
Chesterton: Ortodoxia
A "Alêtheia" reeditou recentemente a obra "Ortodoxia", de Gilbert Keith Chesterton (1874-1936). Apresentamos dois excertos do capítulo VI, intitulado "Os paradoxos do Cristianismo".
«Até essa altura, tudo quanto tinha ouvido dizer acerca da teologia cristã me afastara dela. Aos doze anos, era pagão, aos dezasseis era completamente agnóstico; e não consigo conceber que uma pessoa passe pelos dezassete anos sem ter feito a si mesma pergunta tão simples. Mantinha, é certo, uma nebulosa reverência por uma divindade cósmica, a par de um enorme interesse histórico pelo Fundador do cristianismo. Mas não tinha dúvida nenhuma em O considerar um homem – embora talvez achasse que, mesmo assim, Ele tinha algumas vantagens relativamente a alguns dos pensadores modernos que O criticavam. Li a literatura científica e céptica do meu tempo, ou pelo menos toda a literatura que consegui encontrar em inglês; e não li nada mais – quero eu dizer, não li mais obras de filosofia. Na verdade, os romances de cordel que também li pertenciam à saudável e heróica tradição do cristianismo, mas na altura eu não sabia. Não li uma linha que fosse de apologética cristã; actualmente, leio o mínimo que posso. Foram Huxley,
Herbert Spencer e Bradlaugh que me fizeram regressar à teologia ortodoxa, por me terem semeado no espírito as primeiras dúvidas terríveis que eu tive acerca da dúvida. As nossas avós tinham toda a razão em afirmar que Tom Paine e os livres-pensadores perturbavam o espírito. Perturbam, de facto; a mim, perturbaram-me horrivelmente. Os racionalistas levaram-me a perguntar se a razão tinha alguma utilidade; e, quando acabei de ler Herbert Spencer, tinha chegado ao ponto de duvidar (pela primeira vez na minha vida) de que tivesse efectivamente havido evolução. Quando terminei de ler a última conferência do coronel Ingersoll sobre o ateísmo, ocorreu-me um pensamento horrível: «Por pouco não me persuadias a fazer-me cristão.» Sentia-me desesperado.
Este estranho efeito que os grandes agnósticos têm sobre os seus leitores, e que consiste em suscitarem dúvidas mais profundas do que as deles, pode ser ilustrado de muitas maneiras. Opto por uma delas: ao ler e reler todas aquelas descrições da fé, as não cristãs e as anticristãs, desde as de Huxley até às de Bradlaugh, foi-se instalando no meu espírito, gradual mas graficamente, a terrível impressão de que o cristianismo devia ser uma coisa extraordinária. É que, para além de conter os vícios mais flamejantes (assim me parecia então), o cristianismo tinha ainda um talento místico que lhe permitia combinar vícios que pareciam ser inconsistentes uns com os outros. Com efeito, esta doutrina era atacada de todos os lados e por motivos contraditórios. Mal um racionalista havia demonstrado que ficava excessivamente para oriente, logo outro racionalista demonstrava, com igual clareza, que ficava excessivamente para ocidente. Ainda a minha indignação contra a angular e agressiva quadrangularidade da doutrina não se tinha desvanecido, logo era chamado a condenar a sua enervante e sensual rotundidade. No caso de algum leitor não ter bem presente o que pretendo dizer, apresento os exemplos da autocontradição presente no ataque dos cépticos que me ocorrem assim de repente. Darei quatro ou cinco exemplos; mas podia dar outros cinquenta.
Assim, por exemplo, fiquei muito impressionado com o eloquente ataque ao cristianismo por ser uma doutrina de uma melancolia desumana; porque achava (e continuo a achar) que o pessimismo sincero é um pecado que não tem perdão. O pessimismo fingido é um feito social, mais agradável do que outra coisa; e, felizmente, quase todo o pessimismo é fingido. Mas se, como afirmavam os seus contraditores, o cristianismo era puramente pessimista e contrário à vida, eu estava disposto a pôr uma bomba na Catedral de São Paulo. Verificava-se, contudo, uma coisa extraordinária; é que, no Capítulo 1, estes autores demonstravam (a meu ver, na perfeição) que o cristianismo era excessivamente pessimista; e a seguir, no Capítulo 2, começavam a demonstrar que era excessivamente optimista. Uma das acusações contra o cristianismo era a de que impedia as pessoas – por meio de lágrimas e de terrores mórbidos – de procurarem a alegria e a liberdade no seio da natureza; outra acusação, no entanto, era a de que reconfortava as pessoas com a existência de uma providência fictícia, permitindo-lhes adormecer num berço cor-de-rosa. Um dos grandes agnósticos perguntava se a natureza não era suficientemente bela, e se era assim tão difícil ser livre; outro dos grandes agnósticos objectava que o optimismo cristão, «esse trajo de ficção tecido por mãos piedosas», nos ocultava o facto de a natureza ser feia, e a liberdade impossível. Ainda um dos racionalistas não tinha acabado de considerar que o cristianismo era um pesadelo, já outro começara a considerá-lo um paraíso destinado a enganar os tolos.
Aquilo intrigava-me; dava-me a impressão de que estas acusações eram inconsistentes. O cristianismo não podia ser, a um tempo, a máscara preta de um mundo branco e a máscara branca de um mundo preto. A situação do cristão não podia ser, a um tempo, tão confortável, que ele era um cobarde por se apoiar nela, e tão desconfortável, que ele era um louco por se permitir suportá-la. Se o cristianismo falsificava a visão humana, tinha de a falsificar, ou para um
lado, ou para o outro; não podia falsificá-la emprestando às pessoas óculos com lentes cor-de-rosa e verdes ao mesmo tempo. Deliciei-me, como se deliciavam os meus jovens contemporâneos, com os insultos lançados por Swinburne contra a insipidez do culto cristão:
Conseguiste, ó pálido Galileu, que o mundo se tornasse
Cinzento com o teu respirar.
Mas, quando li as descrições que o mesmo poeta fazia do paganismo (em Atlanta, por exemplo), pareceu-me que o mundo fora, se possível, ainda mais cinzento antes de Galileu ter começado a respirar. Com efeito, o poeta argumentava em abstracto que a vida, em si mesma, era completamente negra; e, contudo, o cristianismo ainda a tinha enegrecido mais. O sujeito que acusava o cristianismo de ser pessimista era, ele próprio, um pessimista. Pareceu-me que havia ali qualquer coisa que não estava bem. E ocorreu-me, por momentos, que estes pensadores talvez não fossem os melhores juízes da possível relação entre a religião e a felicidade, uma vez que, segundo eles próprios afirmavam, viviam privados de uma e de outra.
Convém salientar que não me apressei a concluir que as acusações eram falsas, ou que os acusadores eram idiotas. Limitei-me a deduzir que o cristianismo devia ser uma coisa ainda mais peculiar e malévola do que eles sugeriam. Uma coisa pode, é certo, ter estes dois vícios contrários; mas, para isso, tem de ser realmente singular. Uma pessoa pode ser gorda de mais num lado e magra de mais noutro; mas, para isso, tem de ter uma figura um bocado estranha. Nesta altura, a única coisa que me ocorria era que a religião cristã devia ter uma figura deveras estranha; não me passava pela cabeça que o que tinha uma figura estranha era a mente racionalista.
Posso dar outro exemplo do mesmo género. Eu tinha a impressão de que uma das acusações mais drásticas que se podiam fazer ao cristianismo era a de que tudo aquilo que se chama «cristão» tem em si qualquer coisa de tímido, de monacal, de pouco viril, especialmente no que diz respeito à atitude para com a resistência e a guerra. Os grandes cépticos do século XIX eram imensamente viris. Quer Bradlaugh – de forma expansiva –, quer Huxley – de forma reticente –, eram decididamente homens. Em comparação com eles, parecia-me razoável sustentar que os ensinamentos cristãos eram, de alguma maneira, fracos e excessivamente pacientes. O paradoxo evangélico relativo à outra face, o facto de os sacerdotes nunca participarem em guerras, eram centenas de coisas que tornavam plausível a acusação de que o cristianismo era uma tentativa de transformar os homens em cordeiros. Eu li essa tese e acreditei nela; e, se nunca tivesse lido nada que a contraditasse, continuaria a acreditar nela. A verdade, porém, é que a seguir li algo que a contradizia; ao virar a página daquele manual agnóstico, o cérebro voltou-se-me de pernas para o ar, porque percebi que me exigiam que odiasse o cristianismo, não por se recusar a combater, mas por combater demasiado. Dava a impressão de que o cristianismo era o pai de todas as guerras; de que o cristianismo tinha inundado o mundo de sangue. Eu tinha-me irritado profundamente com os cristãos porque eles nunca se irritavam; e agora ordenavam-me que me irritasse com eles porque a ira dos cristãos fora o mais horrendo de todos os factores da história humana; porque a ira dos cristãos ensopara a terra de sangue e ensombrara o sol. As mesmas pessoas que criticavam o cristianismo por causa da mansidão e da não resistência dos mosteiros, essas mesmas pessoas criticavam o cristianismo por causa da violência e da bravura dos cruzados. O pobre cristianismo era responsável (de uma maneira ou de outra), quer pelo facto de Eduardo, o Confessor, não se ter travado de razões, quer pelo facto de Ricardo Coração de Leão se ter travado de razões. Os únicos cristãos a sério eram os quakers (diziam estes autores); e, contudo, os massacres perpetrados por Cromwell e pelo duque de Alva eram crimes tipicamente cristãos. O que significava tudo isto? Que cristianismo era este, que proibia a guerra, mas estava sempre a produzir guerras? Que natureza tinha afinal esta coisa, que podia ser insultada, primeiro por se recusar a combater, e logo a seguir por estar constantemente envolvida em combates? Em que mundo de enigmas tinha nascido este monstruoso assassino e esta monstruosa mansidão? A forma do cristianismo parecia-me mais estranha a cada momento que passava.»
(...)
«E este é o emocionante romance da ortodoxia. As pessoas adquiriram o tolo costume de se referir à ortodoxia como se fosse uma coisa pesada, enfadonha e segura; a verdade é que nunca houve coisa mais perigosa, nem mais animada, do que a ortodoxia. Ser ortodoxo era ter sanidade mental; mas ter sanidade mental é mais dramático do que ser louco. Era o equilíbrio de um homem que guiava cavalos em louca cavalgada, que parecia inclinar-se para um lado e curvar-se para o outro, mas que ostentava, em todas essas atitudes, a graça da estatuária e a precisão da aritmética. Nos seus primeiros tempos, a Igreja agarrava-se com força e ferocidade a qualquer cavalo de batalha; mas é totalmente falso afirmar que se limitou a enlouquecer com uma ideia, como se se tratasse de um vulgar fanatismo. A Igreja desviava-se para a esquerda e para a direita, a fim de evitar com precisão enormes obstáculos; de um lado, distanciava-se do gigantesco volume do arianismo, que, escorado nos poderes deste mundo, queria tornar o cristianismo excessivamente mundano; logo a seguir, deixava do outro lado o orientalismo, que a teria obrigado a ser excessivamente não mundana. A Igreja ortodoxa nunca assumiu a via domesticada, como nunca aceitou as convenções; a Igreja ortodoxa nunca foi respeitável. Teria sido muito mais fácil aceitar o poder terreno dos arianos. Como teria sido fácil, no século XVII calvinista, deixar-se cair no poço sem fundo da predestinação. É fácil ser louco; é fácil ser herege. É sempre fácil permitir que o século leve a sua avante; o difícil é resistir-lhe. É sempre fácil ser moderno; como é fácil ser pretensioso. Teria sido realmente muito simples cair em qualquer das armadilhas simples do erro e do exagero que moda após moda e seita após seita montaram no caminho do cristianismo. Cair é sempre simples; a pessoa pode cair num número infinito de posições, mas só pode permanecer de pé numa posição. A coisa mais óbvia, a atitude mais domesticada, teria sido efectivamente deixar-se levar por qualquer desses caprichos, desde o gnosticismo até ao cientismo cristão. Tê-los evitado é que foi uma espantosa aventura; na visão que eu tenho dos factos, o carro dos céus avança estrepitosamente pelos tempos fora, as domesticadas heresias vão cedendo e prostrando-se, a selvagem verdade progride titubeando, mas sem nunca cair.»
G.K. Chesterton
in Ortodoxia, Alêtheia Editores
26.11.2008
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