou no tempo de Teudis, príncipe dos Godos”.
Dessas “outras obras de que fala S. Isidoro nada chegou até nós. Melhor sorte mereceu, porém, o Comentário do Apocalipse, que pode agora ser lido em português, numa edição científica. Neste artigo publicamos a meditação de Apríngio aos dez primeiros versículos do segundo capítulo do último livro da Bíblia.
[2,1] Escreve ao anjo da Igreja de Éfeso. Sob a denominação geral de anho, indica o número de todos os santos. Pela palavra Éfeso, que significa “vontade” ou “o meu conselho”, indica, como dissemos acima, a Igreja Católica a quem dirige estas palavras. Isto diz aquele que tem as seteestrelas na sua direita, e ainda no meio dos sete candelabros de ouro,, isto é, que contém na mão as almas de todos os justos e que caminha entre as maravilhas das suas Igrejas e avança na sua glória e se manifesta no esplendor da sua força. A essa Igreja diz:
[2,2] Conheço as tuas obras e o teu trabalho e tua paciência. Afirma conhecer o resultado das boas obras, o empenho e a perseverança do trabalho e do esforço espiritual com que enfrenta ou vence as tentações; e louva ainda a autenticidade da Igreja com o juízo da sua verdade. Dessa Igreja diz Isaías: “Alegra-te, estéril, que não dás à luz; entua cânticos de louvor e de júbilo, tu que não tinhas filhos, porque os filhos da desamparada são muito mais do que os daquela que não tem marido”. E sobre o labor da Igreja de Éfeso afirma: “Bem-avenutrados os que choram, porque serão consolados”.
Também a ela diz o Senhor, neste lugar: E porque não podes suportar os maus, e experimentaste os que dizem ser apóstolos, e não o são, e os achaste mentirosos
[2,3] e tens paciência, e sofreste pelo meu nome, e não desanimaste. Sem dúvida, está a referir-se aos hereges que se têm como doutores da verdade e não passam de obreiros da mentira perniciosa: clamam aos ventos a sua bondade e mostram-se piores que o demónio. Porém, a fé católica apercebe-se dos seus embustes e perversidade, e suporta com paciência muitos males que eles lhe infligem. Tudo isto suportou pelo nome de Cristo e a sua fé não foi abalada. Por meio do profeta e ainda sobre os hereges, diz à mesma Igreja: “Toda a arma fabricada contra ti não terá préstimo; e tu condenarás toda a língua que se apresente em juízo contra ti”.
[2,4] mas tenho contra ti que deixaste a tua primeira caridade. Toma colectivamente a pessoa dos pecadores, que se sujeitam a vários erros no meio da Igreja Católica, e mostra que entra em disputa com eles, porque esqueceram a anterior caridade da fé e se enredaram nas numerosas cadeias dos vícios. Em seguida, avisa-os e exorta-os:
[2,5] Lembra-te pois (do estado) donde caíste, e arrepende-te, e volta às tuas primeiras obras. De igual modo também o Senhor diz pelo profeta: “Aviva-me a memória, e juntos advoguemos em juízo a nossa causa; expõe, se tens alguma coisa para justificar”. Ao mesmo tempo que deseja que nos lembremos das quedas em que incorremos, admoesta-nos a não reincidirmos; e, de modo a obtermos a purificação das faltas que cometemos, mostra-nos o caminho que leva ao perdão, ao dizer: E arrepende-te, isto é, lava com as lágrimas os teus pecados: Foi assim que “aquela pecadora”, enquanto considerada como modelo da Igreja, “com as suas lágrimas banhou os pés de Jesus e enxugou-os com os seus cabelos”. Depois de ter feito penitência, urge com ela e admoesta-a sobre o que há-de fazer.
E volta às tuas primeiras obras: Ou ao que realizares com autêntica caridade, ou ao fervor da primeira conversão. De contrário, venho a ti, e removerei o teu candelabro do seu lugar, se não fizeres penitência. Que outra coisa é retirar o candelabro senão desviar o rosto e retirar o auxílio? Sem a atenção do Altíssimo, sem a protecção de Deus, é impossível que a nossa fé se mantenha firme. Por isso é que o profeta diz: “Abriste caminho largo aos meus passos, e não vacilaram os meus pés”. “E deste-me o teu escudo salvador”. E ainda: “Se o Senhor não me socorresse, em breve a minha alma habitaria a região do silêncio”. Retira o candelabro da nossa fé, apaga a luz da nossa confissão, quando de nós desvia a sua face. É por isso que afirma: Se não fizeres penitência, como é que o homem poderá fazer penitência sem o auxílio de Deus? Da aridez da nossa natureza, que rio de lágrimas pode brotar, se, por misericórdia de Deus, a vinda do espírito Santo deixa de orvalhar o coração contrito, e se não houver ninguém que exorte à penitência e a inspire?

[2,6] Isto, porém, tens de bom, diz, que aborreces as acções dos Nicolaítas, que eu também aborreço. Nicolaítas quer dizer “derramamento” ou “loucura da Igreja tíbia” – o que, com muita propriedade, se diz acerca dos hereges que, saídos da fonte da verdade, se arrojaram ao lodo da mentira. Este derramamento é assim descrito na lei: “Derramaste-te como água, e não crescerás”. Verdadeiramente, a loucura da Igreja tíbia e o dogma perverso dos hereges não saram as feridas do povo, mas enchem as nações com grandes enfermidades, pensando sobre Deus coisas falsas e ocupando-se com ideias absurdas. Sobre eles está escrito: “E pretendiam curar as chagas da filha do meu povo, para a sua ignomínia, dizendo: Paz, paz, quando não havia paz”. Finalmente, para dar a entender que, por meio deste segredo, tinha desvendado o mistério, diz:
[2,7] Aquele que tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às Igrejas.
E o Senhor, no Evangelho: “As palavras que eu vos disse, são espírito e vida”. Por isso, todo aquele que tem aberto o ouvido da fé e que presta atenção, pela disposição autêntica do homem interior, poderá escutar as palavras da revelação divina que o Espírito Santo profere: Ao vencedor darei a comer da árvore que está no paraíso do meu Deus: Depois de anunciar os trabalhos da Igreja e descrever a perversidade dos hereges, tendo ainda exortado os pecadores à penitência, promete uma recompensa aos que arrostaram com os trabalhos; essa é a árvore da vida; por causa dela, Adão, que não deveria tomar dela absolutamente nada, foi expulso do paraíso, e vão recebê-la, livremente, todos os que entram no paraíso. E diz assim: Que está no paraíso do meu Deus, onde respiram vida, onde os desígnios ocultos conferem virtude e onde o fruto da árvore da vida dá origem a uma eternidade imperecível.
[2,8] E ao anjo da Igreja de Esmirna escreve: Esmirna ou o “cântico deles”, isto é, daqueles que confessaram corajosamente a verdade católica.
A eles fala o Espírito Santo, dizendo: Isto diz o primeiro e o último, que foi morto, e que está vivo.
[2,9] Conheço a tua tribulação e a tua pobreza. Louva as obras desta sua Igreja, que está a caminho do Reino, no meio de grandes tribulações. Põe em relevo o valor da pobreza, porque posterga energicamente as coisas presentes, de modo a merecer a realidade futura. Mas és rico (em graça e santidade): A tua fé é vigorosa e encontras-te nimbado de graças. E és caluniado por aqueles que se dizem judeus, e não são, antes são uma sinagoga de Satanás. Muitas vezes, a Igreja é perseguida por aqueles que dizem reconhecer o Senhor, embora não o confessando, porque se congregam por instigação do demónio. Por isso, exorta esta sua Igreja a nada recear dos que matam o corpo e, depois, nada mais podem fazer. É como se dissesse:
[2,10] Não temas nada do que terás de sofrer.
Alude às tribulações e aos males que os ímpios lhe hão-de infligir e conforta os fiéis para não se atemorizarem com a perseguição. Faz-lhes ver também o que podem sofrer e que males o maligno lhes poderá causar. Eis que o demónio fará meter na prisão alguns de vós, a fim de serdes provados, e tereis tribulação durante dez dias. Tal como nos primórdios da Igreja Católica e após a morte do próprio Apóstolo que estas coisas referiu, também agora existe o sofrimento e muitas tribulações caíram sobre a Igreja e sabemos que continuarão a ser-lhe infligidas, quando vier o Anticristo. Apesar de, no presente e em diversos lugares da terra, sofrer muitas afrontas da parte dos heréticos e dos bárbaros, afirma porém: Tereis tribulação durante dez dias, isto é, se comparardes a perenidade da bem-aventurança com os males presentes que suportais, tê-los-eis de tão pouca monta e de tal brevidade que não parecem ser mais do que dez dias. Por isso, o apóstolo escreve: “Porque eu tenho por certo que os sofrimentos do tempo presente não têm proporção com a glória vindoura, que se manifestará em nós”. Conforta os santos, dizendo: Sê fiel até á morte, e Eu te darei a coroa da vida. No Evangelho, afirma-se: “Aquele, porém, que perseverar até ao fim, esse será salvo”. Pode acontecer que alguém, tendo vivido mal, venha, no fim, a ser perdoado pela penitência, e igualmente pode acontecer que alguém, tendo vivido rectamente, venha, no fim, a perder-se por algum desregramento. Porém, “aquele que perseverar até ao fim”, o que não condescender com as suas paixões e perseverar na fé de Cristo, até à morte, “esse será salvo” e ser-lhe-á concedida a coroa da vida.
20.02.2008
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Comentário ao Apocalipse
Autor
Apríngio de Beja
Edição crítica
Júlio da Cunha Antunes
Isidro Pereira Lamelas
Editora
Alcalá
Páginas
390
Data
2007
Pedidos e informações
Livraria da UCP
Telf. 21 721 40 24
ISBN
978-972-8673-54-3