Pedras angulares
Evocação

Beato Bartolomeu dos Mártires

Bartolomeu Fernandes do Vale nasce a 3 de Maio de 1514, em Lisboa, na freguesia dos Mártires, por cuja devoção veio a adoptar o nome.

A 11 de Novembro de 1528 entra no noviciado do Convento de S. Domingos de Lisboa, professando no ano seguinte. Conclui os estudos filosóficos e teológicos dez anos mais tarde. É promovido a Mestre em Teologia no Capítulo Geral da Ordem, em Salamanca, a 1 de Maio de 1551. Um ano depois torna-se preceptor de D. António Prior do Crato, futuro pretendente ao trono na crise de 1578-1580. A 8 de Agosto de 1558, e depois de muitas recusas à rainha, aceita o Arcebispado de Braga sob imposição do Provincial, Fr. Luís de Granada. A nomeação papal, entrega do pálio e a ordenação ocorrem no ano seguinte. Em 4 de Outubro de 1559 entra em Braga. Dois anos mais tarde parte para a terceira e última sessão do Concílio de Trento, onde apresentou 268 petições como síntese das interpelações de Reforma para a Igreja.

A sua actividade apostólica é multifacetada. Recordemos alguns elementos mais sugestivos. Notabilizou-se pela realização de visitas pastorais; empenha-se na evangelização do povo, tendo para o efeito, preparado um Catecismo ou doutrina cristã e práticas espirituais (com 15 edições); a solicitude pela cultura e santificação do clero leva-o a instituir aulas de Teologia moral em vários locais da Diocese e a escrever, entre as 32 obras doutrinais. Merece particular relevo o Stimulus Pastorum, distribuído aos Padres dos Concílios Vaticano I e II, que já conhece a vigésima segunda edição. A concretização do empenho de reforma encontra-se, também, em espaços estruturais a que deu vida.

Além de se distinguir pelas intervenções em Trento, D. Bartolomeu dos Mártires teve um papel de relevo em Portugal ao aplicar os decretos conciliares na sua arquidiocese. Para concretizar essas reformas efectuou um Sínodo Diocesano, em 1564, e outro Provincial, em 1566. Em 1571 ou 1572 dá início à construção do Seminário Conciliar no Campo da Vinha.

Deixou-nos mais de trinta escritos, dos quais se salientam: Stimulus Pastorum (com 21 edições); Catecismo da Dourina Cristã (com 15 edições) e Compendium Spiritualis Doctrinae (com 10 edições).

Faleceu a 16 de Julho de 1590, no convento dominicano de Santa Cruz, que havia fundado em Viana do Castelo para favorecer os estudos eclesiásticos e a pregação. O povo da cidade limiana guardou ciosamente o seu corpo, com armas até, para que os bracarenses não o levassem para a sede da arquidiocese. Foi beatificado a 4 de Novembro de 2001, em Roma, pelo Papa João Paulo II; a data escolhida tem um significado especial: é o dia litúrgico de S. Carlos Borromeu, com quem trabalhou arduamente na prossecução dos objectivos do Concilio de Trento. A sua memória assinala-se a 18 de Julho.

O texto que propomos reflecte uma das vertentes que aquele prelado procurou implementar: a reforma da formação do clero secular. A maioria dos padres diocesanos precisava de compêndios teológicos que respondessem à necessidade de uma fé mais aprofundada. O catecismo de Bartolomeu dos Mártires não é, como hoje, para crianças, jovens ou adultos, mas antes destinado ao clero.

O excerto do documento que apresentamos, do “Catecismo ou doutrina cristã e práticas espirituais”, Braga, 1564, afirma a necessidade da pregação, numa altura em que, na sequência da Reforma, começam a surgir correntes que vão entrar em disputa com o catolicismo. A acentuação da pregação, pela qual os fiéis tinham acesso às narrativas bíblicas, foi um indicador da crescente relevância que os Evangelhos começaram a ganhar.

 

Pela presente, mandamos a qualquer Abade, Reitor, Vigário ou Capelão deste nosso Arcebispado que em cada Domingo ou dia de guarda, para o qual, no presente livro, se não acha ordenado especial sermão ou prática, leia um capítulo da Doutrina Cristã; e nas Festas ou Domingos para os quais vão escritos particulares sermões, leia, em cada Domingo ou Festa, o sermão que lhe pertence. Com tal declaração que os Reitores que forem doutos na sagrada Escritura, teologia ou Cânones, não serão obrigados a ler pelo livro, mas poderão, com viva voz, tratar e praticar o que se contém no capítulo que responde a cada um dos ditos dias, ou pregar outras cousas que lhes parecem necessárias. Mas os outros que não houverem estudado as sobreditas ciências, serão obrigados a ler pelo livro da maneira que acima declaremos. (...)

Quanto à doutrina, que é mais fácil pasto de dar, claro está quão negligentes são os Abades, Reitores e Capelães. (...)

Esta é uma das cousas que se muito deve chorar na Igreja de Deus, maiormente nas igrejas de montes e lugares, onde nunca ou mui poucas vezes há pregação. Os fregueses das quais nunca ouvem outra palavra de Deus, nunca ouvem outra doutrina senão a que lhes diz seu cura ao Domingo. (...)

O sacerdote e pastor, que Deus ali pôs para lhes levantar os corações da terra, para lhes ensinar a lei, não o faz. Que se pode esperar senão que, assim como os corpos morrem quando passam muitos dias sem lhe dar de comer, assim morram aquelas almas por falta de alimento espiritual? (...)

E querendo eu, em alguma maneira, acudir a este mal (como me obriga meu ofício pastoral), pela multidão das freguesias que há neste arcebispado de Braga, na maior parte das quais não há pregação, determinei ordenar a seguinte doutrina acomodada ao propósito que disse (...) qual convém para se dizer à gente popular, para os trazer a algum conhecimento e amor de Deus. E, por isso, não quis multiplicar autoridades, nem trazer doutrinas de teologia escuras e difíceis de entender. Somente escolhi aquilo que me pareceu ser mais conveniente a este propósito. No Primeiro, se tratará a doutrina cristã (...), declarar-se-á o Credo com os artigos da fé que nele se contêm, e, após ele, se declarará a oração do Pater Noster. E, depois, trataremos dos Mandamentos que havemos de guardar, e dos pecados que havemos de fugir, e, finalmente, dos sete Sacramentos da Igreja. No Segundo, se porão umas breves colações e práticas espirituais e doutrinais sobre as Missas dos Domingos do Advento, e assim desde a Septuagésima até à Páscoa e festas principais de todo o ano, tocando, brevemente, do Evangelho ou da Epístola ou do Intróito da Missa e Oração, somente aquilo que me parecer mais proveitoso para a edificação e devoção do povo, para que, em alguma maneira, entenda e goste o que se diz na Missa, pois para isso se diz. (...)

Fontes: Congregação para as Causas dos Santos | Infopédia

Rui Martins

16.07.2008

 

 

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